![]() www.klepsidra.net |
Carlos Ignacio Pinto
|
|
Com a morte do
Governador do Estado de São
Paulo, no último mês, podemos perceber como os fatos,
quando bem estruturados e
trabalhados, conseguem sensibilizar as pessoas – opinião
pública – e transformar
homens em “símbolos” e exemplos de toda uma nação.
Pode-se observar fatos
semelhantes não somente no espectro nacional, mas também
mundial, como o caso
de Lady Di.
O que quero ressaltar
aqui não é o
julgamento da pessoa de Mário Covas, muito pelo
contrário, é o que menos
pretendo comentar e o que menos me importa. A História em toda
sua plenitude
nunca fugiu à construção e
manipulação de determinados segmentos da sociedade.
Quer fosse para a consagração e
predestinação romanas, quer fosse para a
transformação da Idade Média em Idade das Trevas.
Com isto, já podemos começar
a imaginar como historicamente podemos, de certa forma, criar
juízo de valores
anacrônicos e de completa distorção dos fatos. |
![]() Lady Di |
Falar de toda (como se
isto fosse
possível!) ou parte da construção humana, de seu
“progresso”, de seus
exorcismos e das sociedades que a formam, requer, de certa forma, por
parte do
historiador, um meticuloso cuidado para que seus conceitos de valores
não
permitam uma pesquisa em que o produto final de sua análise
já esteja
pré-determinado, pois, sendo assim, o historiador pode estar
sujeito a ser
tendencioso com suas fontes e alvos de pesquisa. Preste-se
atenção: não tenho
uma retomada aos valores positivistas de pesquisa e
produção histórica, pois
acredito ser impossível que o pesquisador não se envolva
de várias formas com
sua pesquisa, inclusive com preposição de seus valores,
porém, que este não
seja determinante.
Não
acredito em História despretensiosa, até mesmo por
não ser ingênuo a tal ponto.
A História é ciência de fruto da
criação humana; análise do homem e suas
ações
no decorrer do tempo pelo próprio homem, e por isso carregada de
funções.
Porém, por muito, observa-se que a História que
concebemos, quase sempre, fica
reservada a determinados personagens e fatos, como se somente “poucas”
sociedades estivessem no curso do decorrer histórico de nossa
espécie. Ao
Ocidente falta a humildade de muitos em reconhecer o fruto das
produções
históricas orientais e estudá-las pelo menos com o mesmo
“valor” que incubem à
História ocidental, que entenda-se por Europa.
Em minha formação ginasial a única coisa que
posso me lembrar vagamente de ter estudado sobre a História de
outros povos que
não fossem ocidentais, foi a formação de algumas
antigas sociedades africanas e
do Oriente Médio, principalmente com o advento do nascimento do
Cristianismo.
No demais, estávamos fadados a uma enxurrada de História
Ocidental européia
que, de certa forma, ignorava até mesmo os povos
pré-colombianos que habitavam
a América.
O
que me felicita é que na atualidade já existem
vários programas didáticos que
fornecem aos níveis escolares de formação dados e
um pouco da História de
outros povos que não aqueles aos quais, em razão da
História a que estamos
submetidos à compreensão atual, devemos a
“evolução” e progresso dos povos.
Talvez, por isso a História possa parecer tão chata aos
alunos do ginasial: A
História sempre sobre um mesmo ponto de vista; de um progresso
ininterrupto e
contínuo, com os mesmos “grandes” personagens e uma
atuação fatídica dos povos.
Lógico que em oposição à ação
da sociedade francesa durante a revolução
burguesa libertadora e pioneira nos Direitos Humanos.
A
História como fruto da produção humana deve sempre
estar sendo repensada, nem
quase sempre incumbida à ação de poucos (a
não ser em casos específicos como o
dos cientistas), porém entendida como produção de
sociedades que desta História
fazem parte.
O que irá se escrever sobre o tempo ao qual vivemos?
É muito difícil termos a
noção exata daquilo que é contemporâneo a
nós e por isso a História que nos é
transmitida é muito importante; a concepção do
presente é impossível sem o
mínimo do conhecimento do que já se passou; é
condição imediata para o
homem poder atuar dentro do meio no
qual vive. Não se atua sobre o que não se conhece, a
não ser de forma
involuntária e sem pretensão.
Por isso torço para que
a História do ano de 2001 não se torne em “O ano da Morte
do senhor exemplo
Mário Covas”, pois, assim sendo, estaríamos ignorando a
realidade de nossa
sociedade; a realidade dos povos que hoje travam uma luta nem
tão surda contra
um sistema que os oprime e transforma homens em heróis com a
mesma facilidade
que deploram a imagem dos segmentos sociais que buscam uma
História muito
diferente daquela que lhes vem sendo perpetuada até os dias de
hoje.