A Máscara e o Espelho

Existe a Máscara e existe o Espelho. Como no discurso de Próspero na peça "A Tempestade" de Willian Shakespeare.

O historiador enverga sua máscara como cientista humano, educador, pesquisador, e membro atuante no debate político e intelectual. Suas filiações, suas origens, linhas, teias e relações. A partir de certo momento tais coisas estão tão impregnadas que já não se questiona, deixa-se o método ou estilo, passa-se a ser somente instinto. Então surge o espelho.

Talvez seja o espelho a mais cruel peça já criada pela criatura humana, é nele que nos enxergamos, e isto basta para definir sua função. Com certa freqüência temos que enfrentar o espelho, pois nada pode ser feito apenas por instinto. A imagem nem sempre é prazerosa.

A história e o próprio historiador são assim: de tempos em tempos, pelo menos, é necessário retirar a máscara, livrar o espelho de seu véu e olhar diretamente o reflexo. É o preço que se paga pelo que se propõe.

Não existe a hora exata, não existe o tempo exato, a qualquer momento tal tarefa pode e deve ser invocada. Acreditamos que era a hora de o fazermos na Klepsidra. Apesar da falibilidade, da transitoriedade, e até mesmo da falsidade que uma data representa, caímos na tentação de marcar a passagem de um ano da revista com tal embate. Cada qual com seu, ou seus espelhos.

História e arte, ciência e sociedade, história e educação, tempo e história, sociedade e tempo, homem e produção, historiografia e momento histórico, ciência e história, educação e sociedade, tempo e ciência.

Quisemos em outro momento abordarmos temas que se encontrassem, que se distribuíssem de forma radial, no entanto com um encontro marcado em algum ponto. Idéia abandonada. Mais tarde, a proposta que aqui expomos. Creio que, acidentalmente, retomamos a proposta original: unidade na diversidade. Apesar de diversos,  todos os trabalhos são resultados de espelhos.

A tarefa, ou a proposta que aqui demos corpo, não é fácil, exige a mais profunda das coragens. Não é a do combate, a da força ou da inteligência, nem tampouco da habilidade ou lucidez, o mais difícil sempre é ser transparente. Expor-se em um tempo onde as pessoas se escondem requer bastante coragem, ou imprudência. Paciência, é a paga, e diz o ditado popular que Deus protege os lerdos. Crendo ou não que seja verdade, contamos com um acréscimo de compreensão e tolerância por parte dos leitores.

Não é uma edição das mais leves. Os temas abordados talvez estejam muito distante de alguns, entretanto era uma necessidade nossa.
Deixo de tratar sobre assuntos mais rotineiros como o desenvolvimento da Klepsidra, os intercâmbios, as parcerias, os projetos. Estes ficam para adiante, haverá tempo para eles.

Que aqui novamente se reitere os votos de boa sorte a todos, e mais do que isso, que o embate pessoal de cada qual com seu espelho seja justo, sincero e produtivo.

Ubi dubium ibi libertas
(onde há dúvida há liberdade)
Ditado Latino
 

Rodrigo da Silva