Biografia: Fernão Lopes
Renata Consegliere
renataic@esperanto.zzn.com
Segundo Ano - História/USP
fernao.doc - 38KB

"Fernão Lopes é a perfeição do estilo simples,
directo e nervoso na prosa portuguesa....".

William J. Entwistle.


Introdução

A compreensão das mudanças políticas e das decorrentes transformações sociais no cenário português nos fins do século XIV torna-se uma tarefa mais fácil e agradável graças à possibilidade de utilização da obra de Fernão Lopes. Não é de impressionar o grande número de historiadores que se serviram dos relatos deste cronista: Fernão Lopes brilha, realmente, como uma das maiores fontes históricas da nação portuguesa.
 

Como burocrata ao serviço do Rei e da Corte, ele se apresentava como "...guardador das escrituras do Tombo, isto é, responsável pela conservação do Arquivo Geral do Reino, que, desde o Reinado de D. Fernando, ocupava uma Torre do Castelo de Lisboa" (FERREIRA:09). E foi em 1434 que Fernão Lopes recebeu o encargo de D. Duarte de "pôr em crônicas as histórias dos reis que antigamente foram em Portugal e os feitos de D. João I" (COELHO:199). Assim, vemos que a crônica maior deste escritor foi concebida 60 anos após os acontecimentos de 1383-1385.

Segundo Luís de Souza Rebelo, o ofício da cronística é "...sempre um discurso de outros discursos, que se fazem e refazem numa interminável urdidura de textos recebidos e renovados...". (REBELO, 1986:16)Isto mostra que a concepção dos relatos seguem um processo de investigação de documentos e testemunhos, que, ao unirem-se ao fio condutor do escritor, tornam-se, por fim, a história relatada de maneira fiel ao ocorrido. 

D. João
É neste método de trabalho que António Borges Coelho insere as crônicas de Fernão Lopes:"...(ele) construiu factos, isto é, descreveu, narrou, criou descrições dos acontecimentos servindo-se quer de testemunhos orais ou escritos em primeira ou segunda mão, quer de documentos de onde extraiu, construiu narrações de acontecimentos" (COELHO:46).

É interessante notarmos a importância dada pelos diversos autores à crônica de D. João I, em detrimento das crônicas de D. Pedro e D. Fernando. Podemos encontrar uma justificativa para este fato se traçarmos a relação entre a Revolução de 1383 em Portugal e a subida de D. João I ao poder, como Rei, em 1385. Em vários momentos, os historiadores tentaram ver Fernão Lopes como um defensor da legitimidade do poder real, ou seja, tendo escrito sua obra com o intuito de justificar o poder concedido a D. João, Mestre de Avis. Esta tentativa de justificação ou não do poder real é um ponto de partida para examinarmos a obra de Fernão Lopes com os olhos na história de Portugal. As possibilidades de análise histórica no quadro dos acontecimentos de 1383 são propostas pela leitura das crônicas, e tornam-se vastas à medida em que enxergamos o conflito dinástico como um elemento de perturbação da ordem social da época.

Uma outra maneira de analisarmos a relevância dos relatos de Fernão Lopes é lançar luz à discussão sobre o verdadeiro caráter da Revolução de 1383 - caráter este que poderia ter obedecido aos interesses da camada burguesa, que, segundo António Borges Coelho, eram a dona do capital, bem como proprietária de casas, terras e navios. Senão, poderia ter obedecido aos interesses da "arraia miúda", que vendiam a sua "força de trabalho aos proprietários de terras e rendeiros protocapitalistas...(Eram os) braceiros, pastores, mancebos, homens de soldada..." (COELHO, 218). O que procuramos nesta questão da definição do caráter é justamente saber para qual grupo social a Revolução de 1383 foi mais vantajosa. E, partindo deste ponto, medir as possibilidades de se reconhecer Fernão Lopes como um cronista do povo ou então identificado com o núcleo burguês dirigente da sociedade, escrevendo, deste modo, seguindo os interesses desta camada.

D. Pedro I


D. Fernando

Fernão Lopes e a Revolução de 1383

Segundo António Borges Coelho, em "A análise da concepção de poder, desenvolvida no livro (de Luis de Souza Rebelo), pareceu-me obedecer à idéia subjacente de que o fim das crônicas, sua causa final, seria justificar a legitimidade do monarca ex-Mestre de Avis...(e que) Fernão Lopes...defenderia moral e politicamente a legitimidade da via electiva do poder" (COELHO:40). Realmente, na obra do autor citado encontramos toda uma trama que, ao ser tecida, firma-se na organização da exposição de Lopes, tendo como base a idéia de justificação. Nas próprias palavras de Rebelo, ele diz que "(da legitimação)...vem o relevo muito especial que se confere no discurso de Fernão Lopes do plano providencial, onde uma paulatina acumulação de sinais prodigiosos e um sábio uso dos recursos da retórica fazem do Mestre de Avis a figura indigitada como rei tanto por Deus como pelo povo" (REBELO:20). E, numa outra passagem, completamos o pensamento do autor, vendo que "...as manifestações de simpatia e apoio popular ao Mestre de Avis, as premunições e sinais de ordem sobrenatural, que o elegem como objecto, ganham a força da prova necessária à legitimação da personalidade carismática do Mestre..." (REBELO:36).

Mas tal atitude tomada por Fernão Lopes poderia, talvez, ser considerada como correta. Afinal, ao obedecer ao encargo de escrever sobre os feitos de D. João I, tantos anos após o seu reinado, é natural que o cronista organizasse uma linha óbvia de pensamento para mostrar a racional indicação e a conseqüente escolha do Mestre de Avis como rei. É este o discurso que Teresa Amado emprega, ao concordar com tais razões de justificativa, dizendo que "Antes, pois, de mostrar como a história do reinado veio a comprovar o acerto da escolha, tratava-se de fazer ver que ela se impusera por razão e por justiça, vindo por isso a merecer a sanção da protecção divina. Creio que é esta a linha dominante da estratégia narrativa do cronista e um dos motivos que o levaram a dar tão grande destaque as dezessete meses da crise da sucessão" (ABADO, 1991:31-32).

Podemos considerar como justa a maneira de narrar de Fernão Lopes também pelo lado social, se pensarmos que, para o cronista, nenhuma falha ou ruptura na dinastia real seria proveitosa, já que ele era um burocrata do rei. Com seu encargo de cronista, Fernão Lopes nada mais fez do que mostrar os acontecimentos reais como fatos envolvidos numa áurea divina e, de uma certa maneira, piedosa para com a sociedade. Neste trecho, percebemos que a finalidade de seus relatos era simplesmente a de mostrar à população que ela tinha um bom rei e que este era hábil o suficiente para lidar com tão importante cargo: "...Fernão Lopes compraz-se na descrição das reacções das massas populares, que, instintivamente patrióticas, ao defenderem a eleição do Mestre de Avis, lutavam por um rei português..." (FERREIRA:28).

Note-se que o cronista realmente tinha a necessidade de centrar sua narração neste aspecto de legitimidade, já que "Bastardo, clérigo, frei da Ordem de Avis, e, consequentemente, incapacitado pela natureza de seus votos religiosos para ascender ao trono, tomar o governo do reino e casar, D. João aparece na cena política como um pretendente sem grandes possibilidades de êxito" (REBELO:53). Assim, Fernão Lopes transfere para sua narrativa, seis décadas depois, os anseios sociais ocorridos na época em que D. Leonor, rainha regente, não possuía nenhuma base popular para governar, e o Mestre de Avis era chamado pelo povo para servir como Defensor do Reino. O cronista mostra-nos de que maneira os caminhos foram abertos para que D. João conquistasse a população portuguesa e, por fim, o poder real.
 


O caráter da Revolução de 1383

Ó cidade de Lisboa, famosa entre as cidades, forte
esteio que sustém todo Portugal!
Crônica de D. João I.
 

Entre todos os autores citados, reina o consenso de que Fernão Lopes era um cronista popular. Mas, certamente, ele não era só isto, pois ele também estava interessado em defender a classe burguesa dirigente com a qual se identificava. Afinal, os acontecimentos de 1383-1385 acabaram por atender aos privilégios (ou necessidades?) desta nova classe social, desta nova ordem que emergia com a certeza de que teria, algum dia, o poder em suas mãos.

É interessante o fato de Fernão Lopes ter tomado um partido e "escolhido um lado"; deste modo, ele aparece-nos não como um escritor interessado em relatar fatos e datas sem jamais compreendê-los ou analisá-los, somente jogando para a crônica tudo o que realmente aconteceu. Ocorre o oposto: este cronista parece ter personalidade própria, possuindo razões de sobra para escrever à sua maneira e deixando transparecer uma certa dose de orgulho pelo povo de Lisboa. "Como todos os historiadores, como todos nós, Fernão Lopes não é inocente, toma partido, mas sem comprometer a verdade a esse partido. O seu partido é o da cidade de Lisboa, é o da arraia-miúda, o dos ventres ao sol, o do bom Portugal e, também, o de João, Mestre de Avis, chefe eleito, rei de boa memória dos revolucionários de Aljubarrota" (COELHO:201).

Na obra de Joel Serrão é exposta uma possibilidade de definição do caráter da Revolução de 1383 diversa da exibida por António Borges Coelho. Na visão do primeiro autor, os acontecimentos do ano citado foram realmente colocados em prática pela "arraia miúda", e a revolução teve um caráter social até o momento em que a burguesia entra em cena e utiliza-se do povo para ganhar a luta. Já Borges Coelho nos revela que a revolução de 1383 fora "...desencadeada, dirigida e aproveitada no essencial pela burguesia das cidades e vilas de Portugal" (COELHO:12).

Considerando não só o caminho traçado por Serrão, como também o defendido por Borges Coelho quanto à integração de Fernão Lopes nas estruturas sociais da época, vemos que a situação de Portugal nos tempos anteriores à Revolução era de choques entre os extremos, choques estes representados principalmente pela grande crise rural e pelo desgosto do povo em relação à promoção de Leonor Teles ao cargo de rainha. O ritmo da crise no meio rural era assim definida: "Tal era pois a situação social no momento de rebentar a revolução de Lisboa: por uma banda, a classe média dos mais honrados a pretenderem obrigar os da classe inferior a servirem por salários opressivamente baixos, e desejando que o rei os impusesse à força; pela outra, uma verdadeira greve da classe operária...Vivia-se assim numa atmosfera de ódios" (SÉRGIO:29).

Seguindo a ordem dos acontecimentos, vemos que D. João surge como "defensor do povo" ao assassinar o amante da rainha regente (D. Leonor), pois este último começara a inspirar em demasia a política por ela acatada: "Os rumores do povo miúdo, esse povo miúdo que Fernão Lopes simbolizara, recrescem: murmura-se e conspira-se contra o conselheiro da rainha..." (SERRÃO:36). Porém, o Mestre de Avis não pretendia tornar-se o defensor do povo: o que ocorreu foi que o próprio "..comum povo livre e não sujeito a alguns que o contrário disto sentissem lhe pedissem (ao Mestre) por mercê se chamasse Regedor e Defensor dos Reinos" (Crônica de D. João I, cap. XXVI.). Portanto, "Quando o Mestre outorgou de ter cuidado e regimento do reino, toda tristeza foi fora das gentes, e seus corações não deram lugar a nenhum trespassado temor; mas todos ledos sob boa esperança, fundada em bem aventurado fim..." (Crônica de D. João I, cap. XXVI.).

Para Serrão, é neste instante que a burguesia impõe o seu caráter à revolução; pois esta classe "...compreendeu, a tempo, de que lado soprava o vento dos seus interesses e, a partir desse momento, deu então todo seu apoio ao Mestre d'Avis" (SERRÃO:44). Ora, isto quer dizer que a revolução teve uma ruptura em seu caráter. Ela iniciou-se como um movimento nitidamente popular, mas terminou caracterizada pela camada burguesa. No fim de tudo, esta última classe social foi a grande beneficiária, conseguindo-se "...impor...como política nacional, a sua política, isto é, a largada para além mar" (SERRÃO:47).

E, afinal, onde encontramos o papel de Fernão Lopes nesta revolução vencida pela burguesia? No fato de que este cronista "...tomava partido pela arraia-miúda, pela cidade burguesa, marítima e mercantil de Lisboa..." (COELHO:210). E, inclusive, que "Como escritor dos vilões e, portanto, também do seu estrato dirigente, a burguesia (a do comércio, a dos mestres, a da pesca, a agrícola), Fernão Lopes personifica a ascensão desta classe na sociedade portuguesa e européia" (COELHO:214).

Todas estas afirmações anteriores parecem contradizer o fato sustentado por vários autores: o de Fernão Lopes ser um cronista do povo. Mas, atentando para o que diz Maria Ema Tarracha Ferreira, vemos que tais afirmações são plausíveis: "Contudo, o elogio à 'comunal gente' não significava, para a mentalidade do cronista e da sua época, a reivindicação do poder político para um grupo ou classe social, nem Fernão Lopes atribui ao 'povo miúdo' a iniciativa do movimento revolucionário" (FERREIRA:29). E esta autora diz ainda que "Do Terceiro Estado, isto é, da 'comunal gente' que se batera pelo Mestre de Avis e o tomara por 'Regedor e Defensor do regno' provinha grande parte da 'nova nobreza'...".

Por fim, fica claro que Fernão Lopes escreve para "todas as gentes" de Portugal, e que, de algum modo, este cronista tem a habilidade de escrever também para Lisboa. É como se esta cidade fosse sua ouvinte, como se ela tivesse uma alma própria: "...Mas, do ponto de vista social, o espaço alarga-se. A zona da luz, o teatro da ação é agora ocupado, por vezes mesmo centrado, na arraia miúda, nos homens bons, nos comunais, nos honrados...O cenário também não se circunscreve apenas ao palácio ou ao campo de batalha. Vêm à praça, à reunião da Câmara, ao campo onde avançam camponeses de ventres ao sol e armados com pedras e estevas aguçadas." (COELHO:50).
 


Considerações finais

Após este panorama sobre a obra de Fernão Lopes, torna-se válido questionar a importância de suas crônicas para o povo português. Talvez não fosse possível conceber a Revolução de 1383 sem os relatos deste tão brilhante cronista. Todas as impressões que ele nos passa através da escrita, narrando não só os feitos do rei D. João I como também enfocando os comentários na vida pessoal e íntima das personagens mais influentes da época, têm um valor histórico inestimável.

Inestimável também é a possibilidade de reflexão sobre a história de Portugal através das crônicas, pois são infindáveis os debates e os questionamentos que giram em torno da órbita da realeza lusitana. E não é por acaso que tudo o que nos interessa nesta órbita real está reunido em Fernão Lopes; os acontecimentos desta parte da memória de Portugal são todos ligados entre si, a partir das crises de 1383. A crise no meio rural, o enfrentamento da arraia miúda com a classe exploratória e dona do poder, e a questão da sucessão dinástica são os principais elementos que, após deixarem a sociedade portuguesa em meio ao caos, dirigem-se naturalmente como colaboradores à subida de D. João, Mestre de Avis, ao poder real. E é aqui que Fernão Lopes entra, depois que tudo ocorreu, depois que a poeira do tempo já estava levando os fatos passados carregados ao vento, para reavivar a história de uma nação. Ele nos mostrou que, ao menos em um momento, sua pátria buscou recorrer à memória para tentar compreender o que estava vivendo no presente do ano de 1434.
 


Bibliografia

Amado, Teresa - Fernão Lopes - Contador de História, sobre a Crônica de D. João I. Lisboa, Editorial Estampa, Imprensa Universitária, 1991.

Coelho, António Borges - A Revolução de 1383. Lisboa, Editorial Caminho, 1981.

Ferreira, Maria Ema Tarracha - Crônicas de Fernão Lopes. (seleção, introdução e notas da autora). Lisboa, Editora Ulisseia.

Rebelo, Luís de Souza - A concepção do poder em Fernão Lopes. Lisboa, Livros Horizonte, Colecção Horizonte Histórico, 1983.

Serrão, Joel - O caráter social da Revolução de 1383. Lisboa, Livros Horizonte.