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Nau dos Loucos |
| Além do mar, a
oeste da Espanha,
Há uma terra chamada Cocanha; Não há sob o céu região Tão rica em bens e virtudes. Mesmo o Paraíso risonho e atraente, Não é tão
maravilhoso quanto a Cocanha.
Lá não existe
sala, quarto ou banco,
Não terá
companhia.
Asseguro a vocês,
É sempre dia, jamais
noite.
Nem homem nem mulher sentem
raiva.
A terra esta cheia de
coisas boas.
Nem tempestade, chuva
ou vento,
De azeite, leite, mel
e vinho;
Existe ali uma bela abadia
Os mais deliciosos que
há.
Ali todos podem se saciar,
Largo e comprido, agradável.
No jardim há uma
árvore
|
Sua casca, perfumada
canela;
Sua fruta, saboroso cravo; Lá não faltam cúbebas. Existem ali rosas vermelhas E lírios agradáveis de ver. Lá o dia não
acaba nunca, a noite não existe;
Dessas fontes sempre sai,
Esmeralda, jacinto e diamante,
Tordo, tordo canoro e
rouxinol.
Os jovens monges todo
dia
Graças às
mangas e ao capuz.
Quando os monges não
descem,
Vira suas brancas nádegas
Na direção
da moça,
Em organizada procissão.
........................... E logo chegam perto delas.
Com pernas para cima e
para baixo.
............................................. Mergulhado até
o pescoço.
|
(fragmentos de Cocanha,
poema inglês do século XIII, in Cocanha: Várias faces
de uma Utopia de Hilário Franco Jr.)
CENA 1- Tarde de sábado. Na televisão, o padre Marcelo Rossi convida os telespectadores fiéis a assistirem à sua missa televisionada na manhã de domingo. Na pauta do dia, um elemento bizarro: o padre, extremando suas características, promete ensinar a "oração para emagrecer".............
CENA 2- Domingo de manhã.
O jornal Folha de São Paulo tem estampada em sua capa uma
matéria na qual se comunica a extinção do programa
do governo federal de distribuição de cestas básicas
à população carente.
A peça é bizarra! As cenas,
se não fossem parte de uma tragédia, seriam parte de uma
ópera bufa. Analisemos por partes. O programa de distribuição
de cestas básicas referido atendia a aproximadamente 8,5 milhões
de brasileiros, pessoas que sobrevivem nos vários bolsões
de misérias espalhados pelo Brasil, mas sobretudo no Nordeste. A
ração que estas famílias recebiam do governo era composta
basicamente por 10 quilos de arroz, 5 de feijão, 5 de farinha de
mandioca, 2 de farinha de milho, 2 de rapadura, e eventualmente mais alguma
coisa. O suficiente para manter as crianças e seus pais corados.........de
ódio e vergonha.
Família de Canidé(CE), que não receberá |
A suspensão do programa foi determinada segundo os seguintes argumentos: a distribuição de ração (desculpe, cestas básicas) não soluciona o problema da fome, é apenas e tão somente um paliativo de essência assistencialista; em segundo lugar o comércio local, que impressionantemente depende de quem não tem nada para gastar, estaria sendo prejudicado pela ação do governo; e em terceiro e último lugar, o corte foi justificado pela má fé de um gigantesco número de brasileiros esgazeados que diante de tão nobre prenda (arroz, feijão, farinha de mandioca, farinha de milho e rapadura), escondiam suas fortunas pessoas, criando uma falsa imagem de pobreza e lesando toda a nação ao se apropriarem de forma indevida dos produtos. |
Em 1962, atendendo à convocação do Papa João XXIII, abriram-se os trabalhos do Concílio do Vaticano II, que duraria até 1965. A preocupação de João XXIII poderia ser resumida, "grosso modo", a dois pontos: renovação e atualização da Igreja Católica e definição das prioridades de atuação no campo social. O Concílio foi além do próprio Papa, pois João XXIII morreu em 1963. No entanto, este religioso deixou duas das mais importantes encíclicas do século XX: "Mater et Magistra" de 1961, que abordava questões sociais, e "Pacem in Terris" de 1963, que se apoiava na proclamação de princípios como paz, justiça, caridade e liberdade.
Anos depois, em 1968, em Bogotá, na Colômbia, bispos da América Latina se reuniram e fizeram o que se chamou de "opção pelos pobres". A Teologia da Libertação se tornou um dos fronts da luta contra a miséria, o preconceito e a opressão. Foi um espinho na garganta de governos e governantes das Américas. Nomes como Frei Beto, Leonardo Boff, Frei Tito, Betinho (ligado à Juventude Católica) e Dom Hélder Câmara surgiram, ou se integraram, às fileiras da Teologia da Libertação. Basicamente a idéia do grupo era a seguinte: não basta esperar pelo reino de Deus no céu, é imperativo que também a terra seja comum a todos, e que nela também exista justiça, liberdade, etc. Dom Hélder, fundador da CNBB, chegou, durante o Concílio do Vaticano II, a propor ao Papa que abandonasse o Vaticano, entregasse a este e todos os seus tesouros artísticos e históricos aos cuidados da UNESCO e fosse residir em uma Igreja qualquer em Roma na qualidade de bispo da cidade. Ele próprio, em depoimento dado por Frei Beto, jamais aceitou residir no palácio Episcopal de Recife e Olinda, de onde era arcebispo: morava nos fundos de uma paróquia. Leonardo Boff, ao adotar o discurso da Teologia da Libertação e desenvolver suas teses em diversos livros, acabou se vendo frente a frente com a Santa Inquisição do nosso tempo. Não resistiu e largou o hábito, mas jamais as idéias que, favorecidas agora pela liberdade pessoal, se tornaram ainda mais fortes e cada vez menos segmentadas. Frei Tito, "persona non grata" do regime militar, pagou pela sua intransigente defesa dos pequenos: preso, torturado e exilado, se enforcou na França sem ver novamente o sol nascer para todos em seu próprio país. Já o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, sabia melhor do que ninguém que quando se tem fome é difícil escutar, aprender ou mesmo manter a dignidade. Sabia também que o fato de se entregar um prato de comida para alguém não é um ato de assistencialismo, mas sim uma ação de solidariedade e de respeito a vida.
Frei Beto é uma figura importante nos escombros da Igreja Católica séria que infelizmente tem cada vez menos espaço frente ao discurso verborrágico e "descerebrado" dos padres cantores, surfistas, carolas perdidos no tempo e acima de tudo apartados do que um dia se chamou "opção pelos pobres".
Agora somemos as duas cenas descritas sob o pano do contexto e da história.
Do que estamos falando? Para quem estamos falando?
É a Nau dos Loucos, o bestial barco que tem por tripulação criaturas bizarras, lunáticos, selenitas, enfim doidos varridos em geral. No comando da Nau, a nossa velha conhecida elite nacional, que não bastasse as antigas mazelas nacionais agora contam com o que Darcy Ribeiro chamava de "despolitização direitista".
Antonio Cândido, ao escrever a Plataforma de uma Geração, decretou: "Nossa geração tem um problema. Este problema é o medo." Podemos dizer que nem medo mais temos, pois perdemos completamente a noção de realidade, de prioridade, de valores humanos. Temos um Frei que é lido por algumas milhares de pessoas defendendo os esfomeados e do outro lado do ringue se encontra um "ícone do catolicismo moderno", uma estampa de camiseta, que reúne alguns milhões de pessoas para absolutamente nada. Há vácuo, e o nosso problema não é mais intelectual, é ético, é perceptivo.
A nossa sociedade caminha de forma extremamente estranha para a conclusão da seguinte equação: ao mesmo tempo em que se prolifera o discurso da tolerância, da igualdade, da liberdade cultural, de expressão, etc., no cotidiano se processa algo inversamente proporcional, ou seja, a multiplicidade é artefato decorativo. A miséria incomoda menos do que o excesso de peso, o flagelo ocupa menos espaço em nossas atenções do que qualquer receita de bolo.
| O escritor português José
Saramago disse certa vez: "Mais do que a pornografia imoral é, nos
dias de hoje, admitir que alguém ainda possa morrer de fome."
Vale refletir: Sobre o quê estamos falando? O quê vamos colocar na pauta do dia? Talvez o problema em questão seja justamente esse, o de não saber responder as questões, e mais, baseado em algum critério, de preferência humano, solidário. Enquanto isso a vida prossegue em uma espécie de toada "non sense" na qual padres, apresentadoras de TV, notícias de jornal, miséria e propagandas se misturam sem discriminação, nos provocam os mesmos efeitos, recebemos e digerimos com a mesma emoção ou sem ela. É a verdadeira realização da letra de "Alegria, Alegria" de Caetano Veloso: Notícias nas bancas de revista, que enchem de alegria e preguiça. Bombas, carros e Brigitte Bardot se misturam, se anulam. |
Padre Marcelo Rossi em uma de suas missas |
Triste é saber que isto tem a ver conosco e não com o outro, neste caso não podemos apontar para ninguém e dizer que a culpa é dele. Somos parte do problema, causa, efeito, criminosos e vítimas ao mesmo tempo, tudo isso para complementar e enfatizar a confusão que nos toma.
Ainda em tempo: O referido programa de distribuição de cestas básicas que foi extinto pelo governo não foi substituído por qualquer outro, assistencialista ou não.