Sport Club Corinthians Paulista:
a origem da paixão

Marco Antunes de Lima
marco@klepsidra.net
2º Ano - História/USP
corinthians.doc - 49KB

Introdução

Este texto foi escrito em 1998, quando ainda não cursava a faculdade de história, e talvez por isso sua linguagem não seja tão desenvolvida quanto a de um texto escrito no meio universitário. O texto se desenvolve como uma monografia tradicional, onde colocarei uma pergunta a ser discutida e respondida no final do texto. Como o título indica, a narrativa fala sobre o Sport Club Corinthians Paulista em seus primeiros anos. Como sou corintiano, talvez você, leitor, encontre aspectos de fanatismo e um pouco de exaltação ao clube. No entanto, todo texto, alguns mais diretamente e outros não, trazem a visão e a ideologia do seu autor, e este não será diferente. Espero que goste.
 

Estação da Luz em postal da década de 10: localzada próxima
ao local de fundação do Corinthians no Bom Retiro
Já são 90 anos de vida, desde o longínquo ano de 1910, quando o futebol no Brasil ainda estava na infância. Foi nesse ano que surgiu o Sport Club Corinthians Paulista, um dos maiores clubes do futebol brasileiro. Esse clube, hoje em dia, tem uma das maiores torcidas dentro do Brasil. Quem nunca ouviu falar no Corinthians? São milhões de apaixonados pelas cores preta e branca espalhados pelos quatro cantos do país. Sua capital? A cidade de São Paulo, a principal metrópole da nação. Hoje, o clube fica no bairro do Tatuapé, bairro de classe média paulistana. Mas não foi lá que ele nasceu, e sim no bairro do Bom Retiro, região central da cidade. Atualmente um bairro comercial, em 1910 o Bom Retiro era uma área operária, onde milhares moravam e trabalhavam na São Paulo industrial do começo do século XX. 

Foram cinco desses operários que fundaram o clube que conhecemos hoje como Corinthians, que passou por muitas dificuldades ao longo de sua história, até ser grande e gerar paixões, às vezes inacreditáveis, por todo o Brasil.

Esse clube é conhecido pela sua torcida, considerada fanática e apaixonada pelo futebol. Esta paixão tem uma origem, a qual estudaremos aqui a partir da seguinte questão a ser respondida: Qual o papel social do Sport Club Corinthians Paulista na busca da identidade cultural e social de seu torcedor, dando origem à paixão corintiana? Com esta questão pretendemos mostrar que o famoso "Timão" tem um papel social e cultural muito importante na vida de certas multidões - principalmente nos primeiros tempos de sua criação, quando seus torcedores eram, em maioria, imigrantes e operários da cidade que crescia de maneira acelerada nos primeiros anos deste século.

O Corinthians é uma forma de identificação sócio-cultural, mas não como qualquer clube. Ele gera grandes e extremadas paixões. Com este recorte podemos estudar a identificação dos primeiros torcedores com o clube. Este tema nos possibilita estudar a identificação individual do paulistano na República Velha, já que o clube possibilita essa identidade pessoal do cidadão/torcedor aflorar e fortalecer-se, o que é importante para entendermos o torcedor corintiano de hoje, e até mesmo a própria cidade de São Paulo. Assim, com este trabalho pretendemos mostrar que o Corinthians é um fenômeno social, podendo ,assim, entender a paixão que o clube exerce em sua torcida.

A justificativa pessoal que existe para este trabalho não poderia ser outra. Afinal, como já disse, sou corintiano e quero conhecer a história e principalmente a origem deste clube cada vez melhor. Pretendo estudar esse time que gera tantas paixões, pois ele também provoca isso em mim.
 

O futebol paulista no começo do século.

As duas primeiras bolas de futebol chegaram ao Brasil em 1894, com um brasileiro, filho de ingleses, chamado Charles Miller. Desde lá, o jogo não parou mais de ser praticado no país. Os primeiros amistosos entre clubes surgiram nos anos de 1899/1900, com os clubes do São Paulo Athletic, Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros), Mackenzie e a Internacional. Todos tinham sócios da elite paulistana, de origens as mais diversas - como Americanos, Ingleses e Alemães. O esporte continuou a crescer, e em 1902 surgiu a Liga Paulista de Football, com apenas cinco clubes (os quatro já mostrados acima mais o C. A. Paulistano, também da elite ). A liga organiza o primeiro campeonato paulista de futebol, cujo campeão seria o São Paulo Athletic, que possuía Charles Miller, o responsável pelo futebol no Brasil.

Os primeiros anos de campeonato paulista foram conturbados, com saídas e entradas de times, divisões de liga (entre Associação Paulista de Esportes Atléticos e a Liga, na segunda década do torneio) e até desaparecimento de taça de campeão, acontecido no ano de 1911. A hegemonia do futebol paulista nos primeiros anos ficou entre o time do Paulistano, do São Paulo Athletic e do A . A Palmeiras. Mas também já existiam vários times de várzea espalhados por toda a cidade, já que o futebol começava a ganhar seu espaço também nas camadas populares. Muitas equipes surgiram, e uma delas, em 1910, era o Sport Club Corinthians Paulista, do qual começamos a falar agora.
 

A ORIGEM

Em 1º de Setembro de 1910, às 20h30, no Bom Retiro, bairro operário de São Paulo que contava principalmente com imigrantes italianos, portugueses e espanhóis, nasceu a paixão. Mais exatamente na Rua dos Imigrantes, nº 34, esquina com a Rua Cônego Martins, surgia o Sport Club Corinthians Paulista. Seu aparecimento é simples. Cinco operários do bairro - Antônio Pereira, Joaquim Ambrósio, Anselmo Correia, Carlos da Silva e Rafael Perrone - resolveram fundar um clube de futebol. São eles a quem todo corintiano deve agradecer. Sentados em frente a uma confeitaria, apenas sobre a luz de um lampião de gás, tiveram a idéia de fundar um clube operário para jogar nas várzeas paulistas. Mas por quê um time chamado Corinthians?


O Brasão do
Corinthians Casuals
A origem do nome vem de um time de estudantes ingleses que passara por São Paulo e Rio de Janeiro para disputar amistosos e cujo nome era Corinthian Casuals Football Club, em homenagem a cidade grega de Corinto. Em seus jogos no estádio do Velódromo (localizado na área do bairro da Consolação, mas já extinto) este time encantou muita gente pelo bom jogo apresentado. Não deixou inclusive de encantar aqueles cinco rapazes do Bom Retiro, que dias depois fundariam seu próprio clube. Inicialmente, o Corinthians não tinha um nome definido, mas várias sugestões diferenciadas: a primeira foi Santos Dumont, em homenagem ao criador do avião; a outra foi Carlos Gomes, em homenagem aos italianos do bairro, já que o maestro escrevia suas óperas em italiano.

Mas então Joaquim Ambrósio, na primeira reunião, pediu a palavra e propôs que o time se chamasse Sport Club Corinthians Paulista em homenagem ao time inglês que passara com grande sucesso e que, segundo suas palavras, também fora fundado à luz de um lampião de gás. Provavelmente Ambrósio tinha a intenção de mostrar a seus companheiros que o novo clube um dia poderia se tornar conhecido como o Corinthian inglês. Ele tinha em seu pensamento que um clube de operários poderia ser grande e famoso, mesmo com um nascimento simples, e tomava como exemplo o time de outras terras. Mas Ambrosio talvez esquecera de explicar que o Corinthian (time inglês) fora fundado por alunos de Oxford e Cambridge, universidades freqüentadas por pessoas da elite inglesa, geralmente filhos de burgueses. O novo Corinthians Paulista seria o oposto dessa situação. Mas a única diferença entre ambos não seria essa.

Se o novo Corinthians tinha o "s" no final, e o outro não, o que aconteceu no nome? Simples. Quando o time inglês jogava, os torcedores gritavam "go Corinthian". A imprensa e o público em geral pensavam que Corinthian era o nome de um jogador do team inglês, e nos jornais do dia seguinte saía que o "Corinthians Team" (ou seja, uma expressão da língua inglesa, significando "time do jogador Corinthian") vencera a partida. Foi assim que o Corinthian se tornou Corinthians no Brasil.

Todo time tem as suas ambições, e com o Corinthians a história não seria diferente. Os seus primeiros fundadores e sócios tinham sonhos diferenciados com a evolução da equipe. Alguns diziam que o Corinthians deveria se tornar um time grande, como o Paulistano e o São Paulo Athletic, e disputar os campeonatos da Liga Paulista para ganhar, não se restringindo à várzea. Outros queriam que a equipe fosse apenas um time de bairro, para disputar campeonatos na várzea. Essas pessoas tinham medo do novo clube encarar os grandes do futebol paulista, e até mesmo de não ser aceito. Queriam que o Corinthians realmente fosse como um pequeno clube destinado apenas aos moradores do Bom Retiro, como se fosse o centro de uma associação de bairro.

É preciso dizer, assim, que o Corinthians não existe apenas porque o time inglês passara por São Paulo: ele só tem o nome em homenagem a tal time. A idéia dos homens que fundaram o Corinthians Paulista já estava preparada, independente do time inglês chegar ou não ao Brasil; a idéia de existir um time operário, ou club dos operários, como era conhecido, já tinha nascido e cristalizado. O futebol estava em alta no Brasil e se popularizava aos poucos, principalmente nos vários campos de várzea existentes por toda a cidade. Os operários do Bom Retiro já estavam pensando em ter o seu próprio clube para praticar esportes e desfrutar de lazer no seu próprio bairro. A idéia de que o Corinthians não foi fundado a partir do clube inglês pode ser provada pelos diversos nomes possíveis que este clube poderia ter e que, como já foi dito anteriormente, por meio de uma votação, se tornou Sport Club Corinthians Paulista. Ele foi a realização de um sonho, acima da influência da equipe inglesa ou não.

A TORCIDA

Mosqueteiro, símbolo da
torcida corinthiana
A torcida corintiana hoje é composta por milhões de pessoas, sendo a segunda maior do Brasil. Todos já ouvimos falar do fanatismo desses torcedores, conhecidos como fiéis ao seu clube do coração. Os primeiros membros da torcida alvinegra com certeza eram do bairro do Bom Retiro, e, foram estes que ajudaram a construir essa grande "nação" chamada Corinthians. Essa massa sempre teve fortes relações com o clube desde os tempos de várzea, e o clube sempre ofereceu-se como uma forma de lazer aos seus torcedores. Por exemplo, na compra da primeira bola do time se passou uma lista por todo o bairro, para quem quisesse dar algum dinheiro com a intenção de ajudar o novo clube, e, como sabemos e vemos hoje, muitos ajudaram. Além disso, muitos dos primeiros sócios não tinham, às vezes, dinheiro para pagar a mensalidade do clube, devido à sua situação financeira , mas sempre se dava um jeito de acertar as contas. O clube, como consta em sua ata, oferecia aos seus sócios pic-nics, saraus e se propiciava à organizar matchs (partidas) para divertir os seus torcedores e sócios com a prática do futebol. 

Torcedores, que aumentaram com o tempo e, iam sempre assistir o Sport Club Corinthians Paulista na várzea, e depois, nos estádios da Liga Paulista de Futebol. Isso nos mostra que a torcida, desde o início da história do clube, sempre esteve ligada a este, já que o clube propiciava aos mesmos uma forma de lazer e diversão.
 

Muitos dos sócios e torcedores do Corinthians eram imigrantes da Itália, Espanha e Portugal, o que era muito comum no bairro do Bom Retiro no começo do século. O processo imigratório ao Brasil nestes anos estava em grande velocidade: milhares de imigrantes europeus chegavam em São Paulo para trabalhar na crescente indústria paulista, e alguns se instalavam no bairro do Bom Retiro. O Clube Corinthians tinha como sócios, assim, muitos imigrantes e descendentes destes e também entre seus torcedores. O Corinthians não tinha em sua massa torcedora apenas imigrantes de uma só nacionalidade, mas de diferentes lugares, principalmente da Europa. Pode-se ver isto por alguns jogadores que passaram pelo clube nos primeiros anos, como o espanhol Casemiro Gonzales; o português Horácio Coelho e o italiano Américo Fraschi. Isso nos mostra que o Corinthians é um clube generalizado, que faz a tentativa de unir o proletariado usando como base o lazer e a diversão, não importando a origem deste operário. Por outro lado, o imigrante resgata a sua cultura dentro do clube, principalmente nos saraus que este propiciava aos seus sócios.

Miguel Bataglia:
o primeiro presidente do Corinthians

A camada social que freqüentava o clube era em sua totalidade composta por operários e pequenos comerciantes, como sapateiros, barbeiros e outros, todos do Bom Retiro. Mais tarde os operários-torcedores vinham de várias partes da cidade, principalmente após o Corinthians começar a fazer sucesso e entrar para a "Liga Paulista de Futebol". Uma camada pobre da população freqüentava preferencialmente o clube, não tendo muita renda mas fazendo de tudo para ajudá-lo. A área administrativa do Corinthians também era composta por pessoas da mesma classe, como Miguel Bataglia, que trabalhava na Light e foi o primeiro presidente do time, ajudando a comprar seu primeiro terreno. Muitos outros elementos da área administrativa, se não a maioria, eram de classe baixa, ou pequenos comerciantes ou operários. O clube do Corinthians proporcionava um modo destes trabalhadores se divertirem como faziam muitos, principalmente praticando o futebol. Hoje em dia a situação mudou pouco: os torcedores do Corinthians são de todas as classes, mas ainda, em sua maioria, provêm da classe baixa. Porém, os sócios do clube atualmente são, em maioria, da classe média paulista, e não da massa proletária, como antes. No entanto, os torcedores mais fanáticos ainda continuam nas pessoas simples de classes mais baixas.
A famosa bola quadrada
Todo clube tem em sua torcida muitos fatos estranhos e de paixão. Com o Corinthians não poderia ser diferente, e alguns fatos de seus "fanáticos" serão mostrados a seguir, a fim de esclarecer o que o time exerce em seus torcedores. O primeiro fato que mencionaremos, talvez um dos mais engraçados, é o de uma bola quadrada até hoje guardada no clube. Durante uma partida do Corinthians, foi jogada em campo uma bola quadrada que ninguém sabe quem jogara, mas o que importou é que foi o corintiano se divertiu muito e mantém a história viva, porém oculta, até hoje na história do clube. Outro caso é do torcedor José da Costa Martins que, na década de 20, a cada gol que o Corinthians marcava nos jogos acendia um charuto. Por esse motivo Martins ficou conhecido como torcedor "mosqueteiro corinthiano" (mascote do time), que está sempre fumando um charuto. Esse fato mostra as manias que muitos corintianos têm em relação ao clube, retratando a paixão de torcedor. 
Mas há um terceiro caso, de um homem que era mais do que torcedor corintiano, e sim um ídolo na história do clube: Manuel Nunes, o Neco, primeiro grande craque corintiano, a quem o clube deve muitas vitórias. Seu caso é o retrato de como um torcedor pode fazer para manter ainda vivo o seu time. Nos seus primeiros anos de existência, o Clube Corinthians passava por uma crise financeira, não conseguindo pagar o aluguel de sua pequena sede. Não demorou muito, e o dono do estabelecimento trancou as portas do lugar com tudo o que havia de patrimônio do clube dentro, inclusive as primeiras atas e a primeira taça do clube. Tudo seria perdido se não fosse por Neco e alguns amigos: na calada da noite, eles arrombaram e entraram na sede pela janela, e retiraram todos os pertences do clube. Poucos anos depois, Neco se tornaria um dos maiores jogadores da história do Corinthians. Este caso nos mostra a maior paixão que um torcedor pode ter pelo seu clube. Talvez Neco tenha feito isso para não perder o seu espaço de lazer, o Sport Club Corinthians Paulista.

Neco: o primeiro ídolo corinthiano

TEM COISAS QUE ATRAPALHAM

Todos passam por dificuldades, e com o Sport Club Corinthians Paulista não foi diferente, ainda mais pela sua origem nos seus primeiros anos de existência . Esse e outros fatores serão estudados neste trecho, destinado aos momentos difíceis que o Corinthians passou no início de sua história. O time sofreu muitos preconceitos no início de sua história, devido à origem social vinda da classe operária. Muitos não gostavam de ver o Corinthians levando pessoas para ver seus jogos, e com isso já nascia naquele tempo o termo "Anti-corinthianismo", mas é claro, bem diferente do atual. O termo, no início de sua história, é devido ao Corinthians ser um clube de operários que ganhava espaço no futebol paulista. Hoje em dia, deve-se à rivalidade que o clube tem com outros times paulistas e brasileiros. O preconceito era visível, principalmente quando o Corinthians reivindicava um lugar no Campeonato Paulista, mesmo sendo um clube de várzea. A chance de jogar, quando apareceu pela primeira vez, foi logo retirada, já que um dos times grandes que saíra do torneio resolveu voltar, tirando o Corinthians. Pode-se perceber certo preconceito neste momento por parte dos dirigentes da Liga Paulista de Futebol, que mesmo prometendo não cumpriram a palavra. O alvinegro reclamou e conseguiu participar do seu primeiro Campeonato Paulista em 1913, mas antes teria de passar por um triangular para aí sim poder disputar o Campeonato com os grandes. Por meio dessa manobra podemos perceber as tentativas de não deixar o Corinthians disputar com os grandes times. Dizem até que um dos primeiros jogadores negros do futebol brasileiro, Davi, jogou no Corinthians, mas somente no segundo quadro do time, pois seria mais difícil ainda ser aceito no Campeonato.
 

Uma das primeiras taças conquistadas pelo clube
Aqueles que viam com maus olhos o Corinthians perceberam que deveriam deixar o preconceito com o clube de lado, não por sentirem que todos são iguais e sim porque se deram conta de que o Corinthians poderia dar lucro à Liga Paulista de Futebol, já que o clube sempre lotava os estádios e campos em que jogava. Provavelmente esse foi um dos fatores que fez com que o Corinthians entrasse na Liga; o preconceito dos "anti-corinthianos" não deixou de existir, tanto que a seguir veremos como se deu a não-participação do Corinthians no Campeonato Paulista de 1915. 

O Corinthians era o campeão paulista do ano anterior, pois derrotara todos os grandes times do futebol paulista. Este já estava dividido, entre duas ligas: a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) e a LPF (Liga Paulista de Futebol); a primeira convidou o Corinthians a participar de seu campeonato de 1915, por interesses financeiros. 

O Corinthians saiu da LPF e foi à APEA, mas, na hora de competir, não foi aceita sua participação, levou um "passa-moleque", e também não pôde voltar à LPF, ficando fora dos dois campeonatos. Neste momento, percebe-se que o preconceito imperou sobre o Corinthians, gerando muitas dificuldades ao clube e quase o extinguindo, mas o time deu a volta por cima, e existe até hoje.

O maior preconceito existente no início da história corintiana foi por parte da elite paulistana, que torciam e participavam de clubes grandes, como o Paulistano, o São Paulo Athletic e o Mackenzie contra os Corinthians operários e imigrantes sócios e torcedores deste clube. A elite nunca quis que no futebol, principalmente em seus campeonatos, se inserisse pessoas da classe mais baixa. Por essa razão não gostavam de jogar contra um time do bairro do Bom Retiro, formado por operários que muitas vezes eram seus subordinados. Não raras vezes, e o Corinthians ganhava dos times de elite, conquistando até campeonatos, o que deixavam os elitistas muito irritados, a ponto de tentarem tirar esses operários do cenário do futebol, como em 1915.

Essa rivalidade de operários e imigrantes contra a elite burguesa paulista no campo era uma forma de extravasar os sentimentos que se passavam nas indústrias e na vida cotidiana da cidade de São Paulo no começo deste século. O preconceito por parte da elite era muito grande e isto se passava para o futebol, como veremos no trecho a seguir. Alguns elitistas queixavam-se: "São Paulo transformou-se num vasto campo de Football. Há sociedades por todos os campos...Os clubes da Liga acolheram em seu seio rapazes da Várzea. Fizeram bem? Achamos muito justo que os operários, os humildes, participem das refregas, mas os operários e humildes que compreendem os seus deveres de Soprassem. Desta forma apareceram ao Velódromo, da noite para o dia, inúmeros soprassem de outras plagas e outros costumes... Os antigos, fiéis aos velhos hábitos, receberam com hostilidades seus companheiros. E dahi, desse encontro inesperado, que era, aliás, uma conseqüência inevitável do progresso do football, resultaram os factos tristíssimos de 1909 à 1912..." (Diaféria, pg 71). Neste trecho, podemos perceber que os elitistas põem a culpa de fatos como o desaparecimento de uma taça e divisões no futebol, naqueles de classe mais baixa, como operários e imigrantes, que foram "acolhidos" pelos clubes, só que pelos seus hábitos, outro preconceito da elite, estragaram o verdadeiro futebol. O que esses elitistas não falam é que foram os dirigentes de um clube de elite que sumiram com a taça, e também que muitos jogadores da várzea, como os do Corinthians em 1915, eram convidados e até pagos a jogar por esses clubes da elite. A disputa, regada por preconceitos, entre operários e imigrantes contra a elite burguesa transformava o futebol numa competição, não somente por pontos mas pelo poder social. Os corintianos tinham a intenção de se ascender no futebol paulista, e faziam de tudo para conseguir isto, até mesmo aceitar que era caluniado, mas não desistir, como admitiu Ricardo de Oliveira, seu presidente, falando sobre a mudança de sede, "até mesmo para a elevação moral do clube, que, como todos os sócios sabiam, era injustamente difamado por outros clubes e pelos inimigos, que não podendo vencê-lo no campo de futebol, esmeravam-se em difamá-lo... A mudança de sede tinha a intenção de colocar o clube à altura das agremiações congêneres..."(Diaféria, pg 149).

O Corinthians passou por grandes problemas financeiros no começo da sua história, sendo um dos anos mais críticos o de 1915, mas desde a sua fundação ele passou por problemas relacionados às suas contas. Muitos desses problemas financeiros são decorrentes do Sport Club Corinthians Paulista ser um clube de classe baixa, já que este e seus sócios não tinham muita renda e não disponham da ajuda de ninguém, a não ser de um ou outro torcedor que tinha um pouco mais e tentava ajudar, mas mesmo assim, não era o suficiente.

Como vimos, o Corinthians não jogou o Campeonato Paulista de 1915, por não ser aceito em nenhuma das liga. Esse ano foi considerado um ano de vida ou morte para o clube, pois seu caixa ia de mal a pior, o dinheiro não conseguia cobrir muitos aluguéis, como o campo do Lenheiro, onde jogava; mudou sua sede para a rua dos protestantes, que era perto do bairro, mas alguns reclamavam dizendo que a má situação acontecia por haver saído do bairro e da antiga sede. A presidência era muito criticada pelos sócios devido à situação do clube, que estava muito difícil para o Corinthians. Muitos dos sócios estavam desempregados e não conseguiam pagar suas mensalidades, gerando menos renda ao caixa corintiano, mas nunca esses tiveram suas "carteiras" de sócios invalidadas. Felizmente o clube passou por essas dificuldades e sobreviveu o Sport Club Corinthians Paulista
 

EVENTOS SOCIAIS DO CLUBE

O Corinthians nunca foi só futebol, mesmo nos seus primeiros anos. Em uma das suas primeiras atas, já estava definido que além do futebol seria organizado torneios de ping-pong e também saraus. Podemos ver que o clube nasceu não apenas destinado à prática do futebol, e sim poliesportivo. Inclusive, a primeira taça conquistada pelo clube não vem do futebol, e sim de pedestrianismo em 1912, quando três competidores corintianos chegaram nas três primeiras colocações na prova disputada no estádio do Parque Antártica. Mas é claro que a paixão que o Corinthians exerce hoje aos seus "seguidores" é devido, principalmente, ao futebol.

O Corinthians não era só um simples clube de futebol, mas uma opção de lazer para os seus sócios, que não precisavam ir ver especialmente uma partida de futebol, mas poderiam também ter um lugar para se reunir com os amigos, jogar ping-pong, e principalmente expressar as suas idéias, mostrando que o Corinthians propiciava lazer e diversão aos seus torcedores.
 

O Bom Retiro é a parte da cidade onde a maioria de sua torcida se encontrava. Este bairro não era muito grande, e reunia, como se sabe, operários das indústrias paulistas do início deste século. O clube reunia essas pessoas deste bairro. O Corinthians pode ser considerado uma "área " de eventos sociais do Bom Retiro. As relações entre o clube e o bairro eram muito amistosas: ele servia como um representante deste bairro no futebol e no esporte de São Paulo, tanto que quando o Corinthians ganhou a sua primeira taça, realizou-se uma festa por três dias no bairro. Muitos dos primeiros sócios do clube não concordavam que ele deixasse de ser clube de bairro, querendo que a sede permanecesse no Bom Retiro. Por isso tudo, podemos perceber que o Corinthians não só tinha características esportivas, mas também promovia eventos sociais e culturais.

Jogadores Corinthianos se preparam para
partida no campo da Floresta



CONCLUSÃO

Agora responderemos a questão proposta no início deste trabalho: Qual o papel social do Sport Club Corinthians Paulista na busca da identidade cultural e social de seu torcedor, dando origem à paixão corintiana?

O Corinthians tem um papel social muito importante para o seu torcedor, principalmente para aquele que torcia nos primeiros anos do clube. Os torcedores, conforme já dito, eram, em maioria, operários e imigrantes que viviam na cidade de São Paulo, trabalhando nas indústrias em situações precárias e que obtinham pouca renda. Esse papel aparece no momento em que o torcedor procura o clube para esquecer o seu trabalho, para se divertir, e resgatar a sua cultura. Ou seja: o Corinthians não tem apenas um papel esportivo para os seus torcedores, mas também social, um local onde seus sócios podiam discutir idéias e se impor na sociedade, por meio do clube.

O Corinthians é um meio que o torcedor encontra de chegar à sua identificação cultural e social dentro do mundo em que vive. Ele proporciona ao seu torcedor uma forma de ganhar mais poder socialmente, já que quando o clube ganha uma partida de futebol ou outro esporte, ele sente que a vitória também é sua. Quando o Corinthians jogava e ganhava de um time da elite, isso era muito bom para o torcedor, pois a vitória era compartilhada com o mesmo, pelo menos ficticiamente: era a vitória do operário contra o seu "patrão". Além disso, aquele que era imigrante podia reencontrar a sua cultura de origem, através das festas, saraus e reuniões que o clube promovia, mas ele também une sua cultura com o de outros imigrantes. Sendo assim, o Corinthians possibilitava que o seu torcedor que era imigrante se insira mais facilmente na nova sociedade.

O Corinthians levantava o poder social de seu torcedor. Quando o time ganhava ou conseguia alguma proeza, este torcedor esquecia os seus sofrimentos e se rendia à alegria. A equipe era um meio que seu sócio/torcedor, maioria de classe baixa, usava para se expressar na sociedade, já que era reprimido na vida cotidiana. Até hoje é assim: o torcedor corinthiano, quando seu time ganha, sente-se tão feliz que esquece os problemas da vida provisoriamente. Daí a origem desta paixão que muitos destes "seguidores" tem pelo Sport Club Corinthians Paulista. O torcedor tem essa paixão pelo clube devido ao seu papel social, que é, na verdade, de "falar" pela massa, por aqueles que são humildes, herança dos primórdios do clube com seus operários e imigrantes. Essa paixão do torcedor é uma paixão por si próprio, só que refletida através do clube. Essa paixão é, na verdade, a identificação cultural e social do próprio torcedor. O torcedor corinthiano não vive sozinho o clube, mas com todos os outros corintianos. O Sport Club Corinthians Paulista nasceu de um coletivo, cresceu e disputou junto com o coletivo. O torcedor descobre a sua identidade com o clube, mas faz isso com a ajuda de todo um coletivo de torcedores corintianos.

Assim, o futebol é realmente um fenômeno social, e o Corinthians é mais que isso, principalmente o time das primeiras décadas. O Timão sempre foi um fenômeno social e também cultural. Seu torcedor expressa todas as suas emoções através do clube, e isto é a paixão corintiana.
 

 

BIBLIOGRAFIA



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