Introdução
Preâmbulo da Península Arábica
Caaba, uma união sincrética
Maomé, um profeta revolucionário
O período dos quatro Califas (Rashidun)
O Califado Omíada
A Revolução Abássida
O Islamismo
As Sombras do Império
Bibliografia

6 – O Califado Omíada:

Após a morte de Ali, finda-se o período dos Califas ditos Ortodoxos, isso porque, os quatro que reinaram depois da morte do profeta haviam tido contato direto com ele e assim, estavam entre os primeiros convertidos ao Islã.

Moawiya dá um golpe em 660, quando se proclama Califa, em Jerusalém. Seu golpe, no entanto, só se concretiza em 661, quando Ali morre, desde então, o antigo governador da Síria e agora, novo Califa, introduz algumas mudanças substanciais na política e, trazendo de volta para sua família o poder (visto que Uthman era seu primo e líder da família antes dele) proclama o Califado como hereditário, estabelecendo assim, a dinastia Omíada, visto que uma dinastia se caracteriza pelo domínio do poder por uma família ao longo de um certo tempo.

6.1 – Os Califas e os feitos da Dinastia:

A dinastia Omíada foi marcada por alguns pontos importantes tanto de conflito quanto de evolução. Já mencionei que foi durante esta dinastia que o Império Islâmico atingiu seu apogeu tanto físico (em tamanho) quanto militar, somente o apogeu cultural é que viria posteriormente, com a dinastia Abássida.

Do ponto de vista político-religioso, a transformação do Estado em Estado Laico foi uma evolução, no sentido em que retirou do Califa o peso de ser o sumo pontífice do Islamismo, deixando-o livre para decidir o futuro econômico, militar, social e político do império; ao mesmo tempo que talvez tenha sido um retrocesso, uma vez que esta separação acarretou na dissolução da Teocracia que havia sido criada ainda na época de Maomé. O fim da Teocracia é ruim, pois retira parte do apoio popular, advindo da Religião, ao governante.

Outra característica importante da dinastia Omíada é que ela nunca contou com o apoio total da população do Império, tanto por causa das revoltas religiosas (Kharidjitas e Xiitas), quanto pelo fato do tamanho do Império ter começado a torna-lo ingovernável na época. Pois em regiões tão distantes e, sendo assim, tão distintas, se tornava difícil manter uma comunhão de pensamentos e mesmo religiosa, em suma, o que era bom para a Espanha não necessariamente era bom para a Síria, ou para o Iraque, ou para a Arábia.

Porém, acredito que a principal característica da dinastia Omíada tenha sido realmente a vitória dos grupos mercantis (repito pré-capitalistas) sobre os grupos religiosos fundadores do Império, dessa forma, o Império que foi criado e era mantido através da difusão de uma fé, não era mais administrado pelos superiores dela.

6.1.1 – Moawiya (661 – 680):

Moawiya foi o fundador da dinastia Omíada e, apesar de não ter sido o primeiro membro desse clã o governar o Império (Uthman também era do clã Omíada), foi, com certeza, o mais revolucionário Califa desde de Maomé.

Em seu governo, o novo Califa operou várias transformações no mundo Islâmico. Uma delas já foi mencionada, ou seja, foi a laicização do Estado, mas convém enumerar outras: a transferência da capital de Kufa (para onde Ali tinha transferido-a anteriormente) para Damasco; a proclamação da hereditariedade do título de Califa (o que fundou a dinastia propriamente dita); a retomada das frentes expansionistas iniciadas por Uthman; a reintegração da totalidade do Império sob uma só autoridade; o combate às dissensões religiosas.

Quando Ali morreu, seu filho, Hassan, foi escolhido pelas tropas do Iraque como seu sucessor, dessa forma, as disputas entre Síria e Iraque continuariam, no entanto, por motivos ignorados, Hassan abandonou o poder, deixando-o todo para Moawiya. Existem duas hipóteses para explicar o ocorrido, sendo uma delas mais provável. A primeira, e menos provável, é a utilizada pelos Sunitas (os Muçulmanos Ortodoxos, ou seja, que seguem o Alcorão tal como foi escrito e que se posicionaram ao lado dos Omíadas), e diz que num encontro entre Hassan e Moawiya, o filho de Ali se sentiu inferior ao concorrente e, sendo assim, abandonou o poder. A outra hipótese, mais provável, é defendida pelos Xiitas (aqueles que se posicionaram ao lado de Ali, contra os Omíadas), segundo esta hipótese, Moawiya teria armado uma cilada para Hassan, na dita reunião, sendo assim, o soberano Omíada teria capturado o filho de Ali e, mais tarde matado-o com veneno.

De qualquer forma, com a abdicação de Hassan, Moawiya ficou sozinho para governar e iniciou seu Califado em 661. Seu primeiro ato de governo foi tornar o Califa superior ao Shura, o conselho dos seis, criado por Omar para designar o sucessor do Califa. Desta forma, o Califa não só passava a responder sozinho pela administração Imperial, como também indicava em vida um de seus filhos como sendo seu sucessor. Este, ainda durante a vida do pai, passava pela aprovação (meramente formal, visto que o conselho era controlado pelo Califa) da Shura e, sendo assim, estava efetivado como herdeiro do trono. Dessa forma foi possível a manutenção do clã Omíada no poder.

A transferência da capital do Império para Damasco não ocorreu meramente porque o Califa estava radicado nesta cidade, constituindo ela, sua fonte de poder. Ao contrário, foi uma questão geopolítica e religiosa de extrema importância. Religiosa, porque em Medina, antiga capital do Império (antes de Ali se mudar para Kufa), estava radicada a elite sacerdotal do Império, em outras palavras, era o centro de poder do antigo Estado Teocrático Árabe, Estado este que os Omíadas queriam derrubar. Porém, sob o ponto de vista geopolítico e também administrativo, Damasco estava muito mais bem situada, localizando-se na Síria, a cidade estava exatamente no núcleo do Império, de onde era possível ir facilmente para qualquer de seus pontos, e também proteger-se de ataques, visto que não se tratava de uma cidade costeira.

Do ponto de vista comercial, o governo de Moawiya também foi importantíssimo, pois com a conquista do antigo Império Persa, ele dominou as rotas comerciais do oriente e, sendo assim, o comércio Mediterrâneo (coisa que foi facilitada pelo poderio da marinha de guerra). O domínio das rotas comerciais deu novo fôlego ao Império que havia percebido a falha de seu sistema de tributação dos infiéis (sistema criado por Omar e que se esfacelou no final do governo de Uthman, com a conversão em massa das populações dominadas à fé Islâmica). O sistema de tributação perdurou, pois era interessante como forma de compelir, não violentamente, os dominados à conversão, porém, já não era a responsável pela economia do Império, que se apoiava agora no comércio oriental e Mediterrâneo.

No tocante às dissensões religiosas, Moawiya encontrou duras ações dos Kharidjitas, porém, se mostrou hábil em contornar os ânimos dos Xiitas. Estes eram mais numerosos, mas menos agressivos e organizados que aqueles.

Por fim, sobre o governo de Moawiya é interessante assinalar a importância da formação da Monarquia Nacional e Centralizada. Centralizada ela era devido ao poder supremo do Califa, tanto no tocante às nomeações, quanto à administração, porém, o caráter Nacional era novo, visto que anteriormente, os Islâmicos eram considerados pertencentes cidadãos do Império, agora não mais, estes eram apenas os Árabes, ou seja, os nascidos (ou descendentes de nascidos) na região que vai do Iêmen (no sul da península Arábica) até a Síria (onde se localiza Damasco). Dessa forma, mesmo que estes não fossem Islâmicos, seriam considerados cidadãos.

O governo de Moawiya, e a dinastia Omíada como um todo, se caracterizou pelo profissionalismo dos cargos públicos, era uma clara tentativa de combater os graves problemas que ocorreram no governo de Uthman (o primeiro Omíada), quando o critério de seleção para os cargos era o nepotismo. Agora, os altos cargos públicos só eram ocupados por pessoas comprovadamente competentes, mesmo que não fossem Muçulmanas (de fato, houve um grande número de Cristãos ocupando importantes cargos durante a dinastia Omíada). O objetivo dos Califas Omíadas com essa atitude era, não só profissionalizar o Estado, como também fazer o Império prosperar pela competência administrativa (competência esta copiada, em muito, do Império Bizantino, daí os Cristãos no governo). A colocação de não Muçulmanos em cargos públicos causava a revolta de alguns mais exaltados, mas é importante que se note que todos os Califas Omíadas, sem exceção, sempre foram Muçulmanos tradicionalistas (Sunitas) e grandes observadores da fé, do Alcorão e dos costumes Árabes (as Sunnas de Maomé, daí Sunitas).

6.1.2 – Yazid (680 – 683):

Em 680, Moawiya morreu, mas seu filho, Yazid, já estava homologado há muito tempo pela Shura, sendo assim, assumiu sem problemas.

Porém, se por um lado não houve problemas legais na cúpula Imperial, por outro, Husayn, irmão de Hassan e filho de Ali, instalado em Meca e com o auxílio de Abdallah ibn al-Zubayr, recusa-se a reconhecer o novo Califa. Kufa, a cidade que Ali escolhera para ser sua capital, apóia Husayn e este se dirige para lá, em busca de homens para formar seu exército. No entanto, no meio do caminho, é morto e decapitado (10 de outubro de 680). Para os Xiitas, que consideravam Husayn como seu segundo Imam, a morte de seu líder foi glorificada como um ato de auto-sacrifício (em busca da salvação eterna ao lado de Allah), sendo assim, o local da morte do filho de Ali se tornou imediatamente um local de peregrinação Xiita.

A morte do Imam, como já me referi anteriormente, incitou os Xiitas contra os Omíadas e gerou os movimentou que ficaram conhecidos como: "A Revoluções Xiitas no Islã". Esse movimento foi mais forte durante a dinastia Omíada e, como veremos, contribuiu muito para sua derrobada, em 750. Porém, mesmo depois de 750, os Xiitas continuaram causando problemas aos Islâmicos de outras seitas, inclusive, em 1980, quando ocorreu a Revolução Xiita Iraniana, que derrubou o Xá Rezah Pahlavi, e instaurou no poder o Aiatolá Khomeini, o povo, nas ruas, portava estandartes nos quais estava escrito: "Xá = Yazid / Khomeini = Hussayn", numa clara alusão à idéia de que a deposição do Xá viria vingar o marte de Hussayn, operada por Yazid, em 680.

Apesar da morte de Husayn, al-Zubayr atinge Kufa e consegue reunir sob seu comando tanto Xiitas, como Kharidjitas (ambos unidos pelo ódio aos Omíadas), sendo assim, quando retorna ao Hedjaz, faz eclodir uma revolução em Medina e Meca.

Os Omíadas são expulsos da região e, temporariamente, esta passa a ser governada pelos revoltosos. A reação Imperial não tarda, o general Muslim é enviado, em 682, à região e impõe uma séria derrota aos revoltosos, na cidade Medina. Porém, em Meca, o general não tem a mesma sorte, numa batalha sangrenta, Meca é incendiada, mas os exércitos do Califa, inclusive Muslim, perecem. No incêndio, a Caaba é destruída.

Nova investida, sob o comando de Ibn Numayr, ia ser feita, em novembro de 683, mas o Califa morre e a expedição é cancelada.

O filho de Yazid era Moawiya II, que, assim como ocorrera com o pai, já havia sido homologado como herdeiro durante seu governo. Porém, o novo Califa assume o trono e, quarenta dias depois, falece, vítima de uma grave doença.

A morte prematura de Moawiya II coloca o Império sob um breve período de Anarquia, uma vez que Yazid tinha apenas 38 anos de idade e como tal, não podia ter um filho velho o suficiente para ter um herdeiro capaz de assumir o trono.

Além das guerras ocorridas no breve governo de Yazid, houve uma expansão dos domínios no norte da África, no entanto, esta expansão foi realizada de forma impensada, pelo general Oqba ibn Nafi e, sendo assim, apesar de ter atingido o Maghreb pela primeira vez, gerou uma guerra ferrenha contra os Berberes e pôs as conquistas em risco. Tanto que, em 681, o general foi morto e suas tropas desbaratadas, o que ocasionou o avanço dos Berberes e a conseqüente evacuação de Trípoli pelos Árabes, ou seja, no norte da África o Império começava a recuar.
 
 

6.1.3 – Mawan (684 – 685):

A morte de Moawiya II finalizou o braço principal do clã Omíada, sendo assim, o mais velho membro de um outro braço do clã, Marwan, foi nomeado Califa. Porém, ele estava numa situação difícil, pois além de já contar mais de 70 anos de idade (o que lhe dificultava a locomoção junto das tropas), a demora para sua escolha (mais de três meses se passaram entre a morte de Moawiya II e a posse de Marwan) possibilitou que al-Zubayr fosse eleito Califa na Arábia.

O líder dos revoltosos tinha o apoio inconteste do Iraque e o Egito havia se aliado a ele, sendo assim, das cinco principais regiões do Império (Arábia, Síria, Egito, Iraque e Oriente (visto que a Tripolitânia, região a oeste do Egito, havia sido perdida em 681)), três apoiavam al-Zubayr, uma apoiava Marwan e a outra, o Oriente (composto por regiões distantes como Kabul, na China, certas regiões da Índia e do Turquestão (Mongólia)), estava há tão pouco tempo conquistada, que tendia mais a se separar do Império, do que a apoiar um dos dois pretendentes ao trono.

Para agravar ainda mais a situação de Marwan, começava a surgir na própria Síria, um forte partido, os banu Qays, que apoiava al-Zubayr na sucessão Imperial. O próprio Marwan estava a ponto de renunciar em favor do concorrente, mas um fato viria mudar o panorama político que estava em vias de se definir em prol dos revoltosos, cujo corpo era composto por Xiitas e Kharidjitas. Discordâncias entre al-Zubayr e seus comandados fizeram com que, tanto Xiitas, quanto Kharidjitas, se declarassem independentes em relação a seu governo.

Esse fato encoraja Marwan a encarar uma luta contra o opositor, na medida em que reduziu brutalmente suas fileiras. O Califa (chamarei à partir daqui Marwan e os Califas Omíadas, de Califas e al-Zubayr, de Anticalifa) consegue colocar toda a Síria sob sua autoridade e então marcha rumo ao Egito. Lá, ele derrota o governador nomeado por al-Zubayr e reintegra a região a seus domínios. No entanto, quando o velho Califa retorna a Damasco e começa a preparar sua investida contra a península Arábia, morre, em conseqüência de sua avançada idade.

6.1.4 – Abd al-Malik (685 – 705):

A morte de Marwan não se torna nenhum grande problema, pois, justamente por ter assumido em idade avançada, o Califa havia pensado desde o princípio em homologar seu sucessor. E este era seu filho, Abd al-Malik.

Quando o novo Califa assume, o Império está dividido em dois: metade (Egito e Síria) sob seu controle e a outra metade (Arábia e Iraque) sob o poder do Anticalifa de Meca. Além dos problemas que isso acarretaria ao novo Califa, o Império Bizantino percebe que se trata de uma boa hora para reconquistar o que lhe fora tomado, sendo assim, inicia-se (pelo mar e pelo norte) uma forte investida Bizantina contra os domínios de al-Malik.

Se por um lado o Califa passava por um período difícil, com os Bizantinos tendo lhe tomado a Fenícia, penetrado na Armênia, reconquistado algumas regiões do norte da África e imposto pesados tributos; por outro, o Anticalifa também tinha sérios problemas. A al-Zubayr só restavam a Arábia e o Iraque, o ele residisse na primeira, entregou o governo da segunda a seu irmão, Musab.

Musab teve de enfrentar, radicado numa província que não lhe era totalmente leal, duros embates com Xiitas e Kharidjitas. Para os primeiros, surge um líder importantíssimo, al-Muhtar, que altera as orientações teológicas da seita. Em 685, al-Muhtar e seu general, Ibn al-Astar, tomam Kufa e continuam avançando, dominando cidade após cidade. O irmão do Anticalifa, no entanto, consegue vencer os revoltosos e recuperar Kufa. Com a morte de al-Muhtar, o general Ibn al-Astar se submete a Musab, em 687.

Enquanto o Anticalifa se fortalecia, ao vencer os revoltosos do Iraque, o Califa pensava numa maneira de interromper a seqüência de derrotas que lhe vinham sendo impostas. Decidiu, então, em 688, utilizar-se de uma "jogada de marketing" para combater o rival. Uma vez que é obrigação de todo Muçulmano peregrinar pelo menos uma vez na vida à Meca (estando livres apenas aqueles a quem faltam recursos), todos os que iam para Meca (capital do Anticalifa) podiam ser expostos à maquina de propaganda de al-Zubayr, sendo assim, o Califa proibiu seus súditos da Síria e do Egito de peregrinarem a Meca. Para compensa-los, utilizou-se das próprias palavras de Maomé, que se dizia o terceiro profeta (sendo o primeiro Moisés e o segundo Jesus). Dessa forma, a cidade sagrada de Jesus (Jerusalém) também poderia ser sagrada para Maomé e seus filhos, assim, o Califa construiu em Jerusalém, no local do antigo templo hebraico (destruído pelos Romanos e cujas ruínas constituem, hoje, o Muro das Lamentações) a Mesquita de Omar, mais conhecida hoje como O Domo da Rocha, destinada a ser o novo local de peregrinação Muçulmana, em substituição a Meca.

Aliada à tática da propaganda, Abd al-Malik investe em seus exércitos e, em 690, consegue derrotar o governador do Iraque e retomar a província. Com a retomada do Iraque, as províncias orientais, sobre as quais a autoridade de um Califa não se fazia sentir desde Yazid, foram reintegradas.

Cerca de um ano depois da retomada do Iraque, o general al-Hadjdjadj, aliado ao Califa, invadiu Meca e, matando o já idoso Anticalifa, reunificou o Império. A este general, como prêmio, foi entregue o governo da maior província do Império, o Iraque, que contava agora em seu território com as províncias orientais. Apesar do poder que proporcionava governar tamanha região, isto também constituía um problema, pois o Iraque, desde aquela época já era um verdadeiro "barril de pólvora" (e olhem que a pólvora ainda nem tinha sido inventada). O governador teve de enfrentar diversas rebeliões de Xiitas e Kharidjitas. Porém, a pior de todas as revoltas foi a de um general seu, Ibn al-Asat, que fora enviado para derrotar um Rei Turco (lembrem-se que os Turcos dessa época não viviam na Turquia atual, mas no Turquestão, uma região situada nas atuais Mongólia e China), mas que se aliou com este para derrotar o governador.

Esta revolta foi dificilmente apaziguada, o que fez com que o governador tomasse medidas drásticas: construiu uma nova capital para a província, muito mais fortificada do que Kufa, a cidade de Wasit e obrigou os recém convertidos ao Islã a pagarem tributo, como forma de impedir que conspiradores se convertessem só para se livrarem de impostos.

No tocante ao ocidente, o Califa organizou a retomada das regiões perdidas, entregou o comando das tropas daquela frente a Hassan al-Numan. O general avançou com muito êxito, com seu numeroso exército e, mesmo combatido pelos Berberes, conseguiu tomar Cartago, em 692.

Boa parte dos habitantes da cidade se refugiaram na Sicília (região pertencente ao Império Bizantino), o que fez com que a notícia chegasse rapidamente e com forte impacto a Constantinopla. Uma grande esquadra Bizantina, com muitos homens, foi enviada a Cartago e, em 697, ela foi retomada pelos Bizantinos. Os Berberes auxiliaram os Bizantinos e impuseram graves derrotas a al-Numan. Porém, o general não se deixou abater, reuniu novos contingentes e partiu contra as regiões das quais havia sido expulso.

Em 698, retomou Cartago, que foi inteiramente destruída, e Derrotou Kahena, a rainha dos Berberes. Esta região constituiria a província da Ifríqiya, e passaria a ser organizada pelo conquistador. O general investiu no desenvolvimento de um pequeno povoado (ao que parece muito antigo, de origem Fenícia), que existia nos arredores de Cartago. Este povoado se chamava Túnis e se tornaria a capital da província conquistada. Com o tempo, Túnis cresceu e ocupou o território onde um dia existiu Cartago.

Em 705, Abd al-Malik faleceu, mas deixou seu nome gravado para sempre na História, como sendo o homem que reconstruiu um Império que estava à beira do precipício, ou seja, como um dos maiores estadistas de todos os tempos.

6.1.5 – Al-Walid (705 – 715):
 
 

A Mesquita de Omayyad, na atual Síria, é a mais
antiga do mundo, tendo sido construída entre 705
e 715 sobre um templo grego do século I, que, 400
anos mais tarde foi transformado em igreja católica.
A morte de Abd al-Malik colocou no poder seu filho, Al-Walid, que, como rezava a tradição, já estava homologado como herdeiro antes da morte do pai. Seu governo foi marcado pelo apogeu militar da dinastia Omíada, nele, além dos Bizantinos terem sido definitivamente expulsos da Síria e da Armênia, as conquistas em sua frente tríplice foram retomadas a pleno vapor.

No Iraque, depois de apaziguadas as revoltas que duraram tanto tempo, iniciou-se uma marcha para o oeste que, entre 709 e 715, faria com que o Império alcançasse sua maior extensão naquela região. Partes da China e da Índia foram anexadas aos domínios Omíadas e o Turquestão teve que se converter ao Islamismo, além de se tornar parte do Império, com suas principais cidades (Bukhara, Kabul e Samarkanda) conquistadas.

O Império Bizantino teve de renunciar às investidas contra o outrora fragilizado Império Islâmico, pois precisava se defender das tropas veteranas que avançavam sobre ele. Por essa época, os Árabes tomaram Tiana, uma importante cidade do Império Bizantino.

Porém, foi na expansão rumo a ocidente que as maiores marcas militares do governo de Al-Walid se fizeram sentir. Musa ibn Nuçair (dito Musa) foi quem substituiu Hassan al-Numan no governo da Ifríqiya. Ele estava disposto a realizar duas obras: converter os Berberes ao Islamismo; e atingir o oceano Atlântico.

Em pouco tempo, entre 705 e 708, ambos os objetivos do governador estavam completados. Porém, apresentava-se agora, um terceiro objetivo, muito maior, muito mais difícil e, sendo assim, muito mais glorificante: dominar al-Andalus, a Espanha. Não narrarei aqui a conquista da Espanha, pois, dada a importância histórica de tal acontecimento, separei um item específico só para ele.

No que toca ao desenvolvimento sócio-cultural, o governo de Al-Walid também marca o apogeu da dinastia Omíada. Em outras palavras, podemos utilizar uma expressão clássica em História: Al-Walid "deitou na cama preparada por seu antecessor", Abd al-Malik. Em seu governo foram construídas várias mesquitas, em especial em Meca, Medina e Damasco. Além disso, as já existentes foram ampliadas. É o caso, por exemplo, de Damasco, onde a chamada Mesquita dos Omíadas, a mesquita símbolo da dinastia, tomou sua forma final, a forma que nos é apresentada hoje, se bem que com algumas partes em ruínas.

Talvez o único erro do Califa tenha sido a tentativa de "Arabizar" a administração Estatal, sendo assim, todos os Judeus e Cristãos que ocupavam cargos público foram demitidos. A curto prazo esta medida não acarretou grandes problemas, mas a longo prazo, os mais capazes começaram a ser preteridos por causa de sua religião e, sendo assim, o Estado se afundou na incompetência, que aliada a outras causas, ocasionou seu fim, trinta e cinco anos após a morte de Al-Waild, que ocorreu em 715.

6.1.6 – Sulayman (715 – 717):

Como Al-Walid não deixou descendentes, seu irmão, Sulayman, assumiu o trono para o qual já estava homologado.

O efêmero governo de Sulayman marca o início da decadência Omíada. Primeiramente, ocorreu a revolta de Kotaiba, general responsável por boa parte das conquistas efetivadas a oriente, sendo assim, este é morto pelas tropas Imperiais, em 715, mas esta frente se estagna e, muito mais, começa a regredir em tamanho.

Em segundo lugar, podemos levar em consideração a verdadeira "caça às bruxas" operada pelo Califa com o objetivo de exterminar os funcionários nomeados por al-Hadjdjadj, governador do Iraque, que falecera recentemente. Esta "caça às bruxas" foi realizada provavelmente porque estes funcionários eram suspeitos de terem apoiado a revolta de Kotaiba.

Além desses feitos, nada enobrecedores e, sobretudo, prejudiciais ao futuro do Império, o Califa realizou apenas um ataque mal sucedido a Constantinopla.

Sulayman morreu, em 717, sem deixar filhos.

6.1.7 – Omar II (717 – 720):

Omar II era primo de Sulayman e for a por ele designado como herdeiro. Ele é o único dentre todos os Califas Omíadas cuja memória foi poupada pela propaganda negativa que os Abássidas (depois de conquistarem o poder, em 750) fizeram da dinastia. Este fato se deve, possivelmente, ao fato de o Califa se aproximar da figura do Rei-filósofo que caracterizou os soberanos da dinastia Abássida.

Omar II teve um governo humanitário, tanto que gerou desobediências internas. Defendia a Islamização pacífica, o fim dos praguejos contra a memória de Ali (que eram realizados diariamente nas orações nas mesquitas) e uma humanização fiscal, operada através da redução dos impostos pagos pelos recém-convertidos.

O Califa defendia também o fim da expansão militar, isso porque alegava que o Estado não dispunha de recursos para sustentar-se num tamanho tão grande e com combates constantes. O soberano chegou ao extremo de exigir a redução das fronteiras do Império, com a desocupação do Turquestão, nisso ele foi desobedecido, pois os Árabes que ocupavam a região se negaram a abandona-la.

O governo de Omar II agravou ainda mais a crise que começava a se abater sobre o Império Islâmico. Isso porque se por um lado ele pensou em parar a expansão para não despender recursos e pessoal dos quais não dispunha, por outro, não compreendeu que, reduzindo os impostos, colocaria o Império numa crise fiscal profunda, uma vez que mesmo com os impostos antigos, ele já não estava conseguindo pagar o soldo de seus guerreiros e a pensão dos veteranos.

6.1.8 – Yazid II (720 – 724):

Quando Omar II morreu, também não deixou filho e, sendo assim, um outro filho de Abd al-Malik assumiu o governo. Era Yazid II.

Em seu governo, o novo Califa teve que enfrentar uma revolta muito severa de todas as regiões sob a jurisdição da cidade de Basra. O Califa enviou tropas para a região com o intuito de arrasar os revoltosos, e cumpriu seu objetivo, no entanto, exagerou, fez com que as mulheres e filhos dos envolvidos (mesmo sendo Muçulmanos) fossem vendidos como escravos. Esta atitude indignou a população do Império de um modo geral e os Iemenitas de um modo específico.

Como se não bastassem todos esse problemas, o Califa ainda teve que suportar a forte represália de Leão III, Basileu Bizantino (à partir de 716, o Império Bizantino passa a assumir cada vez mais um caráter Grego, sendo assim, até mesmo o título de Imperador (claramente Romano), é substituído pelo de Basileu, que na Grécia antiga significava Rei) que, barrou de uma forma quase definitiva os avanços Islâmicos rumo ao seu Império.

6.1.9 – Hisham (724 – 743):

Seu Califado, apesar de ser considerado por muitos historiadores como um dos mais imponentes da dinastia Omíada, na verdade foi responsável por mais um dos fatores (e um grande fator) de sua queda. Mais um filho de Abd al-Malik, Hisham não soube contentar os Berberes, que haviam se tornado um dos principais braços militares do Império. Este, apesar de terem tido importância crucial nas conquistas realizadas a ocidente, eram obrigados a pagar impostos, como se fossem cidadãos de segunda. Dessa forma, os opositores da dinastia, que já começava a ganhar força, souberam manipular os Berberes para que se revoltassem e colocassem Hisham em maus lençóis.

A revolta dos Berberes, que não precisaria ter ocorrido, demorou dois longos anos para ser abafada, mas no final das contas, acabou resultando em vitória do Califa. Porém, os Berberes permaneceram insatisfeitos com sua condição.

No plano das conquistas, apesar da derrota de Acroïnon, na Síria, frente o Império Bizantino; e apesar da expansão rumo ao oriente ter se estagnado; rumo a ocidente as coisas continuavam bem. A Espanha estava quase toda dominada (somente um pequeno número de Cristãos se refugiara no noroeste, região de Astúrias) e as tropas faziam avanços significativos em direção ao Reino Franco onde a moribunda dinastia Merovíngia, apoiada em seus Prefeitos do Palácio (espécies de Primeiros Ministros) não conseguia se defender muito bem. (Mais detalhes sobre a expansão Árabe na França no item sobre a Batalha de Poitiers).

6.1.10 – Al-Walid II (743 – 744):

Na verdade, este não foi um anos em que governou apenas um Califa, foi um anos em que governaram três: Al-Walid II, que por desprezar os costumes da fé Islâmica, acabou assassinada; Yazid III, que teve o mesmo fim; e Ibrahim.

Este último tentou iniciar governo de um modo normal, porém, foi derrotado por um parente, que liderava os veteranos do exército que, insatisfeitos com sua situação, queria depor o Califa.

6.1.11 – Marwan II (744 – 750):

Este sobrinho de Abd al-Malik, que na época estava com mais de setenta anos, assumiu o poder em uma época muito conturbada, de fato, todo o Império estava ruindo e o novo Califa precisou reconquistar diversas das regiões.

Logo no início de seu governo, Marwan II tem que pacificar a própria Síria, centro do Império e, por não se sentir seguro na capital, Damasco, transfere-a para Harran. Depois de pacificar a Síria, lança-se sobre o Iraque, na verdade, sobre toda a Mesopotâmia, sobretudo, sobre o Irã, que se via marginalizado no contexto do Império.

É justamente do Irã que emerge a família Abássida, que extrai seu nome de um tio de Maomé, al-Abbas. A família busca legitimidade em todos os lados, pois ao mesmo tempo em que alegam descenderem do tio do profeta, o que agrada aos Muçulmanos em geral, também dizem serem herdeiros de Ali, o que agrada aos Xiitas em específico.

Utilizando-se de Abu Muslim, um ardil orador, a família Abássida consegue reunir os crentes sob a promessa do surgimento da figura de um Imam, ou Califa, que, carregando o estandarte negro de Maomé, livraria o Islã dos Omíadas. A máquina de propaganda Abássida obtém resultados impressionantes, em especial nas regiões orientais do Império, ou seja, no Iraque, Irã e em Khorassan, uma parte do Irã.

O mais importante de toda esta mobilização é que, por ser motivada por um ódio nacional conjunto aos Omíadas, ela pode ser articulada secretamente, ou seja, sem que o Califa suspeitasse.

Em 747, Abu Muslim, empunhando o estandarte negro de Maomé (ou seja, encarnando em si a figura do salvador esperado) entra em Marw (antiga cidade do Império Persa, onde morrera Yazdgard, último soberano Sassânida), onde é carregado em triunfo. À partir daí, a revolução torna-se evidente, Marwan II ordena que Ibrahim (não é o mesmo Ibrahim que ele havia deposto, mas sim, o chefe da família Abássida) seja preso. Este, no entanto, tem tempo para avisar seus irmãos Abu al-Abbas e Gaffar, para que fujam.

Ambos se refugiam em Kufa, onde também são aclamados. Enquanto isso, Abu Muslim faz avanços importantes, arrastando o povo por onde passa. Os avanços de Abu Muslim forçam as tropas de Marwan II a recuar.

Em Kufa, Abu al-Abbas se proclama Califa, em plena grande mesquita, além disso, ele também se proclama al-Saffah, ou seja, "aquele que derrama sangue"; uma nítida declaração de que não iria poupar um só Omíada.

Marwan II tentou atacar as tropas revolucionárias, assim, dirigiu-se para a confluência dos Tigre e Zab al-Akbar, onde os exércitos travaram uma batalha memorável. As tropas de Marwan II foram derrotadas e este pôs-se a fugir. Perseguido de cidade em cidade, tal como havia acontecido com o último soberano Persa, Marwan acabou morto no Egito. Abu al-Abbas assumiu o governo, sem oposições, estava acabada a dinastia Omíada.

Porém, uma promessa ainda precisava ser cumprida, a de exterminar os membros da família Omíada. Para este fim, foi ordenado ao governador Abássida da Síria que convidasse todos os membros do clã Omíada para um jantar em Damasco. O motivo do jantar seria um pacto de boas relações entre os membros da antiga dinastia e os da nova. No entanto, durante o jantar, os oitenta Omíadas presentes foram mortos.

Um dos poucos sobreviventes do massacre foi Abd al-Rahman, que depois do ocorrido, fugiu em direção à península Ibérica, o al-Andalus e, antes que os Abássidas pudessem reorganizar o Império, fundou na região uma dinastia própria, dinastia essa que ficou conhecida como: os Omíadas da Espanha.

Depois do fim dos Omíadas, os Abássidas destruíram até mesmo a memória daquela dinastia, tendo vilipendiado o túmulo de quase todos os soberanos. É devido ao ódio que os Abássidas nutriam pelos Omíadas e ao fato de aqueles terem sido os responsáveis pela maior parte do que se sabe sobre o Império Islâmico que se tem a impressão de que os Omíadas foram realmente terríveis, quando na verdade, foram muito mais mitificados como terríveis, pelos Abássidas.

Apesar de tudo isso ter ocorrido quase sete séculos antes da vida de Maquiavel, pode-se dizer que os Abássidas deram um golpe perfeitamente Maquiavélico, pois em sua obra "o Príncipe", Maquiavel recomenda que a capital seja num lugar onde o soberano tem influência, ou num lugar de constantes revoltas, pois a presença firme do soberano no local inibirá os revoltosos (na verdade esta é apenas uma das recomendações de Maquiavel a esse respeito, ele também diz que o ideal para uma nação é que sua capital seja seu governante, ou seja, que a capital não seja um lugar físico, mas sim, esteja associada à figura do governante), que no caso de um golpe, a dinastia antiga seja totalmente extinta, para não oferecer perigos futuros e que, se possível, se governe com o apoio do povo e dos poderosos, para isso deve-se iludir o povo e agradar os poderosos. Acredito que não é preciso explicar muitas coisas, pois os Abássidas agiram exatamente da maneira descrita, inclusive com a construção de um nova capital, Bagdad, que, por se localizar nas margens do Tigre (sendo assim, no Iraque), estava ao mesmo próxima ao Irã, local de influência primaz da dinastia, como também no Iraque, local cujas revoltas constantes enfraqueceram a dinastia anterior. Dessa forma, os Abássidas recompensavam tanto Iranianos, quanto Iraquianos, pela ajuda dada na Revolução; e ainda por cima, mantinham os perigosos Kharidjitas e Xiitas sob constante vigilância.

6.2 – Djabal al-Tariq:

Certamente, o nome de Djabal al-Tariq (também conhecido como Tarif abu Zara) deveria ser muito mais conhecido do que é. Isto porque, este general Árabe foi um dos maiores conquistadores de toda a Idade Média. Seu nome não chega a rivalizar com o de um Carlos Mango, ou com o de um Justiniano, mas seus feitos retrataram bem o poderio militar Islâmico no primeiro quarto do século VIII.

Mas o que fez este general de tão importante? Bem, para nos situarmos na História deste homem, devemos nos lembrar que no final do governo de Abd al-Malik (685 – 705), os Berberes foram finalmente submetidos e convertidos ao Islã. Assim sendo, no início do governo de Al-Walid (705 – 715), serviram de braços para Musa ibn Nuçair, governador da Ifríqiya (região do norte da África, a oeste do Egito), em sua expansão rumo ao Maghreb (região onde hoje se situa o Marrocos). Entre 705 e 708, o governador realizou com sucesso esta expansão e, através dela, atingiu o oceano Atlântico.

O estreito de Gibraltar, que atualmente separa Europa e África, naquela época era conhecido pelo nome de Colunas de Hércules, pois, segundo a Mitologia Grega, o Semi-Deus teria, em sua passagem pela Espanha, separado os dois continentes que eram (segundo acreditavam os Gregos) unidos por uma montanha. Pois bem, as Colunas de Hércules separavam a Espanha do Marrocos e as cidades Africanas que mais se aproximavam da Europa eram Tânger e Ceuta (localizadas na parte Africana do estreito).

Com a chegada do Império Islâmico ao oceano Atlântico, estas cidades foram dominadas. No entanto, a situação de Ceuta era singular. A cidade era uma província da Hispânia (nome pelo qual os Romanos haviam batizado a península Ibérica), um Reino governado pelos Visigodos (um dos povos ditos bárbaros que, nos séculos IV e V, arrasaram o Império Romano); província esta que estava em litígio com a coroa Espanhola devido à situação em que esta se encontrava. Façamos então uma breve explicação da situação da Espanha naquela época.

A península Ibérica foi uma região há muito habitada, com uma população nativa que foi desde cedo submetida ao contato de povos estrangeiros, tais como Fenícios e, talvez, Celtas. Depois da Primeira Guerra Púnica, quando o Império de Cartago se enfraqueceu com a perda da Sicília, Córsega e Sardenha, os interesses da República Africana se voltaram para a região, sendo assim, foram fundadas cidades (como Cartagena), em especial na costa oriental da península. Depois da Segunda Guerra Púnica, os Romanos limitaram os domínios de Cartago à própria cidade, sendo assim, conquistaram a península Ibérica. À partir daí, o que houve foi uma guerra sangrenta entre Roma e os habitantes nativos e descendentes de Fenícios, Celtas e Cartagineses, que habitavam a península. Estes querendo manter-se livres de Roma, aqueles, querendo conquistar uma nova província. No início do século I a.C., a península Ibérica já estava conquistada e dividida em três províncias: a Lusitânia (mais ou menos onde hoje é Portugal, região que alegava ter habitantes descendentes dos Fenícios), a Terra Conense (costa oeste e centro da península) e a Bética (região sul). Estas três regiões compunham a Hispânia dos Romanos, da qual o célebre Marco Antônio foi governador (dito Propretor). Quando iniciaram-se as invasões "bárbaras" no Império Romano, a Hispânia foi invadida por um sem-número de povos, dentre os quais contavam os Bascos, os Suevos e Godos (os Godos Ocidentais, que ocuparam a Hispânia, receberam o nome de Visigodos, enquanto os Godos Orientais, que ocuparam a Itália, receberam o nome de Ostrogodos).

Dessa forma, três povos, principalmente, ocupavam a região quando da queda do Império Romano. Estes três lutaram entre si e, por volta do início do século VI, os Visigodos assumiram clara preponderância, apenas com uma pequena, mas imbatível, resistência dos Bascos na divisa com a Gália (atual França). No século VI, mais precisamente em 554, o general Belisarius, enviado por Justiniano, conquistou todo o sul da Espanha (passarei a me referir assim a toda a península, pelo fato de, na época, Portugal não existir). Essa ocupação, contudo, foi tão duradoura quanto o governo do Imperador, ou seja, muito breve, em 565, quando Justiniano morreu, os Visigodos iniciaram a retomada da região (que foi concluída em 624) e mantiveram seu Reino de uma maneira unitária, como era tradicional nas monarquias Góticas (dos Godos).

Depois desse breve resumo da História da Espanha, voltemos à época referida, ou seja, voltemos a 710 d.C.. Por essa época, a conquista do norte da África estava consolidada pelos Árabes e o governador de Ceuta, Juliano, que outrora fora fiel ao monarca Visigodo havia cedido seu apoio aos Árabes (apesar de ser Cristão). Mas por quê?

Bem, segundo consta, o Rei Witza, da Espanha, havia morrido e a seu filho, Áquila, não havia sido permitido assumir o trono; os nobres Visigóticos elegeram Rodrigo, um deles, para o trono. Segundo Juliano disse aos Árabes, ele odiava Rodrigo, pois este havia desonrado sua filha (filha de Juliano), que vivia na Espanha, sendo assim, queria vê-lo derrotado e humilhado.

Os Árabes, que já vinham atacando, por meio de navios, as costas da Espanha há muito tempo, viram nessa inimizade sua chance para invadir e anexar a região que eles conheciam como al-Andalus. Em junho de 711, Musa ibn Nuçair, o governador do norte da África, enviou à Espanha um exército composto por cem cavaleiros, quatrocentos guerreiros e sete mil Berberes. Os navios para o ataque foram fornecidos por Juliano, governador Visigótico de Ceuta.

Rapidamente, os Muçulmanos tomaram a cidade de Algeciras e os rochedos da costa (hoje conhecidos como Rochedo de Gibraltar). Depois disso, marcharam para Córdoba (uma grande cidade da Espanha).

O Rei da Espanha, Rodrigo, estava ocupado combatendo os Bascos, no norte, e demorou certo tempo para conseguir mobilizar seus exércitos para combater os invasores. Enquanto as tropas Reais não chegavam, Djabal al-Tariq assolava o sul da península.

Enfim, em 19 de julho de 711, o Rei Rodrigo finalmente alcançou a região onde os Árabes estavam e a batalha iniciou-se. Esta iria durar sete dias, ou seja, até o dia 26 e ser decidida pela inteligência do general Árabe.

Numericamente superiores e providos da motivação de defenderem seus domínios, os Visigodos estavam a ponto de derrotar os Árabes. Foi quando Tariq convidou dois irmãos do Rei Witza (o Rei que havia morrido), e fez com eles um pacto: se estes desertassem com suas tropas, seriam poupados e recompensados. Sendo assim, no dia 26, dia do combate derradeiro, as duas principais frentes da cavalaria Visigótica debandaram e os flancos do exército Espanhol ficaram desguarnecidos. Avisados de antemão que isso iria ocorrer, os Muçulmanos atacaram pelos flancos e trucidaram a infantaria Visigótica. Foi um massacre no qual tombou, inclusive, Rodrigo.

Ficando sem um Rei, a Espanha não conseguiu se reagrupar para a defesa e, sendo assim, em dois meses, Tariq havia conquistado totalmente o sul da Espanha e se preparava para marchar em direção ao centro.

Musa, na África, ao saber dos sucessos de seu general, reuniu um exército e desembarcou na costa leste da Espanha, sendo assim, havia agora duas frentes de invasão Muçulmana atacando a península. Os nobres Visigóticos que não haviam se deixado subornar pelos Mouros (nome pelo qual os Europeus, em especial os Espanhóis, chamavam os Islâmicos), começaram a ser exterminados e, ao procurarem auxílio nas cidades, não eram bem recebidos, pois os Judeus (que dominavam o comércio e, sendo assim, a vida urbana) estavam cansados das perseguições Cristãs impostas a eles pelos Visigodos e preferiam a liberdade de culto (mediante o pagamento de impostos) oferecida pelos conquistadores.

Dessa forma, os partidários de Rodrigo, agora sob o comando de Pelágio, foram se isolar nas montanhas do extremo norte da Espanha, onde, devido ao posicionamento estratégico, esperavam resistir ao extermínio da mesma maneira que os Bascos vinham fazendo contra eles. Formou-se assim, o primeiro dos Reinos Hispânicos pós-conquista Árabe: o Reino de Astúrias.

Entre 711 e 714, os dois generais Árabes conquistaram toda a Espanha, exceto o Reino e Astúrias, que devido à sua localização de difícil acesso, pode resistir e se tornar, mais tarde, no século IX, o berço da Reconquista da Espanha, reconquista esta que teve o apoio, militar e financeiro, de Carlos Magno (pelo menos em sua fase embrionária).

Quanto a Tariq, foi mais um dos conquistadores esquecidos de nossa História, só não foi totalmente esquecida porque, em homenagem a ele, foi erigida uma cidade (na parte Européia do estreito), e esta cidade foi batizada com seu nome, cujas corruptelas futuras tornaram Gibraltar, o mesmo nome com o qual foram rebatizadas as Colunas de Hércules, pois, se no passado o Semi-Deus havia afastado os perigosos Berberes da Europa por meio da separação dos dois continentes, agora, um general (que nada tinha de Semi-Deus) conseguia quebrar a vontade dele e impor a sua, em outras palavras, o Islã ganhava terreno dentro da Cristandade.

6.3 – A Batalha de Poitiers:

A conquista da Espanha não foi o ponto final da expansão ocidental Islâmica, que foi, sem dúvidas, a expansão que obteve os maiores êxitos, se bem que esses êxitos não perduraram, pelo menos em termos de religião, até os dias de hoje, como ocorreu com os das conquistas orientais.

Após a tomada da Espanha, que caiu de assalto em apenas três anos (711 – 714), os Muçulmanos continuaram marchando em direção ao coração da Europa e, se não tivessem tido as crises políticas internas pelas quais a dinastia Omíada passou (e que, como vimos, levaram à sua derrocada, em 750), talvez tivessem atingido Constantinopla, ou seja, talvez tivessem varrido a Europa assim como varreram o Império Persa e o norte da África.

Muitos acreditam que a lendária (digo lendária não porque não tenha acontecido, mais sim porque gerou muitos mitos em torno de si) Batalha de Poitiers, ocorrida em 732, próxima a cidade Franca de Poitiers, tenha colocado um ponto final na expansão Árabe rumo ao ocidente, mas tratasse de um ledo engano, isto porque, a Batalha nada mais foi do que um marco de ânimo para a Cristandade como um todo e para um homem em específico.

Falemos sobre este homem. Trata-se de Carlos Martel. Ele era o Prefeito do Palácio da França (ou Reino Franco, como é mais apropriado chamar a França antes de Hugo Capeto, que estabeleceu a cede da Monarquia em Paris e iniciou a dinastia Capetíngia) e, como deve-se saber, a França da época não era um país unitário, não porque fosse dividido em feudos (uma vez que o Feudalismo só se iniciou, realmente, depois de Carlos Magno, já que foi o monarca que lançou boa parte de suas bases), mas porque, devido ao costume dos monarcas Merovíngios (primeira dinastia da França após a queda do Império Romano) de dividirem seu Reino entre seus filhos vivos, havia três Reinos no território da atual França: a Borgonha, a Nêustria e a Austrásia.

Em cada um desses Reinos havia um Rei, porém, cada Rei escolhia um Prefeito do Palácio (algo semelhante a um Primeiro Ministro) para administrar sua região. Os Prefeitos do Palácio tinham poder total e a pesar de terem algumas restrições quanto a investidura de clérigos, eram os verdadeiros governantes do Reino Franco.

O enorme poder dos Prefeitos do Palácio contrastando com a insignificância dos monarcas Merovíngios fez com que começassem a existir verdadeiras dinastias de Prefeitos do Palácio. No século VII, Pepino II, Prefeito do Palácio da Austrásia, enfrentou e venceu Ebroin, Prefeito dos Palácios da Nêustria e da Borganha. Com essa vitória, ele unificou o título de Prefeito do Palácio e, sendo assim, entregou a seu filho Carlos (depois conhecido como Carlos Martel), o título de Prefeito do Palácio da França toda, o que correspondia ao poder absoluto no país.

Em 732, depois de cansar de ver o Reino Franco ser devastado por reides Árabes, Carlos armou uma emboscada para os invasores. Esta ocorreu nas proximidades da cidade de Poitiers, uma importante cidade da França Medieval. Lá, o Prefeito do Palácio saiu vitorioso, a primeira vitória significativa dos Francos contra os Árabes.
 
 

À partir dessa vitória, Carlos soube fazer uma propaganda enorme, que lhe rendeu o apelido de Martel (ou seja, o Martelo que defende a França contra os invasores infiéis). Graças a seu apelido, Carlos Martel passou a ser amado pela população e, sendo assim, seu filho, Pepino, o Breve, pode, como Prefeito do Palácio, depor os monarcas Merovíngios e se declarar (com o consentimento do Papa e sob a promessa de que iria, a exemplo de seu pai, defender a Cristandade contra os Árabes e, além disso, expulsar os Lombardos (povo "bárbaro") da Itália, pois este estavam ameaçando a soberania do Papa) Rei da França. Com Pepino, o Breve, se inicia a dinastia Carolíngia, que, ao contrário do que muitos pensam, não deve seu nome a Carlos Magno (filho de Pepino, o Breve e, com certeza, um dos maiores, senão o maior nome da História Medieval), mas sim a Carlos Martel, que possibilitou o fortalecimento de Pepino.

Apesar da derrota fragorosa que sofreram em Poitiers, onde o próprio Abd al-Rahman al Gafiqi, governador de al-Andalus, morreu, os Islâmicos continuaram suas investidas contra o Reino Franco e, em 735, tomaram Avignon e Arles, de onde caminharam, tomando várias cidades, até Lyon, que ficou em seu domínio até 759, quando Pepino, o Breve, retomou as regiões ocupadas pelos Árabes na França e impediu novas incursões destes em seu Reino.

É verdade que sobre os Abássidas, os Árabes continuaram atacando a Europa e dominando regiões, além de, como veremos, terem mantido sua presença na Espanha até 1492. 


Imagem espanhola de 1870,
representando a visão do europeu
sobre o árabe violento

Porém, podemos arriscar dizer que sob os Omíadas os Árabes representaram para a França (em menor grau, é claro, principalmente devido ao tempo), aquilo que entre os séculos IX e XI, os Vikings representariam para a Inglaterra, ou seja, um enclave permanente em seu território.
 

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