AS DUAS FACES DA MOEDA: PATERNALISMO, AMOR E ÓDIO ENTRE SENHORES E ESCRAVOS NO BRASIL COLONIAL
Luiz Fernando B. Belatto
luizbelatto@klepsidra.net
2º Ano - História/USP e 4º Ano - Jornalismo/PUC-SP
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INTRODUÇÃO

O objetivo desta monografia é apresentar, sob a perspectiva de diversos autores ligados aos estudos históricos e sociológicos brasileiros, as relações paternalistas que se desenvolveram ao longo do período colonial de nosso país, bem como costumes da época tratada. 


Engenho de açúcar: centro das relações paternalistas durante a Colônia

Tendo como base a importante obra de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, que introduz o conceito de homem cordial como um dos elementos da sociedade colonial, também faremos incursões pelo legado de Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, entre outros autores. O estudo dessas relações é importante não só para uma melhor compreensão do que foi a vida na colônia, mas para perceber a persistência de muitas de suas características na atual sociedade brasileira. Portanto, nossa intenção é apontar, desde suas origens na Península Ibérica e considerando as adaptações que sofreram nestas terras tropicais, como se formaram as relações entre os colonos e desmistificar a visão extremamente estratificada de se ver o mundo colonial brasileiro, pela qual as unidades senhores de engenho e escravos eram totalmente opostas. Ver-se-á que essa rigidez, ocasionada mais pela divisão de trabalho existente no universo produtivo e fatores econômicos (visto que o tráfico de escravos negros rendia bons lucros à Metrópole) do que por diferenças raciais, não funcionava em tão larga escala. Pelo contrário: segundo Sérgio Buarque, "as suas relações [dos escravos] com os donos oscilavam da situação de dependente para a de protegido, e até de solidário a afim" (BUARQUE, 1995, Pag. 55).

Dessa forma, introduz-se aqui uma contribuição, que se espera ser de grande valor, para os estudos do Brasil Colônia.
 


AS ORIGENS DO PATERNALISMO COLONIAL

Raízes do Brasil é um livro que "nasceu clássico", nos dizeres do professor Antonio Candido, por fazer uma interessante e diferenciada análise da sociedade colonial do Brasil. Entre seus méritos, está o de buscar nas características presentes nas sociedades ibéricas (Espanha e Portugal) as origens para o Paternalismo existente nas relações entre os habitantes de suas colônias americanas. Destacaremos aqui Portugal, pois foi o colonizador brasileiro.

A nação portuguesa, situada à beira da Europa, constitui uma "zona de transição", segundo Sérgio Buarque, entre esse continente e o resto do mundo. Por estar assim mais isolada do resto do continente, a sociedade portuguesa não foi tão influenciada, e assim não apresentava algumas características observadas em outras sociedades européias, tais como a rígida coesão social, privilégios hereditários e hierarquização social. Pelo contrário: Portugal, segundo o autor, desenvolveu uma certa "cultura da personalidade". De acordo com suas palavras, "pela importância que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos semelhantes no tempo e no espaço, devem os portugueses muito de sua originalidade nacional" (BUARQUE, 1995, Pag.32) . O isolamento faz com que os portugueses tenham interesse de constituírem-se por si mesmos, pelo esforço pessoal. Define-se uma sociedade frouxa em sua estrutura social, que fornece grande espaço à mobilidade entre camadas sociais e não se prende por princípios hereditários de nobreza. Qualquer pessoa, trabalhando para obter uma terra e enriquecendo, poderia tornar-se nobre. Dependia apenas de seu mérito e virtude.

Alguns autores contestam esta visão, que passa o sentido de que existiria uma certa anarquia na organização da sociedade portuguesa e, conseqüentemente, da brasileira. Por exemplo, Arno e Maria José Wehling afirmam, em seu livro Formação do Brasil Colonial, que a sociedade portuguesa era estamental, ou seja, apresentava certa ordem social rígida em sua organização. Em sua instalação em nossas terras, esses estamentos teriam sido afrouxados, em virtude da "sensação de liberdade do Novo Mundo, onde as peias sociais seriam mais frouxas, a mobilidade mais fácil, a presença do Estado mais tênue, sensação resumida na expressão que afirmava não haver pecado ao sul do Equador" (WEHLING, 1994, Pag.120). Há, nessa ótica (que parece a mais correta) a separação rígida entre senhores e escravos, que implicava em regras de conduta e respeito, sob pena de castigo. Deve-se lembrar: o negro é propriedade de seu senhor, e este faz o que quiser dele.
 

Formação do Brasil Contemporâneo
Caio Prado Júnior, em Formação do Brasil Contemporâneo, considera que, da organização social que o colono importa de Portugal, não foi possível reproduzir na colônia a unidade familiar. Segundo ele, o português vinha para o Brasil em sua maioria sozinho, deixando sua família na terra natal ou trazendo-a aos poucos. Portanto, afrouxam-se em sua pessoa os valores e regras familiares, e com essa conseqüente falta de mulheres brancas na colônia ele satisfaz seus impulsos sexuais com as escravas. Mesmo nos casos em que o colono vive com sua família em terras brasileiras, os atos sexuais fora do casamento não diminuem: "(...) o novo colono, mesmo estabilizado, acabará preferindo a facilidade submissa de raças dominadas que encontra aqui, às restrições que a família lhe trará.(...) já estará habituado a tal vida que o freio da mulher e dos filhos não atuará nele senão muito pouco" (PRADO JR., 1971, Pag.351). O princípio de organização familiar, que os Wehling afirmam ter sido importado para a colônia e aqui alterado, não se concretiza; Caio Prado Júnior considera o Brasil Colonial como um lugar onde "falta base sólida em que assentar a constituição da família" (PRADO JR, 1971, Pag 351).. Em sua opinião, não se importava da metrópole um rígido sistema social, pelo menos no campo familiar: a colônia era a negação da família. 

Como conseqüência, as outras unidades sociais, como a religião, também ficam abaladas e se adaptam à realidade da colônia: os casamentos deixaram de ser freqüentes; as festas religiosas eram "irreverentes cerimônias, em que ridículas palhaçadas se misturam àquilo que a religião católica apresenta de mais respeitável", segundo relato que resgata do cronista francês Saint-Hilaire; os cultos transformam-se em cerimônias pouco sérias.  A moral dessa sociedade colonial era tão pouco rígida, chegando a apresentar tolerância infinita, nas palavras de Caio Prado, que os próprios padres e sacerdotes locais entregavam-se à luxúria e ao sexo, sem que nada lhes acontecesse. A religiosidade colonial é reduzida "a um esqueleto de práticas exteriores e maquinais vazio de qualquer sentimento elevado, e que é o que se reduziu o catolicismo na colônia" (PRADO JR, 1971, pag.355).
 

A igreja colonial: mistura de enorme poder e tolerância
A miscigenação sexual torna-se hábito freqüente, inclusive sendo aceita por toda a sociedade local. Portanto, o contato sexual entre brancos e negros colabora na miscigenação brasileira e tem influência na constituição das relações paternalistas entre essas unidades do Brasil Colonial. A questão da sexualidade será melhor debatida em um tópico seguinte.

Os Wehling e Sérgio concordam em um ponto: que os portugueses adaptaram seus hábitos para morar em solo brasileiro. Hábitos esses relacionados à alimentação, instrumentos de caça e pesca e descanso, com a adoção da rede indígena. O que parece ser esquecido de Raízes do Brasil é que existia, ainda que limitada, uma estratificação de classes sociais em Portugal, que é transplantada para o Brasil. Afinal, como se verá, o topo da cadeia social é o senhor de engenho, dono de posses, terras e poder. 

Todos os outros elementos, como escravos, familiares e outros tipos de dependentes, se subordinarão a ele. No entanto, se Sérgio Buarque parece esquecer desse fato ao tratar da transposição da estrutura de classes sociais para a colônia brasileira, se recuperará ao falar mais adiante dos poderes do senhor de engenho, mostrando que esse elemento, realmente, era a maior força da sociedade colonial.

Feita esta observação decorrente da oposição entre autores, voltemos à idéia do mérito e virtude. Para comprovar tais princípios existentes no povo português, pode-se citar, como exemplo e ainda de acordo com Sérgio Buarque, a estirpe dos colonizadores que para cá vieram. Não se tratavam de portugueses com ocupações já determinadas e fixas em sua terra, mas sim de aventureiros. Ou seja, pessoas que queriam fazer-se ricas em pouco tempo e obter títulos de nobreza, e para isso arriscariam a vida em tal empreitada colonizadora. Tinham como objetivo fazer fortuna nas novas terras e depois voltar à pátria-mãe e desfrutar de sua riqueza e seu título honorário. Outro exemplo dessa sociedade que privilegiava a virtude e prendia-se a princípios tradicionais dá-nos a burguesia lusitana que se forma com as Grandes Navegações. Enriquecida e orgulhosa de seus méritos, passa a comprar títulos de nobreza e sentir-se nobre. Prefere, a introduzir uma nova organização social ligada ao comércio, o que acarretaria novos princípios de organização, seguir uma ordem já tradicional e bem firmada.

Tal individualismo não significava, no entanto, falta de relações de solidariedade. Nessa sociedade voltada ao crescimento pessoal, estas relações desenvolviam-se em círculos de amigos, familiares e de pessoas muito íntimas. "(...) a solidariedade, entre eles [portugueses] existe somente onde há vinculação de sentimentos mais do que relações de interesse – no recinto doméstico ou entre amigos" (BUARQUE, 1995, Pag. 39). Não se relaciona com qualquer pessoa para se ascender socialmente ou fazer negócios, por exemplo: isso depende das virtudes pessoais de cada um. Os relacionamentos na sociedade portuguesa se baseariam no sentimento, no afeto, e não em princípios racionais. E isto torna-se ainda mais claro na expansão ultramarina, iniciada no século XV, quando os portugueses dominam a costa africana e importam escravos para trabalhar nos campos e casas de família da nação. Segundo cronistas da época, Portugal foi invadido "por sangue estranho", e quem fosse à procissão dos Paços, em Lisboa veria a participação de "4 e 5 mil almas, sendo a maior parte constituída de negros e mulatos, de negras e mulatas". O que isso acarreta na nação? Uma miscigenação de raças. O branco português convive e estabelece relações muito próximas e até mesmo íntimas com seus escravos. Não há um isolamento entre as duas classes, de nobres e trabalhadores, na antiga Lisboa e no antigo Portugal. O negro penetra no círculo privado de relações íntimas do seu senhor nobre; ele dissolve, conforme dito na introdução, qualquer idéia de separação de castas ou raças. O português, desde o século XIV, passa a ter um sangue mestiço, resultado de seu contato com o negro. E, com isso, "acrescenta à sua plasticidade pessoal a ausência completa, ou praticamente, de qualquer orgulho de raça" (BUARQUE, 1995, Pag. 53). Ora, a miscigenação confere à sociedade portuguesa mais maleabilidade, calor humano (a chamada "latinidade") nos relacionamentos que estabelece.
 

O português, então, seria um ser caracterizado pelo grande afeto que sente pelos que lhe estão próximos, e nesse sentimento basearia as suas relações sociais. Estas constituem-se como paternalistas, visto que ele se torna e se considera como que o protetor de quem o cerca, dando e obtendo deles carinho, amizade, afeto em troca da fidelidade, do respeito e da companhia. Recusa-se a fazer alianças com desconhecidos, mesmo que isso lhe seja um bom negócio comercial, por exemplo. Para ele, importa mais o que o coração sente, e não o que diz a razão ou necessidade. O Paternalismo configura, então, relações emocionais (amor ou ódio; carinho ou repulsa; etc.) no seio da sociedade portuguesa. E serão relações paternalistas que o colono português trará no processo colonizador do Brasil. Aventureiro, desejoso de fortuna fácil e rápida, em cujas veias corre sangue latino, mestiço, o português colonizador torna-se senhor de engenho ao ganhar alguma terra; o açúcar é o produto que gera riquezas e o prende a essa terra; o negro africano é o elemento produtor; o local de produção são as terras quentes e litorâneas do Nordeste. Como veremos no próximo tópico, estes e outros elementos serão importantes para o nascimento, nestas terras, do citado Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda.

Sérgio Buarque de Holanda

O HOMEM CORDIAL

O Homem Cordial representa, para Sérgio Buarque de Holanda, uma possibilidade para definir a identidade brasileira que resulta da colonização portuguesa. Podemos explicá-lo como um ser que constrói suas relações sociais por meio da afetividade, dos motivos do coração em detrimento dos da razão. Ou seja, o Homem Cordial reprime todo e qualquer tipo de relação movida por interesses ou idéias dessa estirpe; ele só se relaciona com alguém se "gostar ou não" dessa pessoa. Isso inclusive aplica-se a motivos econômicos e políticos.
A figura do Homem Cordial surge nos engenhos de açúcar brasileiros, que eram as unidades produtoras do Brasil Colônia e nos quais concentrava-se a maior parte da renda metropolitana. Esses engenhos eram centros produtivos isolados e independentes, sendo habitados pela família do senhor de engenho (o oligarca rural, também chamado de patriarca, figura autoritária, dominadora e centralizadora desse ambiente) seus agregados (escravos, capatazes etc.) e algumas pessoas mais próximas. Nas palavras de Sérgio Buarque, "o engenho constituía um organismo completo e que, tanto quanto possível, bastava a si mesmo" (BUARQUE, 1995, Pag.80)

O engenho: fonte de riqueza e poder para o Senhor
Tal isolamento fazia com que laços biológicos e afetivos fortes surgissem entre todos os moradores do engenho, constituindo uma unidade movida mais por sentimentos e deveres do que interesses ou idéias. Então, os habitantes de cada engenho se encontrariam ligados mais por sentimentos e deveres a cumprir, não por idéias ou interesses pessoais. Aqui, conforme já dito, nasce a cordialidade do brasileiro. Ela representa apego apenas às relações que envolvem afeto entre as partes envolvidas, tendo extrema aversão às relações impessoais, sem um envolvimento mais sentimental ou apenas ligadas a objetivos a alcançar-se naquele momento, dissolvendo-se depois. O Homem Cordial requer relações duradouras, regidas pela fidelidade da palavra entre as partes e pelo contato sentimental. Dessa forma, esse homem fecha-se em um mundo privado, cercado apenas por quem sente afeição.

Algumas razões podem ser usadas para justificar tais ligações cordiais: o já explicado sangue latino do colonizador português, que o caracteriza como um ser aberto a contatos diversos e por não possuir princípios de diferenciação de raça; a falta de mulheres brancas na colônia fazia com que as escravas invadissem a Casa-Grande, tornando-as objeto sexual dos senhores e portanto constituindo contatos afetivos e contribuindo para a miscigenação da população local; outras escravas tornam-se domésticas da residência do senhor, chegando até a serem amas-de-leite de seus pequenos filhos, criá-los e dar-lhes afeto e carinho. Essa invasão da casa-grande pelas negras cria laços de intimidade entre essas escravas a e família senhorial. Tornam-se unidades complementares e que confiam uma na outra, procurando cada uma dessas partes desempenhar seu papel nesse sistema. Até mesmo na relação dos escravos e senhores pode-se desvendar traços de ligações baseada na confiança e afeto. Parecia simples: o escravo produz e realiza seu papel na economia, o senhor lhe dá proteção e um mínimo de condições para a sobrevivência. Em caso de desobediência, o negro não é castigado por atrapalhar o processo produtivo (o que caracterizaria um princípio mais ligado à racionalidade marcante de uma economia voltada para princípios de mercado e lucro), mas por trair a confiança e cuidado nele depositada por seu senhor. Parece ilustrativa a seguinte citação de Buarque: "Sua influência [a do escravo] penetrava sinuosamente o recesso doméstico, agindo como dissolvente de qualquer idéia de separação de castas ou raças, de qualquer disciplina fundada em tal separação" (BUARQUE, 1995, Pag. 55).
 
O Negro: principal
mão-de-obra do colonialismo
O negro torna-se o elemento produtivo e trabalhador do Brasil Colonial porque o colono não tem interesse em realizar tais atos (deve-se lembrar que ele quer ostentar riqueza fácil e títulos de nobreza de forma fácil e que não necessite o seu próprio esforço) e também porque os índios, bons caçadores, pescadores e extrativistas, não se adaptaram ao trabalho metódico que exigia as lavouras de cana e a produção açucareira. O negro constitui, assim, uma necessidade produtiva. E por isso, implica em receber bons tratos e em formar um relacionamento mais próximo com seu senhorio. Entre ambas as partes deve haver uma certa harmonia e o cumprimento de deveres. 

A cordialidade caracteriza todas as relações existentes no Brasil Colonial nos primeiros séculos de ocupação. Relatos de comerciantes dessa época contam que para vender um produto a um oligarca era preciso primeiro tornar-se seu amigo. 

Essa cordialidade, é preciso esclarecer, não se refere necessariamente a prática de boas maneiras no trato com as pessoas ou demonstrações de bondade. Ela pode representar maldade ou compaixão por parte de uma pessoa a outra, dependendo do que esta última lhe causa. Representa também falta de polidez e de princípios civis, fundamentais para a organização de um Estado. Nos exemplos que analisaremos, isso se comprovará em fatos como a utilização de diminutivos no trato com entidades religiosas e a dificuldade de se constituir um Estado industrial com a decadência das oligarquias apoiadas no tráfico negreiro após a abolição deste na segunda metade do século XIX.

Peguemos, de início, a religião. Até hoje é característica brasileira criar denominações para mostrar certa intimidade com os santos religiosos, pessoas e objetos. Assim, aparecem termos como Santa Teresinha, Aleijadinho e Leãozinho, dentre outros, nos quais o diminutivo permite a aproximação e a familiarização, fazendo-os estarem mais próximos do coração dos fiéis e dos sentidos destes. A presença de altares com imagens de santos em casas, e não exclusivamente nas igrejas e templos, também comprova essa aproximação. O culto torna-se íntimo, próximos das pessoas e não mais restrito a um único local de adoração. Nossas festas religiosas, onde populares carregam imagens de Cristo e Nossa Senhora pelo meio das ruas e do povo como se fossem mais dois (como tantos outros que lá estão) no meio da multidão também estão sobre esse efeito da intimidade cordial. No Brasil, o rito perde a polidez, a distância; ocorre uma humanização dos rituais e o afrouxamento de seu rigor. A partir disso, não havendo formalidade nos cultos, a religiosidade torna-se quase que carnal e rompe com o princípio da adoração. Logo, sem haver uma moral mais rígida na religião, também não se produz na colônia uma moral social mais maleável. Sem haver uma religiosidade respeitosa, não se produziu no país um forte moral social. Pelo contrário: a mentalidade cordial não aceitava nenhuma regra ética ou moralista que não viesse do fundo emotivo presente nas pessoas. Assim, as relações políticas, baseadas na racionalidade e constituídas em busca de interesses e relações de poder, portanto modificáveis dependendo do momento e interesses em jogo, não encontravam espaço nesse meio familiar, que só construíam relações com fundamento nos sentidos e sentimentos.
 
A decadência dos engenhos faz o Homem Cordial migrar
para as cidades, para os postos burocráticos
O Homem Cordial, dessa forma, vai apresentar-se como um ser muito mais ligado a emoções do que a princípios racionalistas. Precisa viver cercado daqueles que lhe são caros e íntimos, pois tem pavor de viver consigo mesmo. É desconhecedor de qualquer regra de convívio não-ditada por uma ética de fundo emotivo. Seu espaço é o meio rural, onde se localizam os engenhos produtores da riqueza. Com a acentuada decadência deste no século XIX, e o conseqüente crescimento do meio urbano, surgem cargos burocráticos destinados a ser ocupados pela classe mais importante do país, ou seja, a aristocracia açucareira. 

Assim, com a decadência da economia agrícola essas elites transferem-se para as cidades e ocupam tais cargos, povoando o meio urbano com sua mentalidade cordial. Caracteriza-se aqui a invasão da esfera pública pela privada. Assim, a cidade continuava subordinada ao campo, tanto economicamente quanto mentalmente. O meio urbano será invadido pela estrutura familiar e patriarcal que imperava nos engenhos e que vai absorver a mentalidade cordial. A cidade, órgão integrante do Estado Moderno, nascida para ser um espaço público, é dominada pela esfera privada, ou seja, por um estilo de ação desenvolvido no plano rural.

O Estado é um espaço que não admite a ordem familiar. Ele surge da transgressão dessa ordem, tornando todos os indivíduos cidadãos, contribuintes, eleitores e responsáveis, seguindo as leis criadas para reger esse comportamento. Tudo isso representa o triunfo do geral sobre o individual, do intelectual sobre o material. As sociedades mais desenvolvidas passaram por esse processo, que implica na superação de uma mentalidade retrógrada para a constituição de uma outra, baseada em leis gerais e no capitalismo. Desaparece a relação humana no processo produtivo. Se nas velhas corporações de ofício todos os trabalhadores constituíam quase uma família, partilhando dos mesmos direitos, com o sistema industrial moderno ocorre separação entre empregadores e empregados, diferenciação de cargos e funções e de salários: acaba a intimidade reinante entre todos e inicia-se uma disputa, uma competição para destacar-se e conseguir melhorar cada vez mais a sua situação. Assim começam os antagonismos de classe.

Essa mentalidade moderna, que permite a afirmação do Estado e a instalação de uma nova ordem nas relações econômico-sociais (a ordem capitalista-industrial) não encontrou espaço no Brasil do século passado. Ainda dominado pela economia agrário-exportadora, não havia como implantar indústrias no país. No plano político, o Imperador estava nas mãos das aristocracia; assim, controlavam o Brasil de acordo com seus interesses particulares, sempre favorecendo seus negócios ou necessidades que tivessem. No Legislativo ocorria a mesma coisa, comprovando que a mentalidade individualista do Homem Cordial tinha penetrado fortemente no meio urbano. Os parlamentares, eleitos com a função de serem homens públicos, ou seja, promover a busca dos interesses gerais (portanto um princípio ligado à democracia presente no Estado Moderno), acabavam por favorecer aos grupos que os ajudaram a vencer ou aos seus próprios interesses particulares. Mais uma vez, a esfera privada invadia a pública. E essa é uma característica que permanece até hoje. O procedimento de empregar parentes em cargos públicos, tão comum e combatido na atualidade, significa isso: a afetividade, a relação mais pessoal do que racional (de escolher o mais capacitado para o cargo), predomina no universo público.

No entanto, não podemos negar que a figura do Homem Cordial está menos presente em nossa sociedade atualmente do que no século passado e início do atual. Além dos carinhosos chamativos de tratamento e da questão religiosa, ela ainda se manifesta em alguns aspectos, como a escolha política: geralmente votamos em alguém por causa da sua aparência, pela confiança pessoal que nele colocamos ao vê-lo, em detrimento de suas capacidades, suas idéias. A História do Brasil nos dá exemplos claros, como Jânio Quadros. Este tornou-se um recordista de votos muito mais em função da sua aparência desleixada e descuidada, que fazia o povo humilde a enxergar-se nele, do que pelas idéias que apresentava para governar. Ainda temos um funcionalismo público, além dos próprios parlamentares, que não se adequam ao princípio de Estado impessoal: muitos ainda procuram olhar para seus próprios interesses e dos grupos que os apoiam em vez de buscar os interesses relativos a todas as pessoas. O Homem Cordial e sua mentalidade estão menos presentes no meio urbano em virtude do desenvolvimento industrial pelo qual o país passou nos últimos sessenta e cinco anos, que superou o campo em importância econômica e implantou nas cidades a mentalidade industrial-capitalista da competição por melhores empregos e salários, das relações movidas por interesses, enfim, da diminuição das relações humanas movidas pela emoção. A presença da indústria no Brasil produz uma nova mentalidade, mais adequada ao mundo capitalista, que suplanta a retrógrada presença da mentalidade cordial influenciadora do Brasil desde a sua colonização.
 
Representação clássica
de um Senhor de Engenho
Podemos afirmar que o cordialismo é decorrente das relações paternalistas existentes na colônia. O senhor de engenho, dono dos poderes absolutos sobre a terra e todos que nela habitam, não é nada sem a proximidade, o afeto e a atenção dos que vivem com ele. Daí pode-se dizer que mesmo exercendo um poder extremamente centralizador e controlador (como veremos mais adiante), ele necessita do contato dos que lhe são próximos e caros. Se maltrata-os ou oprime-os, é porque é o grande líder local e deve zelar por eles; em troca disso, quer sua afeição e presença destes junto de si, no seu círculo de domínio. Não é o senhor de engenho um homem rústico e que deseja o isolamento, tal qual Paulo Honório, personagem central do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. Em virtude de sua herança portuguesa (tanto na miscigenação com os negros quanto no isolamento de seu país em relação ao resto da Europa) ele torna-se desejoso de afeto constante. Se não o obtém de quem o quer, luta para destruir esse alguém.
Daí a cordialidade poder representar tanto bons sentimentos por alguma pessoa, bem como o ódio por outra que não quer dar afeto ao senhor ou compartilhar da companhia deste. Interessante comentário sobre esses dois lados do Homem Cordial foi feita por Maria Odila Leite da Costa: "A figura do Homem Cordial representou o aspecto conciliador das elites, preocupadas em atrair simpatias pessoais, em reforçar alianças de interesses particulares, familiares, oligárquicos" (CANDIDO, Pag. 26). No entanto, não nega a propulsão deste mesmo ser cordial para a violência: "(...) assim como a sua [das elites] capacidade de reagir com violência, quando os conchavos pessoais não bastavam" (CANDIDO, Pag 26).
 


RELIGIÃO, SEXUALIDADE, MISCIGENAÇÃO E PATERNALISMO



A índia e a negra: objetos do
desejo sexual do branco europeu
Como já foi abordado anteriormente, o caráter do colono que vem habitar o Brasil acaba por determinar o estabelecimento de alguns aspectos fundamentais para se entender a colônia: a miscigenação racial, a religiosidade adaptada e a ausência de fortes laços familiares. Isso tudo relaciona-se com o Paternalismo colonial, pois demonstra sua força e permite sua existência, conforme veremos agora em uma análise mais detalhada. 

No caso da miscigenação, ela ocorre desde a chegada dos colonos na terra brasileira. Vindos sem mulheres brancas, os primeiros portugueses, possuidores de um forte ímpeto sexual, nas palavras de Gilberto Freyre, estabeleceram relações sexuais com as índias locais para satisfazer tal ímpeto. Com o desenvolvimento da atividade colonial, as índias foram substituídas pelas mulheres negras e mais tarde as mulatas incorporaram-se a tal harém lusitano. A essa constante miscigenação entre raças, ocorrida em virtude da falta de mulheres européias na colônia e à frenética sexualidade lusitana, deve-se, nas palavras de Freyre, a formação do povo brasileiro. Da mesma opinião compartilha Darcy Ribeiro, ao afirmar que os primeiros brasileiros são aqueles nascidos do cunhadismo (relação indígena, na qual dava-se uma índia a um forasteiro como esposa, para que ele penetrasse na comunidade), do cruzamento entre os primeiros colonos e as nativas da terra, bem como os mulatos nascidos das aventuras sexuais dos senhores de engenho nordestinos e de suas escravas negras.

A questão que opõe os autores está na análise desse processo. Freyre defende uma forma de entender o típico ser brasileiro como a perfeita mistura das raças, nascido de "relações hierarquizadas, visto que balizadas pelas escravidão, porém pacíficas, afetivas e fortemente sexualizadas", conforme a análise do legado freyreano de Ronaldo Vainfas (in DIVERSOS, 1997, Pag. 229). Darcy afirma que o brasileiro nascia já revestido de carência (pois não se assimilava nem a brancos, índios e negros e assim tornava-se brasileiro em virtude do desprezo que sofria e sentia pelas outras raças) e que "todos nós brasileiros somos carne da carne dos pretos e índios supliciados(...) a mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista" (RIBEIRO, 1995, Pag. 120). 

Conforme se percebe, Freyre desconsidera a violência da escravidão, as relações muitas vezes forçadas entre senhores e escravas e a própria política colonial para a ocupação da colônia. Vainfas descreve que, na impossibilidade de remeter um grande contingente de portugueses da metrópole para povoar as terras descobertas, a solução foi miscigenar a população e assim habitar o território. Isso é bem descrito por Darcy, ao afirmar, por exemplo, que a maior parte das bandeiras paulistas do século XVII era composta por "brasilíndios" filhos de colonos com indígenas, bem como reforça-se a presença de mulatos, que desde a nascença, raramente aceitos por seus pais brancos, tornavam-se escravos.

Não se nega a visão de Freyre a respeito da miscigenação; o que se faz é apenas contrariá-la com a realidade dos fatos: nem tudo era belo no Brasil Colonial. Cabe aqui fazer um parênteses a respeito da obra de Freyre: não se pode esquecer que ele pertencia a uma rica família aristocrata de Pernambuco. Escreveu sua obra máxima, Casa Grande e Senzala, após a Revolução de 1930, que procurou tirar o poder das mãos dessa reduzida classe a qual ele pertencia. Seu livro, segundo Carlos Guilherme Mota, é uma tentativa das elites regionais de tentar compreender e se situar nessa nova realidade brasileira. Portanto, podemos afirmar que, com a visão de que as relações entre negros e senhores no Brasil Colonial tinham momentos de afetividade, reciprocidade e conseqüente miscigenação cultural, Freyre quer provar que essa elite, no mundo colonial, não era perversa ou dominadora como muitos lhe apregoavam. Pelo contrário: sabia viver em harmonia com seus escravos. Daí seu interesse em retratar minuciosamente a vida na Casa-Grande e afirmar que todo brasileiro traz no sangue uma herança negra, exatamente em virtude dessa amigável mistura de culturas diferentes que se processa no Brasil Colonial. E nesse mesmo caminho justifica-se ele não considerar a existência de contradições de classe e raça.

A visão freyreana do mundo colonial foi uma novidade em sua época e importante para os estudos, mas carrega um certo cunho aristocrático, defensor das velhas oligarquias e que esconde detalhes dessa realidade. 



Gilberto Freyre e seu
Casa-Grande & Senzala

Voltemos agora à questão sexual. Na maioria das vezes havia violência e até estupro nas relações sexuais miscigênicas. Por ser dono dos escravos, o senhor de engenho sentia-se total responsável por eles e no direito de fazer o que quisesse. Isso incluía a utilização das negras como mero elemento sexual e para exclusiva satisfação do prazer pessoal. Aqui configura-se uma relação paternalista. Ao ser o único líder da fazenda, o senhor dava-se o poder de usufruir dos que lhe são próximos as forma que bem lhe entendesse. As escravas tornavam-se objeto sexual nas suas mãos, gerando filhos que ele não reconhecia e que viravam escravos também; daí Caio Prado afirmar que "a mulher escrava (...) não ultrapassará o nível primário e puramente animal do contacto sexual, não se aproximando senão muito remotamente da esfera propriamente humana do amor, em que o ato sexual se envolve de todo um complexo de emoções e sentimentos" (PRADO JR., 1971, Pag. 343).
 

Darcy Ribeiro
Raramente surgem relações fixas entre brancos e negras, e até entre os primeiros e as índias. A miscigenação subordina-se, então, ao poder de mando e desmando do colono, ao sentimento de propriedade e posse que ele estabelece em relação aos índios e negros. Usufrui a hora que quiser de suas escravas e das índias, não se envolve com elas mais do que alguns momentos que lhe dão prazer. Não há aqui a afetividade presente na obra de Gilberto Freyre, mas apenas um sentimento de pertencer e não amar. Daí também vem a definição de Darcy Ribeiro: os primeiros brasileiros o eram por carência, visto que nem seu pai (o branco) nem sua mãe (índia ou negra) o reconheciam como fruto de um amor, de uma afetividade, enfim de uma relação duradoura. O povo brasileiro tem na sua origem a efemeridade e a ausência de sentimentos amorosos fortes.

Em alguns casos, os senhores chegavam a adotar escravas ou índias como suas amantes habituais, mas que não restringiam a escravidão destas e a prática sexual regada a violência e obrigação de atender à vontade do senhor. Vejamos o comentário de Vainfas a respeito dessas relações sexuais entre as raças citadas:

"Misoginia e racismo, eis o tempero das relações pluriétnicas da colonização lusitana no Brasil, malgrado o empenho de Gilberto Freyre em adocicá-las. A tais enlaces sexuais não faltaram ardor e mesmo afeto(...). Mas ao padrão pluriétnico da sexualidade colonial, fiel às hierarquias, não faltaram também a humilhação das mulheres, os estigmas raciais de todo tipo(...). Não faltou, enfim, a violência física, combinada à exploração da miséria, traços essenciais do colonialismo escravocrata e das práticas de poder no Antigo Regime". (in DIVERSOS, 1997, Pag. 241)

Como se percebe, não se nega o afeto, mas também não se pode dizer que as relações sexuais entre senhores e escravas/índias ocorriam somente em função deste. Outros motivos, como o ímpeto sexual, a ausência de regras morais (mais uma vez, evocamos a opinião de Sérgio Buarque: este é o caráter do aventureiro, que não se prende a nada, nem mesmo a um código de ética e honra, para atingir seu sonho de riqueza) no colono, a imagem de que negras e índias eram, por sua inferioridade racial e humana, objetos, portanto devendo ser subordinadas aos colonos e a falta de mulheres brancas, ao lado da posse que tinham dessas mulheres, são as maiores razões para explicar a configuração do sexualismo colonial.

Essa constante sexualidade povoava a colônia, para irritação dos religiosos, que tentavam de tudo para impedir sua propagação. No entanto, tudo propiciava tal impulso sexual: desde a Casa-Grande até a Igreja, qualquer local poderia abrigar atos sexuais. Vainfas define a casa senhorial como um espaço no qual todos os compartimentos estão ligados, existindo apenas uma intimidade pessoal mínima. Nesse ambiente, a coexistência direta da família colonial com seus agregados e escravos era inevitável, bem como o saber dos atos de cada um. Assim, com tanta proximidade, aliada ao erotismo das negras (cujo balançar dos seios nus, juntamente com as saias que valorizavam seus quadris e pernas), estabeleciam-se relações sexuais, as quais ocorriam na cara de todos que habitassem a Casa-Grande. Isso era hábito, nem sendo mais contestado por parte de ninguém, nem da família do senhor. Mais uma vez, salienta-se o caráter paternalista: a vontade senhorial é incontestável. Nem mesmo sua família pode contrariar seus atos, impedi-lo de ter quantas amantes quisesse ou abusar das escravas. Tudo está a seu alcance e direito; como foi dito no tópico "O homem cordial" , é ele o chefe local (há de se lembrar que os engenhos eram unidades produtivas isoladas e praticamente auto-suficientes, o que ampliava o poder do senhor dentro de suas terras) e o detentor do poder econômico, familiar e de propriedade. E não exerce somente sua força contra escravos ou índios: sua família também pode ser vítima. Sérgio Buarque afirma que "o pátrio poder é virtualmente ilimitado e poucos freios existem para sua tirania" (BUARQUE, 1995, Pag. 82). Conta também o caso de um senhor de engenho que, suspeitando de um possível adultério da nora, condena-a à morte em júri familiar e executa tal sentença, mesmo a intervenção da justiça local (para impedir o desfecho do processo ou prender o autor do homicídio).

A família colonial, mesmo com o abuso de poder e autoridade do chefe patriarcal, mantém como uma unidade coesa e interligada entre si, exatamente em função da centralização de sua vida na pessoa do senhor de engenho. O Paternalismo implica, então, na manutenção familiar em torno de um pólo central, o qual exerce os máximos direitos sobre a mesma. No entanto, ao ser complacente com o permanente incesto senhorial e, o que é pior, deixá-lo penetrar na Casa-Grande, ela não se configurará como uma base sólida e estável. Pelo contrário: "a casa-grande (...) dá lugar à promiscuidade com escravos, as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas, a indisciplina que nela reina, mal disfarçada por uma hipócrita submissão, puramente formal, ao pai e chefe, tudo isto faz a casa-grande ser antes uma escola de vício e desregramento, apanhando a criança desde o berço, que de formação moral" (PRADO JR. 1971, Pag. 351).
 
Com isso, a família colonial torna-se sinônimo de campo aberto e amplo para desenfreada sexualidade, em vez de configurar-se como instituição fornecedora de razões morais para a existência humana em sociedade, bem como limites para a ação sexual.

Em uma sociedade tão promíscua*, a religiosidade também não poderia ser tão formal. É a negação dessa formalidade que foi apresentada com detalhes no tópico anterior. O importante a se ressaltar aqui é que o senhorio, tão apegado à sua família quanto aos inúmeros adultérios que praticava com suas escravas, não aceitava a interferência clerical em sua vida. Ou seja: todo religioso que criticasse os hábitos de um senhor ou propusesse casamento ou oficialização de sua relação com negras ou índias, era expulso das terras, ofendido e até perseguido. O senhor não aceitava ordens, nem mesmo dos representantes de Deus. Quem decidia sobre sua vida e atuação era ele, e mais ninguém. Novamente o Paternalismo se configura aqui: o exclusivismo senhorial a respeito das coisas que envolvem suas terras, quem nelas habita e seus costumes. Os padres geralmente não apoiavam o concubinato praticado pela elite senhorial, mas não conseguiram combatê-lo.


O padre como defensor dos índios

A negação às repreensões eclesiásticas não representavam, no entanto, rompimento com a religião. Muitos senhores eram casados de acordo com a moral católica; cada engenho possuía uma capela, onde se celebravam missas e festividades; o senhorio costumava freqüentar as procissões religiosas das vilas mais próximas, entre outros costumes. O que ocorria era uma adaptação dos princípios da igreja ao e da religião à vida do engenho e do senhorio. Em despeito de tudo que fazia em sua vida sexual, o senhor continuava a ir à Igreja e praticar sua religião. Define-se, então, uma moral mais branda, subordinada aos mandos patriarcalistas existentes nos engenhos: nem a palavra dos religiosos conseguia alterar o comportamento senhorial, e este navega entre o pecado (sexo, adultério, promiscuidade, erotismo constante) e a salvação (ir à Igreja e não se confessar, não ter consciência dos pecados etc.).

O que podemos concluir neste tópico é que a sexualidade desenfreada, a falta de limites, a fraqueza da família como instituição moral e cívica, a promiscuidade e até mesmo a cordialidade, entre outras características, são decorrentes de uma sociedade estruturada nas bases de um Paternalismo, vale dizer, uma excessiva centralização de poderes, decisões e arbítrios nas mãos de um senhor, que assim tornava-se o grande chefe de seu engenho, o qual, isolado, determinava sua esfera de poder e sua atuação.
 


DIFERENÇAS NA VISÃO DA RELAÇÃO ENTRE SENHORES E ESCRAVOS

Caio Prado Jr.
A visão citada proposta no tópico "O homem cordial", (decorrente de análise da obra de Sérgio Buarque) de que as relações entre senhores e escravos eram regidas por princípios de confiança aplicados na produção mercantil do açúcar, é negada em muitos autores. Procuraremos, aqui, apresentar outros pontos de vista a respeito de tal tema.

Caio Prado Júnior considera o escravo como um ser subordinado ao senhor de engenho, visto que era sua propriedade, principal riqueza e fonte produtora. Estava, pois, totalmente ligado ao senhorio, principalmente no que se denomina relações produtivas. Não nega, pois, a miscigenação e a grande influência negra na vida sexual e familiar da Casa-Grande, que desloca-se mais para o lado de Buarque, mas considera que era predominante o papel da escravidão. Para isso, cita a diferenciação proposta por Gilberto Freyre entre negro e escravo.

* O objetivo deste texto é tratar das relações paternalistas coloniais. Por isso a maior abordagem deste trabalho à estrutura dos engenhos, nos quais ficava mais clara a existência dessas relações. No entanto, pelo menos no que se refere à sexualidade, ao erotismo, à falta de controle dos impulsos do prazer, estes eram hábitos erradicados por toda a sociedade colonial, desde os senhores até o clero. Daí um não-detalhamento mais amplo da promiscuidade no mundo colonial brasileiro como um todo.

O primeiro é aquele íntimo do senhorio, freqüentador da Casa-Grande, que realmente possui relações mais próximas da afetividade, da cordialidade. O segundo seria o predominante na colônia, em virtude do que se propunha com a produção de açúcar: gerar uma atividade colonizadora no Brasil e que, ao mesmo tempo, rendesse lucros à metrópole. Para Caio Prado, este é o sentido da colonização brasileira, definindo nestas terras a chamada colônia de exploração. Nesta, o colono português seria senhor e portador de nobreza; outros trabalhariam para ele. E estes serão os negros africanos, trazidos para cá principalmente em função do lucro que seu tráfico gerava a Portugal. O escravo negro, portanto, é o motor da produção do açúcar. Daí a rigidez em suas relações com o senhorio. Se ele não trabalha o suficiente, a produção decresce e em conseqüência o lucro de seu senhor. O castigo que sofre vem em decorrência de sua pouca dedicação ao trabalho e ao desrespeito ao senhor.
Assim, Caio Prado enxerga as relações entre escravos e senhores sob uma perspectiva mais econômica e conectada à produção. A não-realização plena desta última, reduzindo os lucros do engenho com o açúcar, acarreta todos os tormentos por que passa o escravo negro. Há em reduzida escala as relações afetivas apresentadas por Sérgio Buarque e Gilberto Freyre; mas "os mais fortes laços que lhes mantêm [brancos e negros] a integridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos, os resultantes direta e indiretamente das relações de trabalho e produção: em particular, a subordinação do escravo ou do semi-escravo ao seu senhor" (PRADO JR, 1971, Pag. 341) . Para ele, "a escravidão, nas duas funções que exercerá na sociedade colonial, fator trabalho e fator sexual, não determinará senão relações elementares e muito simples" (PRADO JR., 1971, Pag. 342).

O castigo em praça pública servia também como
exemplo para o restante da escravaria

Dessa forma, Prado nega a existência de uma cordialidade predominante entre negros e brancos no engenho. Esta poderia existir em maior proporção dentro da Casa-Grande, no que se refere à criação das crianças. Aqui, utiliza a expressão de Freyre, a "figura boa da ama negra", que cerca de bondade e ternura o berço das crianças brasileiras. Ou seja, introduz um certo sentimentalismo. Mas do lado de fora, nos canaviais, a realidade era extremamente outra: violenta, punitiva, subordinada a uma lógica produtiva. "Se o negro", conclui, "traz algo de positivo, isto se anulou na maior parte dos casos, deturpou-se em tudo o mais. O escravo enche o cenário, e permitiu ao negro que apontasse [suas contribuições culturais] em raras oportunidades" (PRADO JR., 1971, Pag. 343) . Essa visão economicista da história nacional é também afirmada por Antônio Cândido: "O aparecimento de Formação do Brasil Contemporâneo(...) deu realce à vida econômica e chamou a atenção para as formas oprimidas do trabalho de um ângulo estritamente econômico. Ao mesmo tempo desmistificava a aura que envolvia certos conceitos como ‘patriarcado’ ou ‘elite rural’, apresentando uma visão ao mesmo tempo objetiva e radical(...) (CANDIDO, 1983, Pag. 32).

Já o advogado e historiador Raymundo Faoro segue uma linha mais relacionada à produtividade e economia colonial em seu livro Os Donos do Poder. Ao analisar a organização econômica da colônia brasileira, afirma que o açúcar destaca-se como o produto mais importante e regulador dos outros cultivos agrícolas coloniais. E não se abstém de dizer que o negro é a base dessa expansão econômica. Faoro não realiza um estudo que aborda as influências raciais ou as relações entre senhorio e escravos: propõe-se a mostrar como funcionava a economia e o papel de cada uma dessas categorias existentes nos engenhos no sistema colonial. Mais uma vez, o colono é visto como aquele que promove "a devastação mercantil e o desejo de retornar ao reino, para exibir as glórias da opulência" (FAORO, 1976, vol.1, Pag. 212) . E para isso não haverá limites para sua atuação. O escravo é, então, explorado sob uma perspectiva econômica e somente esta: ele deve gerar lucros e produzir o máximo que puder. Fica clara tal visão nas palavras de Faoro, quando diz que os espaços destinados à lavoura de subsistência dos escravos reduziam-se à medida que aumentava a procura do açúcar nos mercados europeus. O espaço é regulado de acordo com as necessidades econômicas do momento, tendo como a menos fundamental preocupação a garantia de um mínimo de condições de sobrevivência ao negro. Portanto, constituem-se certos princípios ligados à lucratividade e à satisfação econômica nas relações do senhorio com os escravos. O mesmo diz Brandônio nos Diálogos das Grandezas do Brasil: a lavoura de subsistência colonial e escrava contrai-se quando o açúcar requer maior espaço para expansão. Definitivamente, não era interesse o bem-estar do escravo, mas apenas um mínimo para que vivessem e pudessem trabalhar na lavoura.
 


DIFERENCIAÇÃO, CONCLUSÕES E IMPORTÂNCIA DE RAÍZES DO BRASIL

As visões abordadas por Caio Prado e Faoro, que podemos considerar mais técnicas por considerar princípios econômicos nas relações coloniais, não aparecem na obra de Sérgio Buarque. Este propõe-se a realizar um estudo mais histórico dessas relações e de como elas se interligam com o caráter do colonizador, formado por uma constante miscigenação de raças (processo que toma corpo em Portugal antes mesmo da colonização brasileira), seu afastamento em relação ao resto da Europa e como essas características são implantadas no Brasil, considerando a formação do espaço produtivo (o engenho e seu isolamento). Tudo isso ligado constituiria, conforme já foi explicado no decorrer do texto, relações mais próximas do afeto, da necessidade da amizade, do que princípios exclusivamente econômicos. E aqui reside o mérito de Sérgio Buarque e de Raízes do Brasil: fugir de uma visão limitada e propor uma nova análise do que era o relacionamento entre as partes constituintes da unidade produtora colonial. Caio Prado e Faoro prendem-se a uma perspectiva mais ligada à economia; Buarque leva-nos a pensar em outras possibilidades e desmistificar a visão de que a colônia funcionava estratificamente: os senhores mandam, os escravos produzem e se subordinam. Não é somente isso: as relações sexuais (que Caio Prado chega a considerar, embora as desmereça como algo feito primitivamente, apenas para atender as necessidade sexuais do colono sem constituir afeto e amor entre as partes) e a intensa proximidade entre negros e brancos, decorrente do meio em que habitam, liga-os afetivamente e contribui para a formação do brasileiro. O Homem Cordial e a idéia de Gilberto Freyre de que "todo brasileiro (...) têm a influência direta, ou vaga e remota, do africano" (FREYRE, 1933, Pag. 313) são posições que devem ser consideradas e analisadas (como o fizeram Vainfas e Darcy, entre outros), e não apenas resumir o estudo colonial a uma visão extremamente econômica.
 
A interação de todas essas visões contribuem para definirmos a sociedade paternalista que é aqui formada. O Paternalismo que se configura nas terras brasileiras, assim, é determinado pelo isolamento do engenho como unidade produtiva e das ligações entre seus membros. O senhor de engenho é o homem-forte do ambiente: tudo era feito de acordo com sua vontade e esta não sofria réplica. Tal autoridade aplicava-se aos familiares, escravos e agregados do engenho, sendo todos estes seus subordinados. Nisso constituía-se um grupo de pessoas fechado em torno desse senhor, todas elas dependentes do afeto e da proteção dele, bem como ele também, para exercer seu mando e sentir-se respeitado, precisa da proximidade e do afeto dos que lhe cercam. 

A família colonial fornece e constrói a idéia mais normal do poder, respeitabilidade, obediência e coesão entre seus membros; um agrupamento no qual não ocorre disputas pela autoridade. A intensa ligação emocional, aproximada, afetiva, enfim sentimental, é a constituinte das relações paternalistas do Brasil Colônia, algumas das quais permanecem vivas até hoje (já abordadas no item relativo ao Homem Cordial), como prova da herança rural que penetrou no meio urbano brasileiro.

Não somente isso, o Paternalismo determinou a existência da família colonial como uma estrutura sem laços fortes de controle sobre os atos, muitas vezes pecaminosos, de seus membros. No entanto, o mesmo regime de relações manteve-a unida sempre, em virtude de seu poder centralizador. Isso também pode ser enxergado na atualidade: nas famílias brasileiras, geralmente é o pai o chefe da casa, a quem todos devem respeito, atenção e cuja palavra raramente é contestada.

Falando agora de Sérgio Buarque de Holanda, maior guia desta monografia, podemos afirmar que um de seus maiores méritos (e isso nele reconhecem diversos autores) foi propor uma renovação na Historiografia brasileira, analisando a formação da nossa sociedade em suas características como um todo, e não prendendo-se a preconceitos de classe e raça vistos em autores anteriores à década de 1930 (tais como Oliveira Viana, Sílvio Romero e Alberto Torres) no campo dessa análise social.

Uma casa de engenho, ou Casa-Grande
E daí vem a importância marcante de Raízes do Brasil. A metáfora de seu nome já propõe uma renovação nos estudos do Brasil (e, no caso da obra, da colônia): remete à mostragem de nossas origens históricas, sociais e culturais para concluir a respeito de como se configura nossa sociedade hoje. O autor abandona as teorias positivistas e evolucionistas características do século XIX e utilizadas para definir nosso subdesenvolvimento e falta de identidade nacional desde os tempos coloniais e mergulha em profunda análise das influências recebidas por meio da colonização portuguesa no país, determinantes para a compreensão nacional. Em Raízes, o histórico é a chave que abre as portas para redescobrir e entender o Brasil. Dessa forma, é um marco dos estudos sociológicos brasileiros, ao sugerir novos métodos analíticos e formas de se enxergar a evolução social de nossa nação ao longo de sua História, e não com teorias pregadoras de diferenciação raciais.

Bibliografia

BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio – Raízes do Brasil. São Paulo, Cia. Das Letras, 1995

CÂNDIDO, Antônio (org.) - Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1997

CÂNDIDO, Antônio – "A Revolução de 1930 e a cultura", O processo de 30 e suas conseqüências. Porto Alegre, EDUS, 1983

CASTRO FARIA, Sheila – A colônia em movimento – fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1998

DIVERSOS, in História da Vida Privada na Brasil. São Paulo, Cia. Das Letras,1997

FAORO, Raymundo – Os Donos do Poder. Porto Alegre, Editora Globo, Volume 1, 1976

FREYRE, Gilberto – Casa Grande e Senzala. São Paulo, Círculo do Livro S.A, 1933

GONSALVES DE MELLO, José Antônio (org.) – Diálogo das Grandezas do Brasil. Recife, Imprensa Universitária da Universidade Federal de Pernambuco, 1966

PRADO JÚNIOR, Caio – Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo, Editora Brasiliense, 1971

MOTA, Carlos Guilherme – Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974). São Paulo, Editora Ática, 1977

RIBEIRO, Darcy – O Povo Brasileiro (Edição integral). São Paulo, Círculo do Livro S.A, 1995

SCHARTZ, Stuart – Segredos internos – engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo, Cia. Das Letras, 1985.

WEHLING, Arno e Maria José – Formação do Brasil Colonial. São Paulo, Editora Nova Fronteira, 1994