Introdução
Preâmbulo da Península Arábica
Caaba, uma união sincrética
Maomé, um profeta revolucionário
O período dos quatro Califas (Rashidun)
O Califado Omíada
A Revolução Abássida
O Islamismo
As Sombras do Império
Bibliografia

5 – O período dos quatro Califas (Rashidun):

O enterro de Maomé foi uma cerimônia simples, sem muita pompa, realizado em Medina no dia seguinte à sua morte. O motivo pelo qual Maomé não foi sepultado com muitas honras e estardalhaço não foi religioso ou mesmo moral, mas sim político, isso porque devido ao fato de o profeta não ter deixado nenhum filho homem, não se sabia quem seria seu sucessor e, sendo assim, havia muitos pretendentes ao título de governante da Arábia. Dessa forma, alguns desses pretendentes, dentre os quais se contava Ali, o primo de Maomé, temiam que Abu Bakr, por seu caráter de liderança fizesse de uma possível solenidade de sepultamento do profeta, uma forma de assumir o poder.

Porém, de nada adiantaram as precauções dos candidatos à sucessão de Maomé, pois Abu Bakr e Omar (um importante membro da sociedade Caraixita que, ao ser convertido, em 619, proporcionou a conversão de boa parte da população de Meca devido à sua popularidade) chamaram para eles a responsabilidade de governar a Arábia e, apoiados em no outro, realizaram esta missão, Abu Bakr se tornou então o Califa, que segundo reza a tradição foi o primeiro, devido ao fato de Maomé ser o Profeta.

5.1 – Os Califas:

O período que se seguiu à morte de Maomé foi o chamado Período dos Quatro Califas, ele é o período em que começa a se formar o Império Islâmico propriamente dito, pois antes o que Maomé fez foi costurar a colcha de retalhos que étnico-religiosa que formava a Arábia e torna-la um país unitário. Este período é muito conturbado, com o surgimento das primeiras sesseções religiosas no Islã e com o a abertura das novas frentes de batalha, contra Pérsia e Império Bizantino.

Aliás, a respeito de Pérsia e Império Bizantino é interessante notar que após uma longa guerra entre os dois Impérios, finalmente, em 628, Heráclio I, Imperador Bizantino, conseguiu uma vitória definitiva sobre a dinastia Sassânida (a dinastia Persa). Definitiva não porque destruiu definitivamente a dinastia, mas porque impossibilitou-a de reagir e tornou a queda do Império Persa apenas uma questão de tempo, tanto que, em 630, o próprio Heráclio I tomou Jerusalém aos Persas e continuaria tomando regiões não fossem os Árabes...

5.1.1 – Abu Bakr (632 – 634):

Quando Maomé morreu, as diversas religiões Árabes retomaram força, alimentadas pelos diversos profetas aos quais já me referi. Esses profetas tentaram operar a desunificação do que estava unificado na Arábia, porém, o novo Califa agiu rápido e em pouco tempo, contando com a ajuda imprescindível de Khalid ibn al-Walid, não só exterminou esses profetas, como também apaziguou os Beduínos, conquistando-os e enviou seu general ao sul da península, onde os Estados independentes não participavam da vida do Hedjaz, esta expedição conquistou o Reino de Sabá e os diversos Estados independentes do Iêmen, Hadramaut, Omã e litoral do Golfo Pérsico.

Apesar do ano de 633 ter sido tão grandioso e proveitoso para o Califa, ele já estava velho e, sendo assim, em 634, adoeceu e morreu, porém, em seu leito de morte, Abu Bakr não se esqueceu de recompensar seu principal aliado no poder, Omar e, sendo assim, designou-o como seu sucessor.

5.1.2 – Omar ibn al-Khattab (634 – 644):

Omar (em algumas fontes também mencionado como Umar) tomou o título de Califa e, segundo a História é conhecido como Omar I, isto porque, futuramente haverá outros Califas com este nome. Homem que inicialmente era um inimigo ferrenho do Islamismo, acabou se convertendo por volta de 619, e se tornou um dos principais responsáveis pelo poder deste. Em seu governo, ditado pelas aristocracias comerciais de Meca e Medina (esta última tinha se convertido na capital natural do Império, devido ao fato de ter sido o verdadeiro berço do Islamismo, de onde partiram as tropas que conquistaram Meca e toda a Arábia), concentrou seus esforços em conquistar a Mesopotâmia, as antigas Judéia e Fenícia e em se expandir até Alexandria, no Egito, pois queria dominar as principais rotas comerciais.

Seus exércitos foram liderados mais uma vez por Khalid ibn al-Walid, que por todos os seus feitos em prol do Islã, recebeu o digno apelido de "A Espada de Allah".

Com efeito, o governo de Omar I foi marcado por conquistas, conquistas essas proporcionadas pela fragilidade do decadente (e por que não moribundo) Império Persa e do enfraquecido Império Bizantino. Quando Khalid estava velho demais para continuar suas conquistas, foi substituído, com honras, mas as conquistas não pararam e, em 642, o Império Árabe se estendia do Egito ao Irã.

A viabilidade das conquistas se deu devido à tolerância dos conquistadores, pois quando os Árabes dominavam uma região, não obrigavam-na a se converter ao Islamismo, apenas impunham um pesado tributo (que servia para financiar a conquista de novas regiões pagando o soldo dos exércitos e proporcionando a confecção de armamentos) a quem não aceitasse a fé de Allah.

Dos pontos de vista estratégico, cultural e econômico, Omar foi impecável. Ordenou a construção de três cidades que serviam de bases militares (Kufa, ao sul da Babilônia antiga; Basra, no Iraque; e Fostat (atual Cairo), no Egito) que funcionavam mais ou menos como as colônias Romanas, ou seja, regiões com a finalidade militar de defender e controlar a região e a finalidade social de Arabizar ou Islamizar a região. Além disso, foi Omar I quem organizou o calendário Muçulmano que é seguido hoje, ou seja, foi ele quem fixou a Hégira (se bem que em data errada) como marco zero do calendário Islâmico.

O Califa também organizou as finanças do Império, criando o balanço (ou lista de receita e despesa) deste e organizou os territórios conquistados colocando um Wali, governador e general assistido por um Amil, responsável pela receita em cada uma das regiões conquistadas.

Além de todos esses feitos, o Califa ainda é lembrado pelos Islâmicos como um modelo das virtudes do Muçulmano, ou seja, enérgico, justo e mais temido do que amado. Seu caráter era tão forte e sua crueldade devia ser tamanha que, em novembro de 644, um escravo enfurecido atacou-o causando-lhe um ferimento mortal.

Omar I ainda teve tempo de, em seu leito de morte designar um conselho com seis membros com a função de eleger o novo Califa.

5.1.3 – Uthman ibn Affan (644 – 656):

O conselho dos seis era formado por, dentre outros, o próprio Uthman; que além de amigo de Maomé, havia desposado uma de suas filhas; e Ali (o primo de Maomé). Este conselho terminou por eleger Uthman como novo Califa.

Uthman, ao contrário de seus predecessores, não era uma figura famosa entre o povo, nem tão pouco, um herói militar, era, no entanto, um importante membro da aristocracia comercial de Meca, sendo pertencente ao clã Omíada (em Árabe, Umayyad). Dessa forma, a eleição do novo Califa marcou a vitória, e porque não o início da hegemonia, da aristocracia comercial de Meca sobre o Califado.

Os objetivos do novo Califa eram óbvios desde o início de seu governo, pois tentou dominar as mais importantes regiões comerciais do Oriente Médio e norte da África. Em seu governo Alexandria foi retomada, pois havia sido momentaneamente reconquistada pelos Bizantinos e a conquista da Palestina e da antiga Fenícia foi consolidada. Estas conquistas, juntas, possibilitaram o início da expansão marítima Árabe, pois antes, estes nunca haviam se arriscado nas águas do Mediterrâneo.

A principal figura da expansão marítima é Moawiya (em Árabe, Mu’awiyya), o governador da Síria, que instalado na proeminente cidade de Damasco, chefiou as esquadras Árabes em suas sucessivas vitórias sobre a esquadra Imperial Bizantina. Em 649, o Chipre caiu nas mãos Muçulmanas e isto marcou o fim da hegemonia de Constantinopla sobre as águas do Mediterrâneo, em especial sobre o Mediterrâneo Oriental.

Com as fronteiras comerciais consolidadas e a economia do Império indo "de vento em popa", o Califa tomou duas atitudes importantes relacionadas com a política interna: diminuiu a fervor expansionista, com intuito de fortalecer as defesas; e direcionou seus esforços no sentido de elaborar um texto único para o Alcorão, pois a existência de textos conflitantes (visto que Maomé não sabia escrever e, sendo assim ditou o livro para outros) começava a gerar discórdias religiosas que,mais tarde eclodiriam em revoltas e num cisma religioso.

Uthman, no entanto, desenvolveu em seu governo algumas vicissitudes que o tornaram muito impopular, além de enfraquecerem a unidade do Império. Contam entre essas medidas a prática deliberada do nepotismo (ou seja, o emprego de parentes e amigos em cargos públicos de confiança ou não) seguido do esbanjamento do tesouro central, o que acarretou em diminuição de recursos para fins importantes, como o militar.

Somam-se ao esbanjamento duas práticas que, por si sós, já seriam suficientes para reduzir a receita Imperial, ou seja, a parada na expansão, que acarretou no fim (pelo menos temporário) das presas de guerra; e a conversão ao Islamismo da maioria das populações conquistadas anteriormente. Esta última ação reduziu as receitas, pois, como o leitor deve se lembrar, aqueles que não quisessem se converter ao Islã depois de conquistados, não seriam obrigados, mas estariam sujeitos a pesados tributos, dessa maneira, muitos simularam sua conversão para assim se verem livres de impostos (dos quais os Islâmicos estavam livres).

A repercussão de tais fatos teve um peso negativo muito maior do que o peso positivo das conquistas (leve-se em consideração que foi no governo de Uthman que as conquistas foram realmente divididas em três frentes (como será explicado mais adiante), além disso, foi em seu governo que a Pérsia caiu de joelhos definitivamente diante dos Árabes, com a morte do último Grande Rei), tanto que desde o princípio de seu governo, o Califa encontrou feroz oposição de quatro figuras importantes dentro da comunidade Islâmica: Aysha, filha de Abu Bakr e principal esposa de Maomé; Ali, primo do profeta; al-Zubayr e Talha, ambos, assim como Ali, membros do conselho dos seis que elegeu o Califa.

O nepotismo e o esbanjamento praticados pelo Califa se irradiaram para as províncias, dessa forma, as populações passaram a ser muito exploradas (talvez isso tenha, mais que tudo, motivado as conversões em massa) pelos governadores locais que eram nomeados e renomeados pelo Califa a seu bel prazer.

A situação se tornou calamitosa quando no final de 655, Amr, o governador do Egito foi deposto pelo Califa que nomeara para seu lugar um parente. Ele com seus soldados tentaram depor Uthman, mas não lograram sucesso. Porém, este (o Califa) pediu auxílio ao novo governador do Egito para que este sufocasse a revolta, este (o governador) obedecendo, matou um importante general leal a Amr. A morte do oficial revoltou os exércitos do Califado e, sendo assim, quando a notícia chegou a Medina, os soldados que outrora eram leais a Uthman invadiram seu palácio e mataram-no enquanto lia o Alcorão.

5.1.4 – Ali ibn Abi Talib (656 – 661):

Quando Uthman morreu, mais do que depressa (no mesmo dia) Ali (o mesmo que era primo de Maomé e que com ele crescera) tomou para si o título de Califa, no entanto, as circunstâncias nas quais o antigo Califa fora morto (lendo o livro sagrado) fizeram com que, inesperadamente, ele se converte num mártir (um herói morto). Sendo assim, Ali, que possivelmente instigara os exércitos contra Uthman, foi considerado por seus antigos aliados (leia-se Aysha, al-Zubayr e Talha), além de por Moawiya (governador da Síria, que era primo de Uthman e que, dessa forma, com sua morte, herdou a chefia do clã Omíada).

Certamente, Ali contava com inúmeros aliados, dentre os quais podemos referir principalmente os mais antigos fiéis, ou seja, os que haviam conhecido Maomé, além de quase a totalidade dos exércitos, visto que as três fortalezas Árabes (Fostat, no Egito; Kufa e Basra, na Mesopotâmia) lhe eram fiéis.

A viúva de Maomé (entenda-se que apesar de após a morte de Khadidja, o profeta ter criado um harém, a primeira mulher com a qual se casou, no caso Aysha, passou para a História como sua viúva, isto porque foi a única que teve alguma relevância depois da morte do marido, além de ter sido a única cujo pai (Abu Bakr) também se tornou Califa), juntamente com os outros dois inimigos de Ali, se mudou para Basra, onde pretendia corromper a fortaleza contra o novo Califa.

Vendo que sua presença se fazia necessária junto aos exércitos, em especial na Mesopotâmia, Ali transferiu a capital do Império de Medina (onde haviam reinado Maomé, Abu Bakr, Omar e Uthman) para Kufa. Lá, ele organizou as tropas e marchou contra os rivais. Tudo isso ainda e 656, o mesmo ano de sua posse.

Desenrolou-se então a chamada batalha do camelo, de onde Ali saiu vitorioso, exterminando as tropas dos oponentes e, além de matar al-Zubayr e Talha, capturou Aysha, esta foi silenciada (pois ficou sem aliados) e então enviada de volta para Medina, onde viveu o resto de sua vida (morreu em 678, de velhice, com quase oitenta anos) confortavelmente, mas sem ter outra chance de agir politicamente falando.

A morte de seus inimigos serviu para consolidar as posições de Ali no Iraque (ou Mesopotâmia), mas, no entanto, na Síria as coisas estavam diferentes. Moawiya não aceitava o governo de Ali, a quem considerava um usurpador, dessa forma, agora aliado com Amr (entendam que Amr, apesar de ter sido inimigo de Uthman, viu em seu primo Moawiya, um aliado poderoso, posto que este não praticava os mesmos erros grotescos que o Califa anterior, além disso, Ali lhe tinha usurpado a idéia de dar um golpe e tomar para si o título de Califa, visto que havia feito isto antes, sendo assim, a vingança também o motivava), iniciou, já em 657, suas ofensivas.

A batalha de Siffin, na margem direita do rio Eufrates, em 657, foi decisiva em muitos aspectos, pois os exércitos de Ali estavam levando vantagem até que Amr, que comandava os exércitos de Moawiya, ordenou que todos os seus homens colocassem sobre as espadas folhas do Alcorão. Essa imagem fez com que as tropas de Ali desistissem de lutar, pois consideravam sacrilégio matar homens tão leais à sua fé. Além da desistência, os homens de Ali decidiram submete-lo a uma Arbitragem, ou seja, uma espécie de julgamento que apontaria se sua ascensão ao poder era válida (na prática, isto punha em dúvida o mérito do governante, ou seja, o desmoralizava).

Enquanto Ali se retirava do campo de batalha com seus homens, cerca de metade deles veio insistir para retornar ao combate. O Califa, no entanto, achou prudente não aceitar, pois estariam em menor número e certamente perderiam a batalha. Diante da recusa de Ali, estes soldados desertaram, mas ao invés de passarem para o lado de Moawiya, formaram uma milícia religiosa cujos seguidores foram batizadados de Kharidjitas (os que saem). A formação dessa milícia marca o primeiro grande cisma do Islã.

Depois da formação do Kharidjismo, Ali teve que ocupar seu tempo enfrentando-os, dessa forma, Moawiya passou a agir livremente e, sendo assim, não só retomou o Egito, cujo governador era leal a Ali, e entregou-o a Amr, como, em 660, em Jerusalém, proclamou-se Califa. Isso gerava uma situação de quase ruptura, uma vez que passava a haver dois indivíduos que se consideravam governantes supremos do Império, um cuja influência de estendia ao Egito e à Síria (Moawiya) e o outro, ao qual eram leais a Arábia em si e o Iraque (Ali).

Ali finalmente derrotou os revoltosos Kharidjitas, na batalha de Nahrawan, nas margens (e mesmo dentro dele, dizem que as águas do rio se tornaram turvas com o sangue dos dissidentes) do rio Tigre. Porém, apesar de agora ineficazes militarmente, os Kharidjitas continuaram a existir e a agir de forma semelhante aos terroristas de hoje, tanto que, em 661, quando (livre dos insurretos) Ali organizava suas tropas para marcharem contra a Síria, um Kharidjita disfarçado invadiu a Mesquita de Kufa e matou o Califa. Com a morte de Ali, o caminho ficou livre para as pretensões de Moawiya.


Expansão máxima do Islã nos primeiros anos



5.2 – As Revoltas Xiitas e as dissidências religiosas no Islã:

As tensões que se iniciaram no Califado de Uthman acarretaram diversas transformações no mundo Árabe. Porém, as principais talvez tenham sido as religiosas. Digo principais, pois além das transformações políticas profundas ocorridas no Império Islâmico, decorrentes em grande parte de tais dissensões religiosas (não devemos esquecer que os Kharidjitas atrapalharam a possível e provável reação de Ali, abrindo o caminho para o fortalecimento dos Sírios), até hoje essas diferentes correntes têm, em maior ou menor grau, alguma influência no mundo Muçulmano, sendo que o Irã tem como religião oficial o Xiismo.

O Kharidjismo foi a primeira dessas dissensões religiosas e, como já expliquei no item anterior, surgiu de uma discordância entre os soldados de Ali e este. Ele foi responsável por diversos ataques tanto na época de Ali, quando ainda era efetivo numericamente o suficiente para realizar reides, quanto em épocas posteriores, através de atentados e da conversão de adeptos do Sunismo (ortodoxia Islâmica original) a sua causa. A principal discordância dos Kharidjitas em relação aos Ortodoxos (os Muçulmanos que seguem os ensinamentos originais de Maomé) era política, eles acreditavam que qualquer cidadão deveria ter o direito de ascender ao Califado, desde que fosse Islâmico. Porém, o Califa deveria ser cobrado quanto ao cumprimento de suas obrigações, podendo ser deposto se não as cumprisse adequadamente. Esse princípio batia de frente com o caráter hereditário que viria a se instaurar no Califado após a morte de Ali, sendo assim, essa seita continuou agindo contra o interesse dos Califas. O mais curioso quanto aos Kharidjitas é que para eles (apesar de serem Islâmicos), era mais fácil considerar um Judeu ou um Cristão como igual do que um Muçulmano não adepto de sua causa.

Após a morte de Ali, que possuía muitos apoiadores incontestes, este foi transformado por muitos numa figura semi-divina, de fato, Ali, bem como seus descendentes (filhos deste com sua esposa Fátima, filha de Maomé) passaram a ser considerados mais importantes do que Maomé. É bom que se explique que os Califas eram, até o tempo de Ali, ao mesmo tempo Malik (Rei) e Imam (Líder Religioso), porém o culto que se desenvolveu a Ali, tratava-o, e também a seu filho, Hussayn, como Imam. Este culto recebeu o nome de Xiismo. Os Xiitas, uma seita que persiste, como já foi referido, até os dias de hoje, acreditam que o Califado só pode ser exercido pelos descendentes diretos de Ali, pois estes são naturalmente divinizados.

Cada Imam tem o dom, concedido por Allah, de rever as escrituras, sendo assim, a palavra de um Imam é absoluta sendo superior ao Alcorão e até mesmo a palavra do Imam anterior. A crença na divindade do Imam fez com que os Xiitas não aceitassem os Califas e, sendo assim, desenvolvessem vários ataques e revoltas ao longo de todo o Califado Omíada e depois, também do Abássida.

Para os Xiitas, o Imam designa entre seus filhos aquele apto a ser o futuro Imam. Porém, isso causou algumas dissidências entre os próprios Xiitas, pois o sexto Imam, Djafar, não escolheu como futuro Imam ao seu filho mais velho, Ismail, como era costume até então, mas sim ao seu filho mais novo, Musa. Dessa forma, alguns Xiitas que acreditavam na sucessão varonil por idade (ou seja, o filho homem mais velho deveria ser o novo Imam), não aceitaram Musa como Imam e passaram a cultuar Ismail como seu Imam, estes foram então ditos Ismailitas, uma facção Xiita considerada radical até mesmo por estes (que, diga-se de passagem, já são radicais o bastante). Os Ismailitas recusam-se a acreditar que Ismail tenha morrido um dia, ao contrário, eles afirmam que seu líder irá retornar ao mundo e salvá-los, bem como a todos os que se converterem, sendo assim, para os Ismailitas, com Ismail encerra-se o ciclo de Imans. Ao contrário, para os Xiitas, que aceitaram Musa como seu Imam, o ciclo só se encerra quando (por volta do final do século X) o décimo segundo Imam se retira para uma montanha sob o pretexto de meditar. Os Xiitas acreditam (talvez inspirados nos Ismailitas) que este ainda está meditando nas montanhas, até hoje, e um dia retornará para salva-los, nesse dia, as revelações finais sobre o Alcorão serão feitas, e as partes perdidas (que teriam sido excluídas propositalmente para retirar os predicados de Ali quando foi elaborado o texto único) serão reencontradas.

Tanto os Xiitas, quanto os Ismailitas (que nada mais são do que uma facção dos Xiitas) acreditam que, quando Uthman realizou a edição do texto "oficial" do Alcorão, deliberadamente negligenciou algumas partes que beneficiavam Ali. Dessa forma, ele teria impedido o "fundador" do Xiismo de obter privilégios semelhantes aos de Maomé.

É interessante notar no Xiismo que apesar de Ali ser seu "fundador", ou pelo menos inspirador, seu filho Hussayn foi mais venerado, isso porque sua morte (apesar de ter sido morto numa emboscada, armada pelo novo Califa Moawiya, que temia que o filho de Ali reunisse forças suficientes para destrona-lo) foi considerada um rito de auto-sacrifício, em busca de purificação, de salvação. A morte de Hussayn entrou para a História como o massacre, ou drama, de Karbala, e inspirou o início das violentas hostilidades Xiitas ao longo da História. Para os Xiitas, existe uma necessidade de vingar Hussayn, sendo assim, eles se mobilizam para tal feito. Essa mobilização, aliada a outras causas que veremos mais adiante, foi uma das responsáveis pela queda da dinastia Omíada.

O enviado de Allah que, tanto para os Xiitas, quanto os Ismailitas, esperam, é chamado de Mahdi e será simplesmente infalível.

5.3 – As três frentes da expansão:

Certamente foi durante o governo de Uthman que a expansão dos domínios Árabes tomou realmente a forma que viria a ter nos próximos anos, sobretudo durante a dinastia Omíada. Três foram os caminhos adotados pelos Muçulmanos para expandir sua fé e seu controle temporal.

Veremos neste item boa parte das principais conquistas Islâmicas desde o estágio embrionário da divisão em frentes de combate, até o final do período ao qual se remete este texto, ou seja, em 809, com a morte de Harun al-Rachid.

5.3.1 – Oriente:

A expansão rumo ao Oriente existiu em boa parte sobre os domínios do antigo Império Persa. Este estava fragilizado pelas sucessivas derrotas que sofrera frente ao Império Bizantino, sendo assim, não pode resistir à organização das tropas Islâmicas.

O leitor deve estar intrigado com uma questão importante e pouco estudada sobre o Império Persa. Ele não havia acabado no século IV a.C., quando Alexandre matou Dario III e conquistou seu Império Persa.

Vejamos, depois da morte de Alexandre, seu Império foi dividido entre seus principais homens, dentre eles contavam Antígono, a quem coube o núcleo do Império, ou seja, a Grécia-Macedônia; Ptolomeu, a quem coube o Egito; e Seleuco, a quem coube a Ásia, ou o antigo Império Persa.

Logo no início, a Ásia Seleucida foi desmembrada em diversos Reinos: Armênia; Média Atropatena; Partia; Bactriana e a própria Seleucida.

Em 64 a.C., a Partia, que sob a dinastia dos Arsácidas (dinastia estabelecida em 247 a.C.) se fortalecera, toma as demais regiões, mas não recria o Império Persa, este período é chamado de Reino Parto, e perdura até 224 d.C.. Os Partos impuseram dura resistência ao Império Romano, tendo sido combatidos por famosos generais, tais como Lépido e Marco Antônio.

Em 224 d.C., um príncipe regional chamado Ardachêr, filho de Sâssân, organiza uma revolução nacional e, derrubando a dinastia Arsácida, instala no lugar a sua, que em homenagem a seu pai, se chama Sassânida. Os Sassânidas, em busca de respaldo anterior ressucitam o nome Pérsia, bem como todos os seus títulos, dessa maneira, o soberano volta a se chamar Grande-Rei, como na Pérsia Pré-Alexandrina e o Império volta a se chamar Império Persa.

Os Sassânidas oferecem muito mais problemas aos Romanos do que seus antecessores, os Partos, talvez por serem mais ferozes que estes, ou pelo fato de aqueles estarem em decadência. O fato é que um Imperador Romano é morto (Juliano, em 363) e outro capturado e escravizado (Valeriano, em 260) em guerras contra os Persas Sassânidas.

Depois da queda do império Romano, os Sassânidas passam a disputar com os Bizantinos a hegemonia do Oriente. De início, são atrapalhados em suas tentativas, pelos Hunos e quando tentam conquistar territórios Bizantinos, encontram Constantinopla em seu apogeu militar, com Justiniano, que os repele. Khosrô II, no entanto, conquista diversos territórios do Império Bizantino (Ásia Menor, Síria, Palestina e Egito) após a morte de Justiniano, desencadeando uma guerra feroz entre os dois Impérios.

Heráclito I, Imperador Bizantino, começa a retomar o que lhe havia sido usurpado pelos Persas e, em 628, lhes impõe uma derrota definitiva (já mencionada anteriormente), derrota esta que praticamente destrói qualquer chance da dinastia Sassânida se reerguer. É neste contexto que os árabes encontra os Persas, ou seja, praticamente derrotados desde 628, precisando apesar do "último empurrão" para caírem no precipício; e este "empurrão" é dado pelos Muçulmanos.

Em 651, Yazdgard, último Grande-Rei Sassânida é morto pelos Árabes depois de fugir de cidade em cidade, sendo assim, termina a dinastia, pelo menos na Pérsia, visto que no Turquestão (antiga pátria dos Turcos, dos quais falarei brevemente no item sobre a dinastia Abássida) e depois na China, ainda resistem Reis Sassânidas até meados do século VIII, quando são finalmente exterminados pelos Árabes.

Se por um lado a expansão Árabe em seu rumo oriental se fundamentou na conquista dos territórios do Império Persa, por outro, não se limitou a isso, visto que entre o governo de Uthman (644 – 656) e o de Al-Walid (705 – 715), estenderam seus domínios do oeste do atual Irã até certas regiões da China e da Índia, tendo inclusive se deparado com tropas da dinastia T’ang, da China da época.

5.3.2 – Norte:

Enquanto a expansão rumo ao leste se fundamentava na anexação dos territórios do Império Persa, a expansão no sentido norte almejava a conquista de regiões do Império Bizantino. Iniciada por Uthman, esta direção das conquistas foi a que menos logrou efeito (pelo menos na época referida, visto que como esta frente nunca foi esquecida pelos povos Islâmicos, posteriormente os Turcos, saídos do Turquestão, atacaram a Ásia Menor, ou Capadócia, visando se instalarem. Venceram a batalha de Manzikert, em 1071, iniciaram a formação do Império Turco, ou Otomano, que, dominando os Bálcãs e boa parte dos domínios centrais do Império Islâmico original, perdurou até o final da Primeira Guerra Mundial), pois teve como oposição ferrenha o, ainda poderoso, Império Bizantino.

As principais motivações dessa frente de combate eram nitidamente comerciais. Os Árabes, que estavam sob a égide de um clã comercial (os Omíadas), desejavam banir os Bizantinos do comércio do mar Mediterrâneo e, se não pudessem conquista-los, pelos menos queriam sobrepuja-los.

Foi com esse intuito que, já no governo de Uthman, o Império Islâmico iniciou a construção de sua esquadra que conseguiu grandes vitórias logo de início, conquistando o Chipre e dizimando a marinha Bizantina.

Depois de conquistar a supremacia no Mediterrâneo, os Árabes iniciaram a construção de uma rede de postos avançados no mar, com a conquista de diversas ilhas e cidades costeiras, como Rhodes e Chipre, além de ataques a Sicília e ao sul da Itália.

Desejando exterminar definitivamente os Bizantinos e abrir seu caminho rumo a Europa, os Árabes enviaram, em 674, uma grande esquadra para Constantinopla, pois sabiam que se a capital caísse, todo o Império cairia. Ocorreu um longo cerco de quatro anos, nos quais a cidade resistia e os Árabes atacavam, até que os Bizantinos utilizaram a ciência para lhes garantir a sobrevivência. Graças a pesquisas de Calímaco, um engenheiro da Síria que se refugiou no Império Bizantino para fugir do domínio Islâmico, foi inventado o fogo grego, uma mistura de petróleo, enxofre, salitre e cal viva, que se inflama com o impacto e queima em qualquer superfície, inclusive sobre a água (devido ao petróleo, que é o que queima realmente). Graças ao fogo grego, Constantinopla conseguiu armar suas defesas navais e destruir a esquadra Árabe que a cercava (isso porque, como os navios da época eram feitos de madeira, o fogo se tornava especialmente perigoso para eles). Os Árabes evitaram realizar novas investidas navais contra Constantinopla para não perderem mais navios, em contra partida, os Bizantinos não conseguiram reaver o que haviam perdido, pois assim como não conseguiriam produzir fogo grego suficiente para queimar todos os navios Árabes, também não teriam recursos para reconstruir sua marinha perdida (uma vez que depois da dispendiosa reconquista organizada por Justiniano (que governou entre 527 e 565), as finanças Imperiais ficaram de tal forma arruinadas, que nunca mais se recuperaram). Dessa maneira, houve uma certa paz nos mares entre os Impérios Islâmico e Bizantino.

5.3.3 – Ocidente:

A expansão Árabe rumo ao ocidente foi a que começou mais cedo, já no governo de Omar, talvez motivada pelo sentimento de revanchismo que boa parte dos Árabes nutria em relação aos Abissínios (Etíopes), pois, como já foi explicado, este dominaram por longo período o Reino de Sabá, além de tentarem impor o Cristianismo aos povos Árabes pré-Islâmicos.

Durante o Califado de Omar (634 – 644), as conquistas se estenderam até Trípoli, tendo tomado, no caminho, o Egito e a Abissínia. No governo de Uthman, esta frente foi preterida em detrimento das outras duas e no Califado de Ali, devido às diversas guerras que o primo de Maomé teve que travar e ao conturbado momento político em que se encontrava o Califado, a expansão parou momentaneamente.

Quando a dinastia Omíada se instalou, voltou seus olhos novamente a esta direção da expansão. Talvez a ênfase maior a estas conquistas tenha sido dada quando os Árabes se deram conta de que, pelo menos por aquela hora, não poderiam tomar Constantinopla, sendo assim, precisavam atingir a Europa de outra maneira.

Através das conquistas no norte da África, ocorreu um aumento brutal da extensão do Império, bem como uma verdadeira revolução na máquina de guerra Islâmica, visto que os Berberes (povo do norte da África (região da Numídia) conhecido por sua resistência intransponível a todos os Impérios anteriores e por seu nomadismo, além de suas altíssimas qualificações militares) se converteram ao Islamismo e tomaram para si a responsabilidade de invadir a Espanha Visigótica (o domínio da Espanha será contado em detalhes num item especial, devido à grandeza do general responsável por sua conquista).
 
 

Outras conseqüências importantes tanto para o Império Islâmico, quanto para o mundo atual da conquista do norte da África foram: o surgimento da África Branca, ou seja, a irradiação dos povos Semitas da Arábia e Egito até o Maghreb; a destruição definitiva de Cartago (a cidade havia sido destruída pelos Romanos em 146 a.C., porém, depois de ficar vários anos desocupada, foi revivida por Júlio César) para a construção, no mesmo lugar, de Tunis; a criação de portos importantes para o ataque a ilhas do Mediterrâneo e regiões costeiras da Europa; além da principal conseqüência Histórica, a conquista da Espanha e o subseqüente fechamento do Mediterrâneo à navegação Européia, pois os Árabes passaram a domina-lo completamente.

Arquitetura islâmica no Norte da África:
Mesquita em Kano, Nigéria

Com certeza, com veremos, a conquista da Espanha (entre 711 e 714) marca o início do apogeu do Império Islâmico, uma Império que existia a apenas oitenta anos e que já dominava uma região maior do que a extensão máxima do Império Romano.
 

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