O Racismo no Cinema  Clássico e em Forrest Gump
 

O Cinema Clássico Racista pela porta da frente: GRIFFITH

O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith, marca o estabelecimento do cinema como uma arte séria comparável à literatura ou ao teatro. Foi Grifith quem moldou os signos, a forma e muito do conteúdo do que ainda vemos hoje e ao qual denominamos atualmente de Cinema Clássico. CLÁSSICO, no caso, não se refere à antigüidade ou ao valor atribuído a qualquer filme, mas a um determinado modo e ideologia de filmagem que possui suas regras específicas e que chegou a um alto grau de refinamento através de Hollywood.

A montagem do Cinema Clássico é facilmente reconhecível: no principal, há um personagem-chave, responsável por realizar uma empatia entre o filme e o público de tal forma que este se reconheça nele, tornando-se uma espécie de co-participante. Se o objetivo for alcançado, o espectador se verá envolvido, participará das angústias e alegrias do personagem e terá ânsia de saber o que acontecerá no final; após este acontecimento, se sentirá realizado e sairá do cinema satisfeito. Em segundo lugar, a história se desenvolve em um sentido único, com começo, meio e fim. Possui um grande mote, um motivo maior que fundamenta e valida a ação dos personagens, um conflito fundamental que justifica o universo do filme; a trama se desenvolve a partir de vários pequenos conflitos que, à medida que vão sendo resolvidos ou acumulados, dão lugar ao "conflito-mor" até que seja atingido o auge, o clímax onde todas as questões terão que ser respondidas, as barreiras rompidas e o conflito, enfim, solucionado. E com a devida distribuição de castigos e recompensas para cada um, pois não podemos esquecer, principalmente no caso norte-americano, do rígido esquema de valores morais puritanos que exige benesses para os justos e inocentes e a danação para os culpados. Por outro lado, a própria apresentação dos personagens, o enfoque dado a cada um deles, a decupagem, o ponto de vista da câmera seguido durante todas as cenas, são outros tantos elementos. Há muito mais características, certamente, e nem todas precisam ser seguidas à risca, mas para os objetivos deste artigo, é suficiente.
 
Titanic: exemplo de
cinema clássico
São exemplos de Cinema Clássico: No Tempo das Diligências, de John Ford; e Titanic, de James Cameron. São exemplos de Cinema Moderno ou Conceitual: Outubro, de Eisenstein; Je vous salou Marie, de Jean Luc Godard; Deus e o Diabo na Terra do Sol , de Glauber Rocha. Já O Nascimento de uma Nação é, como obviamente o nome indica, uma alegoria da fundação dos Estados Unidos e do "jeitão" americano de ser, com cinco histórias diferentes que debatem, entre si no período entre a colonização e a independência. A história que nos interessa aqui retrata o ataque que uma mulher peregrina sofre, sozinha e indefesa, de malvados bandidos que tentam invadir sua casa enquanto os valorosos e destemidos mocinhos correm para salvá-la. A cena é construída magistralmente; a lição de cinema é ensinada tão bem que até hoje, em filmes contemporâneos, quase nada foi acrescentado. Pode-se adicionar, aqui e ali, uns efeitos especiais, umas bombas, carros explodindo, mas a construção é a mesma, ou seja, griffithiniana. A cena se baseia principalmente nisso: rápidas seqüências do desespero da mulher tentando se defender, closes nos rostos feios dos membros da gangue e o galope dos cavalos até que no preciso instante, quando os bandidos estão para saquear a casa e, obviamente, estuprar a mulher, chegam os mocinhos para resolver a situação. THE END, feliz como de praxe. 

Independente de qualquer qualidade cinematográfica congênita ou adquirida, Grifith é, antes de mais nada, um produto do seu meio, se identifica com ele e o aclama. Neste caso, a mocinha do filme só podia ser uma mulher branca, loura, puritana; os bandidões têm feições feias porque têm rostos escuros, isto é, são negros; e os mocinhos vestem longas túnicas brancas e pontiagudas, com dois furos para os olhos, isto é, são da Ku Klux Klan.
 

Há racismos e racismos

Raramente o racismo no cinema atinge proporções tão explícitas e militantes. Geralmente, é adotada uma posição de meio termo, de um racismo um tanto envergonhado, embora consciente e assumido, condescendente, onde o negro pode ser até homenageado, desde que em seu devido lugar. Houve, por exemplo, The Jazz Singer, onde o tal cantor de jazz negro é interpretado por um branco pintado com uma ridícula tinta preta. Porém, mesmo quando o negro interpreta a si mesmo, a situação não muda muito. Em ...E O Vento Levou, Hattie Mcdonalde ganhou um Oscar de Atriz Coadjuvante interpretando a negra de olhos e beiços grandes. Billie Holliday, a grande dama do Jazz, participou do cinema, interpretando uma empregada doméstica que ensina a patroa branca a cantar. Tudo isso dista anos-luz até o dia em que um Sidney Poitier dá um bofetão em um branco racista em pleno Sul em O Calor da Noite, e mais ainda de quando um personagem histórico é retratado como herói em uma produção predominantemente negra e dirigida por um diretor negro consagrado: Malcom X, de Spike Lee.

Uma característica geral dos filmes que citei até agora é a total explicitação de suas prerrogativas raciais. Seja por um lado ou por outro, não há dúvidas sobre a intenção das idéias do realizador do filme. Em Griffith e Spike Lee não há ambigüidades, e o que me interessa discutir aqui são justamente filmes onde esta ambigüidade é profunda. Filmes, inclusive, que assumem uma postura de até certa contestação e proporcionam uma imagem de que são contra o "sistema"; no entanto, a própria adoção do esquema do cinema clássico trai essas suas primeiras pretensões, ou então revelam suas verdadeiras intenções.

Dois filmes contemporâneos servem como exemplo: Mississipi em Chamas, de Alan Parker, e Forrest Gump, de Robert Zemeckis.
 


Típico filme racista antiracista: Mississipi em Chamas


 
Pôster de
"Mississipi em Chamas"
Mississipi em Chamas, realizado em 1988, trata do assassinato de três ativistas (um deles negro) e dos direitos humanos no Sul dos Estados Unidos por remanescentes da KKK na década de sessenta. As vítimas são jovens militantes: suas mortes agitam a imaginação do povo, e o governo federal é obrigado a intervir. O FBI é convocado para conduzir as investigações através da pele de Willem Dafoe, auxiliado por um agente local, personificado por Gene Hackman, que conhece bem a região. O primeiro conflito estabelecido é o daquele velho chavão da cooperação entre dois policiais completamente diferentes que tem de se suportar até cada um descobrir o valor do outro e passarem a colaborar efetivamente. Dafoe é o policial certinho e acadêmico que busca resolver tudo através da mais estrita legalidade e da utilização de aparato técnico e científico. Hackman é o típico matuto, conhecedor da sua terra e da sua gente. Indiferente a todo o aparato, ele vai recolhendo informações através de conversas informais nos bares e nas ruas até que, em um salão de cabeleireiros, conhece uma mulher que depois descobre ser esposa de um dos principais líderes racistas. O segundo conflito fica sendo, então, o interesse amoroso entre o policial durão e charmoso e aquela mulher submissa que tem medo de se libertar daquela vida. O conflito maior, logicamente, é o da luta entre os policiais "bonzinhos" que defendem a Justiça contra os malvados KKK que atacam os negros.

Apresentados os personagens, reconhecidos os conflitos, faz-se necessário o ponto de virada, aquele que dá uma guinada geral para toda a história e a leva para o final. Dafoe finalmente reconhece que seus métodos não levam a nada, e fica revoltado com a surra que a mulher recebe do marido quando este desconfia de que ela está passando informações para a polícia. Passa o bastão das investigações para Hackman que, afinal, usa o aparato do FBI para pressionar de forma dura os bandidos e fazer com que caiam em armadilhas não muito legais. Será que é muito difícil prever o final?

Mississipi em Chamas é um filme muito bom: a direção é forte e segura, o roteiro é bem escrito e emocionante, os atores são espetaculares. Parker conduz muito bem a trama e, para realçar o sadismo dos racistas, recheia o filme de cenas de violência. O espectador chega a ter ódio dos brancos racistas. Porém, é esta a questão que eu gostaria de ressaltar: este é um filme anti-racista? E a resposta é: sim e não. Se, por um lado, é uma contundente denúncia das atrocidades racistas, por outro a forma como ele realiza esta denúncia é, em si mesma, racista. Em primeiro lugar, a ação se passa no começo da década de sessenta, e é interessante observar o que o filme NÃO mostra: o início dos grandes processos de mobilização negra que já estavam eclodindo em todos os Estados Unidos. Os negros de Parker são uma massa amorfa e sem personalidade, que sofre quieta, com pouquíssimas reações e sem resultado. A investigação, portanto, é conduzida, levada, resolvida e concluída por brancos de uma entidade governamental, o FBI, que, conforme sabemos, nunca primou exatamente pela resolução de conflitos sociais.

Mas o que me parece mais claro é o momento de revolta do jovem policial idealista interpretado por Dafoe. Depois de passar dias e dias observando os negros sendo discriminados e espancados, suas igrejas sendo queimadas e enforcamentos assinados com a tradicional cruz em chamas enterrada de ponta-cabeça no chão, ele só percebe realmente o quanto o mundo é cruel e violento quando a mulher (branca) é espancada pelo marido. Caem, nesse momento, as últimas ilusões do protagonista. Podem cair, também, as expectativas do público quanto à mensagem de Parker, que substitui um racismo do tipo "olha como o negro é inferior, devendo ser maltratado" pelo tipo paternalista que diz "olha como uma parte dos brancos é malvada e como os negros são vítimas e, portanto, devem ser protegidos".
 


O Racismo Sofisticado

Forrest Gump é uma produção bem mais complexa. Seu roteiro, multifacetado, rico, repleto de signos e representações norte-americanas, volta-se para estes mesmo signos com ironia inteligente e corrosivamente satírica, não deixando nenhuma, ou quase nenhuma, instituição em pé. No entanto, todos os elementos do cinema clássico estão presentes: o personagem-identificador, os vários conflitos, os muitos "ganchos" e viradas, até resultar em um final que "ordena" o mundo e lhe dá sentido.
 

Pois bem, ao assistirmos este filme pela primeira vez, nos deliciamos com a crítica feroz ao Welfare State, ao American Way of Life, a essa auto-gozação cáustica. Torna-se necessária uma segunda olhada (e terceira, por que não? É um filme que merece ser visto várias vezes) para percebermos o quanto esta crítica é superficial. Na maior parte, reacionária. Quando não, diretamente racista. Para comprovar este argumento, discutamos o personagem de Bubba, o irmão gêmeo espiritual e intelectual de Forrest. Eles se conhecem na Guerra do Vietnã, em meio ao mesmo sofrimento de uma guerra, da repressão, da disciplina feroz e da batalha sem sentido. São absolutamente idênticos em espírito, mente , intelecto e disposição. A pergunta que martela a cabeça desde o primeiro momento é: por que Bubba morre? Vejamos bem, não estamos abstraindo a importância, a preponderância do personagem de Tom Hanks, o filme e Forrest; afinal, não estamos perguntando se ele poderia morrer no lugar de Bubba. A questão é simples: qual o sentido da sua morte dentro do universo criado por Zemeckis? Não existem acasos por aqui, muito menos sendo uma produção hollywoodiana; dizer que foi uma mera coincidência (como cheguei a ouvir em certa ocasião) seria zombar da inteligência do diretor, do público e dos produtores. 
O personagem Bubba

Dizer que Bubba morreu porque era negro enquanto Forrest era branco, parece-me mais verdadeiro, porém insuficiente. Bubba morre não só porque era negro, mas porque dentro das atribuições, recompensas, sortilégios, azares e fortunas distribuídas neste mundo, ele comete o Pecado de ser negro - característica que não pode ser relevada, pois não existe purificação possível, como em outros personagens. Ele tem que morrer para restabelecer o equilíbrio exigido pela presença de Forrest.
 

A resposta está na figura emblemática de Forrest Gump. Desde o primeiro minuto sabemos através da pena branca que ele é especial. Aliás, ele é muito especial.: é um pedaço de pureza, de inocência em estado bruto que o mundo não consegue alcançar, nem mesmo de raspão, Uma personagem bidimensional sem nenhuma profundidade, e se conseguimos sentir emoção na sua presença é somente pela força da atuação extraordinária de Tom Hanks As outras pessoas do filme não são assim: são humanas, possuem uma história, têm vontades, sonhos, desesperos e principalmente defeitos. Porque é justamente esta a característica que entra em choque direto com Forrest: ele não possui defeitos por ser puro, e com isso faz ressaltar com força total todos os problemas morais dos que o circundam.
Bubba sendo salvo por Forrest Gump durante combate
Forrest Gump e sua mãe doente
A pessoa mais lúcida e consciente de todo o filme é a mãe de Forrest. Ela sabe muito bem o que fez, o que precisou fazer para garantir a vida e a integridade de seu filho e o preço a pagar por isso. Afinal, ela pecou (transou com o diretor da escola para garantir a matrícula de Forrest e somos levados a crer que ela transaria com quem fosse necessário) e precisa "pagar". Ela morre tranqüila e satisfeita com os resultados. Marquemos isso, essa morte "tranqüila", que menos do que um castigo, seria mais um purgação.

Quanto à paixão amorosa de Forrest e o tenente, são casos mais graves. 

A menina doa amores do personagem central foi conspurcada quando criança (o estado de inocência natural do ser humano), abusada sexualmente pelo pai e carrega esta marca consigo durante a vida inteira.  Passa por todos os tipos de vícios, conhece todos os tipos de pessoas, pratica toda espécie de contestação, parece sentir prazer em se humilhar e se rebaixar cada vez mais. Para ela, não há possibilidade de remissão, nem mesmo pelo amor de Forrest. O breve momento de purificação ao seu lado não lhe dá o direito de recuperar a inocência, pois esta se foi para sempre. Ao pecado maior e mais extenso, o castigo pior: ela não pode ser feliz, pois morre de Aids.

Já o tenente é o senhor da guerra, que sente prazer na violência. A batalha, as mortes e a disciplina férrea: este é o seu mundo. Ficar paralítico é alucinadamente o pior castigo que poderia lhe ter acontecido. Se morresse, teria sido, pelo menos, um herói. A cena da sua purificação, com as águas da tempestade, é emocionante e lava sua alma. Porém, como vimos, uma vez conspurcada, a inocência não voltará nunca mais. O tenente não morre, mas terá que carregar sua marca: a perna metálica.

A cena mais significativa do filme, carregada de centenas de sutilezas e ambigüidades é a do casamento de Forrest. Ele, rico, abastado e feliz ao lado de sua amada, uma loira, típica representante da mulher americana, contempla entre eufórico e confuso ao tenente, com sua perna mecânica e casado com uma oriental. O rosto de Hanks/Forrest expressa milhares de pensamentos, o que não havia acontecido até então. E este é um dado fundamental. O não-conhecimento de Forrest garante o estado da sua pureza. Os outros não têm mais salvação, porque acima de tudo, além de terem pecado, sabem que pecaram.

E Bubba? Ele não pecou. Não cometeu nenhum ato ominoso consciente nem mesmo inconsciente. De Forrest, possui o mesmo grau de pureza, de inocência perante as pessoas, a natureza, o mundo. Não se drogava, não se picava, sequer fumava, era pacífico nem entendia a violência que ocorria a sua volta e com ele. Deve ter morrido virgem. Ele morre por ser e por ter nascido um Forrest Negro.

Mas o racismo do filme é dos condescendentes: se ele não pode evitar seu destino, existe uma certa compensação. Se ele não pode ter uma morte tranqüila como a da mãe de Forrest, sua família, pelo menos, vai ficar bem. Forrest doa metade de sua fortuna para a mãe de Bubba. E assim as consciências ficam sossegadas e o equilíbrio restabelecido.
 

P.S. Existe uma relação profunda e direta do fato destes filmes serem racistas e de terem o formato do cinema clássico, mas isso fica para outro artigo.v