A Reforma
Ynaê Lopes dos Santos
ynae@klepsidra.net
3º Ano - História/USP
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O movimento da Reforma é considerado, junto com o Renascimento, o prelúdio da Modernidade na Europa. Tal consideração ocorre porque tal movimento está totalmente vinculado - isso se não for sua semente originária - à liberdade política e ao capitalismo. A marca que identifica ambos movimentos é a instauração da liberdade humana: tanto a Reforma como o Renascimento foram produtos do Humanismo, onde literários e bíblicos tinham desejos de voltar no tempo e buscar na pureza da Antigüidade Clássica a origem para Renovação que o homem tanto almejava. Ou seja, era necessário que o homem voltasse ao seu passado para conseguir se libertar no seu presente.

No entanto, mesmo tendo o mesmo embrião filosófico/teórico (o Humanismo), o desenrolar dos dois movimentos teve uma diferença brutal na sociedade que o criara: enquanto o Renascimento atingiu apenas as elites sociais (tanto econômicas como políticas e culturais), a Reforma alcançou toda a massa populacional européia: tanto os altos governantes como os simples camponeses foram tocados por ela. Segundo o estudioso Huizinga, "o Renascimento foi a roupa de domingo.". 

Martinho Lutero

Somente a Reforma Protestante, liderada por Lutero, é que conseguiu saciar a sede espiritual do momento sede essa que não era sentida apenas pelos intelectuais ou príncipes mas por todos. Aí se justifica sua enorme difusão. Apenas a Reforma é que conseguiu abalar a mais rígida instituição feudal: a Igreja Católica. Claro que tal movimento não foi o primeiro a questionar a legitimidade da Igreja - muitos humanistas o fizeram, inclusive Erasmo de Rotterdam - mas somente a denúncia de Lutero e a proposta que ele dá para esses problemas é que abalaram as pilastras do mundo medieval. Isso pode ser facilmente observado se olharmos com atenção uma das principais conclusões dos estudos de Lutero: a Instituição da Igreja Católica tal qual vigorava naquela época era totalmente desnecessária, pois para o homem se comunicar com Deus era preciso apenas que ele tivesse fé. Não era preciso nenhum intermédio: conseqüentemente, a classe eclesiástica deixaria de ter razão de ser, e com ela a Igreja também. A Reforma Luterana colocaria o mundo Feudal de "cabeça pra baixo."

Entretanto, nosso objetivo neste trabalho não é discorrer páginas e mais páginas sobre as causas e conseqüências do movimento reformista da Europa - tema que é muita pano para pouca manga - mas sim perceber os elementos dessa Reforma em algumas obras escolhidas e muito significativas. Essas foram: Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam; Sobre a Autoridade Secular, de Martinho Lutero; e O Queijo e os Vermes, de Carlo Guinzburg. A escolha dessas três obras tem um fundo histórico que, no entanto, se apresenta de diferentes formas em cada uma delas.

Erasmo de Rotterdam foi escolhido pelo fato de ter sido considerado por muitos historiadores o mentor intelectual da Reforma Protestante, mesmo sem ser reconhecido quando ela eclodiu. Já Martinho Lutero foi escolhido por questões óbvias: ele é quem viabiliza efetivamente todo o processo da Reforma. Como alguns estudiosos afirmam, "Erasmo botou o ovo e Lutero chocou." Por fim, Carlo Guinzburg foi eleito para esse trabalho em função de seu livro ser uma diferente forma de se tratar a História - especificamente uma história que é claramente o desenrolar do movimento reformador na Itália. Por meio das obras desses três autores - dois que viveram a Reforma e um que a estudou - tentaremos buscar elementos que nos possibilitem compreender algumas das facetas desse movimento.
 


Análise das obras

Erasmo de Rotterdam
O Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam foi escrito em 1509, mas não é considerado uma obra prima do autor, mesmo com o grande sucesso que teve na época que foi escrito e que o guardou para a posteridade. Na realidade, o livro consiste numa interessante crítica satirizada ao seu tempo, e através dele podemos facilmente perceber os fundamentos Humanistas de Erasmo. De uma forma bem geral, a obra consiste num elogio que a Loucura, interlocutora do livro, faz dela mesma: sendo a responsável pela alegria dos homens e dos deuses, ela acha que deve ser elogiada e como os homens, ingratos que são, não o fazem, faz isso por e para si própria. A primeira coisa que a Loucura deixa clara é que ela não adota disfarces nem máscaras: fala diretamente tudo o que lhe vem a cabeça, o que nos possibilita concluir que tudo o que ela for falar no decorrer de seu discurso é verdade, já que não tem papas na língua. Diferentemente das outras Entidades, a verdade é praticamente intrínseca da sua natureza enquanto as demais preferem medir em boas palavras tudo o que pensam.

Logo em seguida, a Loucura fala da sua origem mitológica, que conseqüentemente remete à Antigüidade Clássica. Ela nasceu nas Ilhas Afortunadas, um lugar que não conhece o trabalho, a velhice e a dor - elementos que aparecem como negativos para a Loucura. 

Em seguida, ao narrar que foi amamentada perla Embriaguez e Ignorância, podemos perceber claramente o caracter irônico e ao mesmo tempo crítico de Erasmo: a Loucura entidade que só fala a verdade, foi sustentada quando pequena pela Embriaguez e pela Ignorância, entidades tidas como coisas negativas na época em que o autor vive mas que ao mesmo tempo legitimam a Loucura como portadora da verdade. Depois, a Loucura apresenta as suas sete ajudantes: Amor Próprio, Lisonja, Esquecimento, Preguiça, Volúpia, Irreflexão, Languidez. É importante lembrar que todas essas ajudantes se vinculam à verdade que a Loucura representa.

A seguir, nossa interlocutora afirma que tudo o que é bom na vida do homem depende dela. Para provar isso, se utiliza dos mais avariados exemplos: o primeiro é o casamento, instituição fundamental do cristianismo ao ser o responsável pela estabilidade do homem e pela sua procriação, segundo a palavra de Deus. No entanto, a Loucura afirma que apenas por meio dos trabalhos prestados pela sua ajudante, a Irreflexão, é que o casamento ocorre, já que nenhuma pessoa seria capaz de se casar por livre e espontânea vontade: quem abriria mão de desfrutar os muitos prazeres da vida para se amarrar para sempre à uma só pessoa em sã consciência ? Somente a Loucura possibilita que o homem se amarre a uma mulher e que através dela se estabilize.

O segundo exemplo está na relação que a Loucura estabelece entre a infância e a velhice. Em ambas reina nossa interlocutora, pois apenas um louco consegue vencer o envelhecimento gradual. Um homem que entra na velhice e continua sábio provavelmente se enforcará na primeira árvore que vir, tamanho é o fardo que a velhice carrega. Ao mesmo tempo, a infância é regada pela loucura, pois é nesse momento da vida que falamos e agimos sem pensar, despreocupados com as conseqüências de nossos atos - e justamente por dessa total falta de sabedoria é que somos tão felizes e verdadeiros.

Dessa forma, a Loucura aparece como o oposto da sabedoria em todos os sentidos. Segundo Sófocles, "Quanto menor a sabedoria, maior a felicidade." Não adianta ser um homem conhecedor do céu e da terra, já que isso não lhe traz a felicidade. Quem pensa hesita e tem medo conseqüentemente não faz o que deve ser feito; a loucura extingue esses dois obstáculos da pessoa sábia e faz com que ela ouse e aja. É a loucura quem impulsiona a vida, fazendo com que ela valha ser vivida da melhor forma possível.

Assim, nota-se que é a Loucura que traz o homem ao seu "estado natural", em detrimento da ciências que afastam o homem do que é intrínseco da sua existência. Quanto mais próximo da Natureza, mais próximo da felicidade. Aqui a crítica humanística de Erasmo fica completamente clara: a natureza, que é pura, aparece em detrimento da ciências, que é artificial. Podemos afirmar também que essa Natureza pode ser divina, e que a ciência, ao tentar desmistificar os desígnios de Deus, esteja se dirigindo contra a essência do homem - daí viver na Loucura seria a forma de ser feliz neste mundo.
 

Erasmo justifica essa idéia mostrando que as pessoas têm diferentes realidades e que conseguem viver felizes independentemente de qualquer realidade. Para melhor ilustrar sua justificativa, Erasmo se remete ao Mito da Caverna, de Platão, que consiste numa metáfora que o pensador faz do papel do filósofo na humanidade: guiar os homens para o mundo das idéias, o mundo ideal. No entanto, a Loucura inverte o sentido do Mito, mostrando que independentemente de haver um mundo melhor, cada homem pode ser feliz dentro da sua realidade, mesmo essa não sendo a verdadeira. Aqui, Erasmo questiona o papel do filósofo enquanto guia da sabedoria, detentor de todo o saber, e chega a afirmar através da Loucura que os filósofos "não sabem de nada e pretendem tudo conhecer, desconhecem, a si mesmos...". 

Platão

Novamente o possível controle que o homem pode exercer sobre a Natureza é considerado quase uma blasfêmia para a Loucura, pois o homem que julga saber mais sobre a Natureza é porque se desconhece, e inclusive desconhece a sua condição humana submetida às leis naturais.

Crítica parecida será tecida pela Loucura aos teólogos, que segundo suas próprias palavras "são a erva infecta, se acham superiores aos demais, soberbos e irritáveis, se acham iluminados". Aqui a crítica aos teólogos aparece de forma evidente. Para Erasmo, muito mais do que se preocupar em compreender os desígnios de Deus, eles se apegam às sutilezas, tornando a religião tão complicada que seria necessário que até os Apóstolos recebessem outro Espírito Santo para tratar desses assuntos. Enfim, os teólogos se preocupam em dificultar o que é fácil. Seu nível de soberba é tamanho que essa classe de homens chegar a considerar que sem seus ensinamentos a Igreja desabaria. Para a Loucura, a Igreja é muito mais que os teólogos e seus ensinamentos. A crítica aparece claramente contra os teólogos e não contra a instituição da Igreja, que é mais forte que os primeiros. Por fim, a Loucura vai criticar os religiosos, mas antes afirma que eles, juntos com os monges, são socorridos por ela própria: caso contrário, não mais existiriam. A crítica da Loucura aparece não contra a existência dessa classe em si, mas da forma como ela age. Os bispos nada fazem além de comer bem, e deixam o Rebanho aos cuidados do próprio Deus; os Cardeais se consideram sucessores dos Apóstolos e os Papas esquecem a sua função e seu significado, se tornando o maior inimigo da Igreja ao envolver Cristo nas leis do comércio. Essa crítica aos religiosos aparece como o ponto crucial da obra para o trabalho aqui proposto. No decorrer da análise vimos diversos elementos que caracterizam a obra de Erasmo como Humanista, mas as últimas críticas deixam claro a sua posição reformista. Ele justifica o porquê de ser considerado o mentor intelectual da Reforma Protestante: através da Loucura, Erasmo deixa claro seu desconforto para com os religiosos, que não estão a cumprir o seu dever e se desvirtuam da vontade divina. Por questões pequenas e muitas vezes materiais, os religiosos se esquecem dos mandamentos de Cristo e burocratizam a religião de forma a serem diferentes um dos outros por questões de orgulho e soberba - exemplo disso é o fato de se posicionar contra a fragmentação das irmandades. Erasmo afirma assim que só existe uma religião e um Deus, mas isso não está sendo respeitado nem pelos religiosos, responsáveis diretos pelo rebanho de Cristo, e nem pelos teólogos, que se esquecem do fato de todo o homem vir e ter um natureza que lhe é intrínseca, tentando através da sabedoria (portadora da infelicidade) se igualar a Cristo e ao Nosso Senhor e fazendo com que suas palavras não sejam entendidas por ninguém.

A Loucura acaba por afirmar que a cristandade se assemelha a ela - e aqui Erasmo deixa claro seu ponto de vista: ser cristão está diretamente ligado a ser feliz. A Loucura pode ser assim entendida, claro que de forma irônica e crítica, como uma metáfora da Cristandade. Conseqüentemente, tudo de bom que a Loucura proporciona é o que ser cristão possibilita ao homem. Somente Deus, fonte de toda luz, possui a sabedoria total; ao homem cabe a loucura pois quanto mais conhecemos, mais dor temos, e provavelmente Deus, em toda a sua misericórdia, não quer a dor e o sofrimento para seus filhos, daí aconselhar a natureza como a única guia confiável e a condenar a sabedoria responsável pelos males da sociedade. Para Erasmo, ser cristão não significa saber de todos os mandamentos e todas as palavras de Deus, mas sim viver da forma que ele escolheu para os homens. A ciência e a sabedoria que ela envolve , ambos artifícios que os homens usam desvirtuando-se dos mandamentos divinos, é que são responsáveis por toda a dor do mundo.

Podemos inclusive pensar numa "popularização da religião" cristã proposta por Erasmo, que critica os religiosos mas de forma alguma pede o fim dos mesmos. A instituição católica precisa de reformas para novamente seguir os mandamentos de Cristo e seu Pai, e Erasmo não questiona sua legitimidade. Talvez essa seja a diferença fundamental entre a crítica de Erasmo e as propostas um tanto quanto mais radicais de Lutero, que no final das contas faz uma revolução teológica com suas palavras. Talvez seja por essa diferença que Erasmo não reconhece a Reforma Protestante de Lutero algo legítimo. A crítica do autor é para com os homens que se esqueceram dos mandamentos de Deus e se desvirtuaram para uma sabedoria artificial e que só traz a dor, enquanto que a crítica de Lutero é para a forma com a qual o homem interpretou a palavra de Deus.

Essa diferença que marcará profundamente a posição de Erasmo e Lutero frente a Reforma Protestante, fica ainda gritante no livro Sobre a Autoridade Secular, de Lutero. A obra foi escrita por Lutero em 1523, dois anos após ter sido excomungado pelo Papa, e seis anos depois da publicação das 95 Teses, nas quais condena a prática das indulgências feitas pelos padres da Igreja Católica. A publicação dessas teses, em 1517, é considerada o marco inicial da Reforma Protestante, devido à grande repercussão que causaram não só no meio religioso, mas em toda a sociedade, graças ao debate que elas propunham. Dessa forma, quando Lutero escreveu Sobre a Autoridade Secular, suas idéias reformistas já eram bem conhecidas e difundidas em toda a Europa, e Lutero já não era mais considerado um religioso católico. Ele já havia aberto as portas não só da liberdade religiosa, como da liberdade política e econômica para a nova era que chegava. Com seus ideais, Lutero preparava aquela sociedade feudal para a Modernidade, os quais podem ser facilmente identificados no decorrer de seu discurso.
 

Sobre a Autoridade Secular foi escrito para o Imperador da Saxônia, Johann, com o intuito de mostrar como um cristão deve fazer uso da autoridade e da Espada para governar. Essa espécie de manual de como ser um bom governante cristão foi escrito afim de resolver um impasse do momento, onde os mandamentos de Deus eram tidos pelos sofistas como meros conselhos, e a Espada e a autoridade secular passaram a ser tidos como formas perfeitas de se governar o mundo - o que conseqüentemente resultou na ditadura de muitos governantes e principalmente na exploração dos pobres por parte desses. Essas ditaduras foram inclusive atribuídas aos padres e ao Papa, como se esses fossem responsáveis por tal tipo de governo. O objetivo de Lutero é, assim, mostrar através das Escrituras que tanto a Espada como a autoridade secular existem por desígnios de Deus e não pela vontade dos homens.

Nesse primeiro momento já podemos perceber características "tipicamente reformistas" de Lutero: a primeira é ter as Escrituras como a base de seu pensamento e ao mesmo tempo como sua justificativa: Lutero não faz nada além do que interpretar os mandamentos de Deus. A segunda está na denúncia que faz aos governantes que exploram em demasia sues súditos, mostrando sua rejeição a tais atitudes. E a terceira é a de destituir do Papa e dos clérigos em geral o governo secular e uso da Espada: na sua opinião, essas atividades não lhes cabiam.


Sobre a Autoridade Secular, de Martinho Lutero
A primeira coisa que afirma em seu livro é que os mandamentos de Deus não estavam sendo seguidos, e a culpa era exclusiva dos homens que não estavam conseguindo compreender as palavras divinas. Lutero não admite a possibilidade de algum erro ou até da ineficiência das Escrituras. Em seguida, ele estabelece quais serão os fragmentos da Escritura em que vai se deter para poder provar que um rei cristão pode governar através das palavras de Deus e que isso não tem nenhuma contradição com o que os Apóstolos falaram. Lutero afirma que Deus dividiu a humanidade em dois reinos: a do seu próprio reino, onde se encontram todos os cristãos, e a do reino do mundo, onde vivem não-cristãos e homens maus. Nesse momento podemos perceber outra forte presença dos ideais reformistas de Lutero: aqui fica claro que quem decide e divide a humanidade e, conseqüentemente, quem vai ser ou não cristão, é Deus: o homem não pode fazer nada para mudar seus desígnios. Vemos aqui o princípio da justificação pela fé (um dos três que constituem o Tripé dos ideais reformistas de Lutero), onde não importa o que o homem faça, pois o que vai lhe salvar do inferno e do purgatório e garantir a vida eterna no paraíso é a fé, e está é predestinada por Deus. Assim, o futuro independe do homem, pois Deus já traçou o seu destino. A fé deixa de ser um hábito para se tornar uma compreensão; ter ou não ter fé não depende do homem, é Deus quem determina: assim, a fé é algo que vem de fora para dentro, e não o contrário, como pregava a Igreja Católica.
 

S. Tomás de Aquino
Depois de dividida a humanidade, Lutero afirma que as leis foram feitas para os injustos e não para os justos, e por isso os cristãos não têm porque temer a Espada e a lei secular, já que vivem perfeitamente segundo os desígnios de Deus. No reino do mundo, Deus instituiu o governo das leis para que esse reino não se transformasse num completo caos. Esse reino do mundo é classificado como mau para Lutero. Aqui sua visão pessimista em relação ao mundo carnal aparece visivelmente - visão herdada de sua formação augustiniana e que muito difere da visão de mundo de Erasmo (baseada em S. Tomás de Aquino), onde a razão e a fé não são incompátiveis e o homem é adotado de livre arbítrio, o que vem em confronto com o ideal de predestinação proposto por Lutero. 

No entanto, mesmo com a humanidade dividida, Lutero afirma que os cristãos que viveram no mundo têm que obedecer a lei secular e a Espada, mesmo não precisando para si próprios, mas para o bem de seu próximo. O cristão deve sempre pensar em primeiro lugar no bem de seu próximo, mesmo que isso seja a sua derrota. Conseqüentemente, o cristão deve se subordinar às leis mundanas, pois assim Deus quis. Ou seja, entre cristãos há uma forma ideal de viver, e quando o cristão vive no reino do mundo ele tem que acatar as ordens de Deus respectivas para esse mundo. Esse sim é o verdadeiro cristão. Podemos retirar daí que o melhor governante é o cristão, pois ele sabe como agir corretamente e não explorar seus súditos. Pelo contrário: sabe se mostrar apto a cumprir seus deveres e estar à disposição de seus súditos que, de uma forma ou de outra, são seus próximos. No entanto, quando o governante age com justiça, ele não pode se igualar aos demais, pois no reino mundano ele é superior e detém a autoridade, ou seja ele tem que se pôr no seu lugar e agir da forma prescrita por Deus para esse mundo e para esse tipo de governo. Ele tem que fazer uso da Espada e da lei secular, pois isso está na Escritura e essa é a melhor forma de um principe cristão fazer o bem para o próximo.

Lutero também faz uma forte distinção entre os governos seculares e espirituais, mostrando que ambos se atolaram de injustiças e chegaram mesmo a inverter os papéis: o governo espiritual governa as almas pela espada e os corpos por cartas. Aqui Lutero deixa claro a sua crítica aos eclesiásticos, que não estariam fazendo o seu papel de forma correta, pois nào deveriam existir da maneira que existiam. Aqui vemos o terceiro elemento que compõe o tripé de Lutero: o sacerdócio universal. Para o autor, não deveria existir uma classe de homens para intermediar a relação entre os homens e Deus: cada qual o faria de sua maneira, e conseqüentemente a Igreja Católica tal qual conhecemos não precisaria existir como instituição, mas sim como um espaço para a comunhão dos homens. Feita essa crítica, Lutero continua seu discurso, mostrando que a atividade de príncipe é muito mais difícil do que parece, pois um governante tem que buscar ser justo, assim como foi Davi e não pode confiar em absolutamente ninguém.

Através dessa leitura, podemos perceber os principais ideais que compuseram a Reforma Protestante. As críticas de Lutero aparecem muito mais ferozes e diretas que as de Erasmo, que de um jeito ou de outro, sendo ou não irônico, fez as suas palavras saírem da boca de uma personagem não muito respeitada, que é a Loucura. Esperamos ter obtido, até este momento, resultado em nossa tentativa maior: retratar alguns aspectos do processo reformista, retirando dos discursos manifestos pelos autores citados algum significado histórico. Tentar fazer uma história da Reforma é tarefa por demais difícil, pois exige um domínio total dos fatos históricos além de enorme conhecimento em religião, e não é essa a pretensão do trabalho.
 

Por sua vez, o livro de Carlo Guinzburg se insere de forma diferente neste texto. As duas obras anteriores foram escritas por homens que viveram intensamente o movimento da Reforma (ambos são considerados seus predecessores), enquanto que O Queijo e os Vermes aparece como a "história" da história da Reforma. Uma história escrita por um homem que viveu e conheceu um mundo já reformado cerca de cinco séculos depois de Erasmo e Lutero. Claro que Guinzburg não foi o único a fazer uma história sobre a Reforma e suas conseqüencias no mundo moderno, mas o que diferencia a sua obra das demais, é a forma como ele faz essa história. O livro não pretende fazer uma história da Reforma Protestante buscando compreender todas as suas causas e conseqüências econômicas, políticas e sociais, mas sim compreender através dos autos da Inquisição a vida de um moleiro friulano, chamado Domenico Scandella, mais conhecido como Menocchio, nascido em 1532, quando a Reforma já havia sido iniciada.

Carlo Ginzburg

Ao analisar a vida de um homem qualquer, Guinzburg nos apresenta um outro lado da história: a história dos vencidos, dos homens comuns que trabalharam durante toda sua vida, e não a história de "heróis". Guinzburg faz, assim, a chamada microhistória. Mas engana-se quem acha que ao ler o livro não vai se deparar com uma epopéia; a vida de Menocchio pode ser considerada uma aventura, principalmente se levarmos em conta que ele era um homem e não um ícone. Na realidade, ao se propor a reconstituir a história de Menocchio por meio da análise dos autos inquisitóriais, o autor deixa bem claro que a história é feita por homens e não por símbolos.

A história de Menocchio consiste, em linhas gerais, na trajetória de um homem que não parecia se adequar ao seu tempo. Foi moleiro numa cidade do norte da Itália, o que de certa forma o distinguia dos demais camponeses, pois um moleiro costumava ter mais recursos que os outros. Sabemos que ele era um homem simples de vida difícil, mas que no entanto sabia ler e escrever e os fazia com freqüência. Foi preso pelo Santo Ofício duas vezes por heresia. Seu crime, em ambas as vezes em que foi preso, foi ter sido capaz de articular tudo o que havia aprendido, e a formular novas idéias que muito se assemelhavam às reformistas (tanto luteranas como anabatistas), e que queria compartilhar essas idéias com seus companheiros, mas sem obter muito êxito nessa tentativa. E isso nos deixa claro que a Reforma foi um processo que, de forma direta ou indireta, perpassou por todos, não sendo a "roupa de domingo", como o Renascimento. Mesmo que as idéias de Menocchio sejam uma mistura da difusão da Reforma com a cultura popular que nem mesmo a opressão católica extinguiu, vemos que um moleiro de uma aldeia italiana foi tocado pelos ideais de Lutero, Calvino e até mesmo dos anabatistas. Assim, a história de Menocchio confirma o que foi dito no início do trabalho sobre o movimento reformista: um movimento de massas.

O desenrolar de todo o processo que Guinzburg traça da vida do seu personagem real, todas as possibilidades de suas leituras e as possíveis interpretações que Menocchio teve para poder formular o seu pensamento, são por demais interessantes não só por pensarmos na própria condição humana (como ele conseguiu chegar sozinho às conclusões que chegou), mas também com a ponte que o autor faz entre a vida do moleiro e tudo o estava acontecendo a sua volta. Não é a toa que Menocchio se articula de forma que defende até o fim da vida as suas ideais, mesmo tendo passado pelas mãos da Inquisição duas vezes. No entanto, o autor nos alerta para o fato de Menocchio ser um caso singular no seu tempo; assim, não podemos tomar a sua história como exemplo geral.

O queijo e os vermes,
de Carlo Ginzburg
Mas é a singularidade da pessoa de Menocchio que torna a vida desse homem um importante objeto de estudo, assim como a maneira como é contada por Guinzburg. A história em O queijo e os Vermes aparece como a exceção, e não como um monte de regras analisadas de forma anacrônica para fazer sentido no presente atual.

A maior contribuição que o autor nos deu, além de um livro muito prazeroso, é a de nos fazer ver uma história em que os personagens pensavam de formas diferentes. A História aparece como um fenômeno natural da humanidade que de certa forma independe do historiador (não completamente). A exceção contada por Guinzburg se mostra imprescindível para entendermos o que é o processo histórico, mesmo sabendo que a maioria dos camponeses não pensavam como Menocchio. Sua trajetória mostra que as crenças populares não foram extintas, que a Reforma se estendeu, mesmo que desvirtuada, até a classe camponesa e que a modernidade foi um processo que abrangeu em diferentes níveis toda a sociedade.

Conclusões finais

Por meio da leitura de três obras bem distintas pudemos ver diferentes aspectos da Reforma: a sua origem com Erasmo de Rotterdam, aparecendo como uma crítica à forma pela qual a Igreja e os clérigos vinham agindo no entanto, crítica essa que se esconde na figura da Loucura, possuindo tanto a função de ironizar e satirizar ainda mais a crítica como de servir de escudo para seu autor. Vimos em seguida os ideais reformistas claramente expressos na obra de Martinho Lutero, que rompe a barreira que Erasmo hesitou em ultrapassar e deslegitima com fundamentos a Igreja Católica enquanto instituição, causando uma verdadeira reviravolta no mundo feudal, que a partir de então entra na Idade Moderna. E, por fim, o livro de Guinzburg, que , além de propor uma nova maneira de ver a história, também deixa bem claro que a Reforma teve seus efeitos sentidos por muito tempo, nos mais diversos lugares e nas mais diversas pessoas.