2 – Preâmbulo da Península Arábica:
Antes de Maomé operar a unificação da península Arábica através do Islamismo, como veremos ao longo deste texto, a região era extremamente fragmentada e nela coexistiam diversos reinos e povos autônomos. Neste item de meu trabalho, farei um pequeno resumo de tais povos, porém incluirei também nas descrições alguns povos que não estavam exatamente localizados na península, mas que tiveram, ao longo da História anterior ao Islamismo, algum contato com ela.
Antes, porém, de iniciar os relatos, é importante acentuar que toda a região é de clima árido ou semi-árido, existe um grande deserto no norte da península, o Nufud, que constituiu para a região uma espécie de muralha natural, impedindo sua anexação por qualquer dos grandes Impérios antigos, nem os Mesopotâmicos, nem os Egípcios, nem os Persas, nem Alexandre, o Grande, nem os Reinos Helenísticos, nem mesmo os Romanos conseguiram colocar a região sob seu domínio. Talvez Alexandre tivesse conseguido operar a conquista da região, pois, segundo consta, quando morreu, na Babilônia, estaria preparando uma expedição que teria justamente esse objetivo. Dessa forma, julgando-se pelo retrospecto do conquistador, pode-se concluir que a Arábia só escapou de fazer parte do enorme e efêmero Império de Alexandre, devido à morte prematura do monarca.
Especulações históricas à parte, é interessante que se fale sobre alguns aspectos da região na época, como por exemplo a fauna e a flora. Esta última, como se pode imaginar, era escassa, mas mesmo assim havia além de cactos, palmeiras (nos oásis), tamareiras (uma das principais fontes de alimentos da região), bananeiras, figueiras, abricoteiras...
Quanto à fauna, é interessante notar que além dos camelos, conhecidos e lembrados por todos quando se menciona a região, existia uma grande variedade de animais, inclusive leões e panteras, hoje extintos na península. Muitas aves de rapina, como abutres e urubus também compõem a fauna Árabe, gatos e burros eram muito populares na região e, além de todos esses animais, não podemos esquecer dos cavalos, visto que os cavalos árabes eram (ou são) os melhores cavalos do mundo. Estes animais foram introduzidos na península pelos Hititas, no primeiro milênio antes de Cristo, lá eles ficaram isolados dos demais cavalos da Ásia e, dessa forma, se converteram numa espécie particular do animal, uma espécie refinada, de físico resistente e porte elegante, muito apreciados nas diversas regiões.
Mas falemos sobre os diversos povos que habitavam a região antes do Islamismo os unificar.
2.1 – O Reino de Sabá:
O Reino de Sabá tem suas origens no século VIII a.C., no atual Iêmen. Inicialmente, o Reino constituía-se numa Teocracia, cuja capital era a cidade de Sirwah.
No decorrer de seiscentos anos, os governantes do país expandiram seus domínios para toda a costa do Mar Vermelho, boa parte do sul da península e algumas regiões ao norte. Nesses anos, a capital muda duas vezes, primeiro para Marib e depois para Zafar.
As origens desse Estado remontam à organização de uma etnia, os Sabeus, em torno de seu Rei-Deus, porém, em 115 a.C., por motivos desconhecidos, os Himiaritas (povo que estava sob o jugo dos Sabeus) passam a governar o Reino e, no início do século I a.C., o monarca perde o caráter divino.
Talvez o mais notável feito dos Sabeus tenha sido a construção de uma gigantesca represa (uma das maiores, senão a maior de toda a Antiguidade), no século VI a.C..
Os Himiaritas passaram a governar o país, mas com a conversão de seus vizinhos de costa (do outro lado da costa do Mar Vermelho), os Abissínios (Etíopes), ao Cristianismo, no século IV d.C., passaram a enfrentar invasões constantes que visavam converter o Reino de Sabá ao Cristianismo. Em 340 d.C., os Etíopes conquistaram o Reino e mantiveram-se no poder até 378 d.C., quando numa grande revolta, os Himiaritas retomaram o poder.
O segundo período Himiarita foi marcado por dois fatores: a nova religião, visto que durante os 37 anos de domínio dos Etíopes, os Himiaritas não se converteram ao Cristianismo, como queriam os invasores, mas sim, ao Judaísmo; e o descaso com o patrimônio público. Devido a esse descaso, tudo foi se degradando, desde as construções, até as finanças e o exército. Até que, em 530 d.C., os Etíopes conseguiram, numa nova invasão, retomar o controle sobre o Reino.
Já era tarde, o estado de destruição no qual se encontravam as construções públicas era tal, que o monarca Etíope empossado pelos conquistadores nada pode fazer e, por volta de 540 d.C., a grande represa construída na Antiguidade rompeu alagando boa parte do território e matando muitas pessoas.
O rompimento da represa fez com que a seca caísse sobre a região e, dessa forma, muitos foram os que abandonaram o país e rumaram para o norte. A escassez demográfica decorrente desse êxodo propiciou, em 575 d.C., a invasão, a pedido dos Himiaritas, da região pela Pérsia. Esta reempossa os Himiaritas no governo do país, e estes mantém sua soberania, mas com a condição de que sua região se torna-se uma Satrápia Persa (território semi-autônomo existente no Império Persa desde seus primórdios, que se destinava a, além de pagar impostos ao governo central, vigiar a região e suas proximidades, informando quaisquer alterações ao Grande-Rei Persa.
Em 632 d.C., o Reino de Sabá foi incorporado ao Islã, com sua conversão e anexação pelas tropas de Maomé.
2.2 – Reino Mineano:
Reino organizado da mesma forma que o Reino de Sabá, ou seja, com um grupo étnico, os Mineanos, se organizando numa Teocracia, cuja capital era Qarnaw (atual Ma’in).
O Reino se estabeleceu também por volta do século VIII a.C., ao norte do Reino de Sabá. Por serem vizinhos, os dois Estados entraram em conflito várias vezes, até que, no século I a.C., pouco depois da ascensão dos Himiaritas no Reino vizinho, o Reino Mineano foi conquistado pelo Reino de Sabá.
2.3 – Reino de Qataban e Reino de Hadramaut:
Reinos vizinhos, estabelecidos a leste do Reino de Sabá, tinham importância comercial indiscutível no tocante ao comércio Índico (eram os entrepostos entre as mercadorias da Índia e as do Mar Vermelho), além de, a exemplo do Reino de Sabá, serem produtoras de incenso e ouro.
O Reino de Qataban se estabeleceu por volta de 600 a.C., tendo como capital Tamma (atual Kuhlan), e perdurou até mais ou menos 50 a.C.. Já o Reino de Hadramaut, se estabeleceu por volta de 450 a.C., tendo como capital Shabwah (atual Sabota) e perdurou até o início do século II d.C..
Ao contrário do Reino Mineano, que foi anexado pelo Reino de Sabá, estes Reino permaneceram autônomos. O que aconteceu foi que, devido à importância que as diversas regiões desses Reinos adquiriram individualmente, devido ao comércio, os chefes regionais passaram a se julgar poderosos demais para obedecerem a uma autoridade central, dessa forma, foi ocorrendo uma gradual descentralização dessas regiões até que nos períodos referidos, os governantes das capitais dos respectivos Reinos já não mais se consideravam, sequer nominalmente, soberanos de todo o país. Dessa forma, ficaram extintos os Reinos.
Essas regiões continuaram a exercer políticas independentes até sua anexação pelo Islã, em 632 d.C..
2.4 – Reino de Petra:
Este Reino se localizava numa região que não pertence à península Arábica, mas sua história é interessante ao estudo, pois depois da anexação ao Islã, a região tornou-se, junto com a Arábia e com as regiões dos demais Reinos que citarei, o centro do Califado, especialmente no período Omíada.
Bem, por volta de 550 a.C., várias tribos nômades do nordeste da península Arábica se reuniram com o objetivo de proteção e auxílio mútuos, fundaram então uma cidade, Petra (em hebraico, Sela’). Apesar de não terem conseguido conquistar muito espaço, seu Reino, semelhante a uma cidade-Estado, prosperou. Tanto que ficou livre do domínio de Alexandre, o Grande.
O Reino de Petra, constituído por tribos que se identificavam como Nabateus, auxiliou os Romanos na destruição da Judéia e, em 106 d.C., Trajano transformou o Reino em província Romana. Depois da queda de Roma, Petra nunca mais voltou a ser um Reino autônomo, tendo pertencido ao Império Bizantino e depois ao Persa, até ser anexada ao Islã.
2.5 – Império de Palmyra ou Tadmor:
Tadmor era uma cidade a nordeste de Damasco, sua origem remonta a tempos já esquecidos, mas ela só adquire importância quando do domínio Romano, isso porque ela é a o principal entreposto entre o Oriente (Pérsia, Índia, China...) e Roma. Tal importância comercial lhe valeu o status de colônia Romana.
O nome Palmyra advém, inclusive, dos Romanos, pois estes chamava a cidade assim por ela estas localizada num oásis, onde existem muitas palmeiras, em latim, palmyra.
Em 267 d.C., Odenato, Rei de Tadmor e seu filho, foram acusados de traição a Roma e, sendo assim, executados. Zenóbia (al-Zabba, ou Zaynab), a Rainha, assumiu o governo da cidade e, em retaliação à atitude Imperial, lançou seus exércitos contra as possessões Romanas. Em poucos meses, Zenóbia conquistou o Oriente Médio, a Ásia Menor, o Egito e chegou às portas de Bizâncio (que ainda não havia sido transformada em Constantinopla).
Aureliano, então Imperador Romano, investiu contra a Rainha afim de retomar-lhe as conquistas e, entre 272 e 273, não só retomou tudo que Zenóbia havia lhe tirado, como também invadiu Tadmor, matou a Rainha e destruiu a cidade como exemplo.
Apesar de muito efêmero, o Império de Tadmor foi grande e, por si só já justificaria sua menção aqui, mas, além de tudo isso, a região, assim como Petra e outras que citarei, foi uma das principais componentes do núcleo do Império Islâmico, especialmente no Califado Omíada.
Depois de destruída, Tadmor não foi totalmente abandonada e, mais tarde acabou reconstruída, mas perdeu sua importância comercial.
2.6 – Reino dos Gassânidas:
O Reino dos Gassânidas foi fundado por volta de 400 d.C., por fugitivos do Reino de Sabá, que havia sido conquistado pelos Etíopes. No princípio, esses refugiados viviam em acampamentos itinerantes a sudeste de Damasco, porém, com o tempo, acabaram fundando duas cidades, suas duas capitais: al-Yiabiyah e Jilliq.
A região se tornou um porto seguro para os imigrantes do Reino de Sabá, tanto que foi para lá que estes emigraram quando a grande represa rompeu.
Aretas II foi o maior de todos os monarcas Gassânidas, tendo inclusive, lutado em favor de Justiniano. Seu filho, al-Mundhir, foi preso pelo Império Bizantino por ter incendiado, em 580 d.C., a cidade de Hira, capital dos Lácmidas. Em retaliação pela prisão do pai, os filhos de al-Mundhir devastaram o território do Império Bizantino, mas também acabaram derrotados e presos.
As conquistas que fizeram passaram para as mãos dos Persas e o Reino perdeu importância, se bem que o último soberano, Jaballah ibn-al Ayham, ofereceu muita resistência ao Islã e só caiu diante dos Árabes na Batalha de Yarmuk, em 636, batalha na qual contou com auxílio Bizantino.
2.7 – Reino de Hira:
Assim como o Reino de Petra, o de Hira também se constituía apenas de uma cidade-Estado. Na verdade, esta cidade foi fundada a partir de um acampamento da tribo Tanukh (que pertencia à etnia Lácmida), que, desde 275 d.C., havia se estabelecido na atual Síria.
Após terem tido participação efetiva na mudança dinástica do Império Persa (fim da dinastia Arsácida e início da Sassânida), edificaram uma cidade no local de seu acampamento permanente. A cidade levou o nome de Hira porque esta palavra quer dizer acampamento em Siríaco.
Apesar de ter nascido sob a influência Persa, pendia entre os Impérios Persa e Bizantino, mas seus maiores inimigos eram os Gassânidas, que, em 580 d.C., queimaram a cidade.
Após o incêndio a cidade nunca mais foi a mesma, acabou absorvida totalmente pelo Império Persa e permaneceu parte deste até ser conquistada pelo Islã, em 633 d.C..
2.8 – Estado de Kindah e os Beduínos:
O centro da península Arábica, em especial o planalto de Nedjd, era habitado por tribos nômades conhecidas como Beduínos, que viviam no deserto e regiões semi-desérticas a procura de oásis e de alimentos.
Além dos Beduínos, povoavam a região os habitantes de cidades independentes, cidades-Estado nas quais a forma de governo variava de uma para a outra.
Pois, bem essa região nunca havia conhecido nenhum tipo de centralização política, nunca havia sido formado um Reino ou coisa parecida no centro da Arábia. Nunca até que Hassan Tubba, soberano Himiarita do Reino de Sabá conquistou todas as tribos nômades do centro da Arábia. Na realidade o que ele fez foi dominar as tribos de Beduínos e pô-las sob sua autoridade. Depois de fazer isso, Hassan Tubba cedeu a região ao irmão, Hudjr, dessa forma, o centro da Arábia, apesar de ter sido conquistado pelo Reino de Sabá, não passou a fazer parte dele, pelo menos não na prática, porque em teoria era apenas mais um "estado" dele, um estado governado pelo irmão do Rei.
No entanto, a dinastia de governadores de Kindah, o estado central da Arábia, só teve três representantes, o próprio Hudjr, seu filho e seu neto, Aretas. Este último, de tão poderoso, chegou a ser Rei de Hira, além de governar Kindah.
Após a morte de Aretas, em
529 d.C., seus filhos iniciaram uma guerra para sucede-lo, as tribos Beduínas
aproveitaram-se da situação e se declararam independentes
novamente, sendo assim, acabava o Estado de Kindah, no entanto, ele trouxe
um importante aprendizado para os povos da Arábia central: a primeira
experiência de unificação, experiência esta que
seria fundamental ao Islamismo.