Introdução
Preâmbulo da Península Arábica
Caaba, uma união sincrética
Maomé, um profeta revolucionário
O período dos quatro Califas (Rashidun)
O Califado Omíada
A Revolução Abássida
O Islamismo
As Sombras do Império
Bibliografia

7 – A Revolução Abássida:

Acredito que muitas coisas mudaram no Império Islâmico depois da ascensão dos Abássidas ao poder. Primeiramente, como pode-se perceber, até aqui o Império havia sido um Império Árabe e, porque não, um Império do Hedjaz e da Síria, sendo que os Muçulmanos das demais regiões nunca haviam sido considerados como iguais pelas elites dominantes. Sendo assim, só não chamo o Império construído pelos seguidores da religião de Maomé de Império Árabe, justamente porque sob os Abássidas, o Império perde esse caráter e, ao contrário, ganha, cada vez mais um caráter Persa.

Sob a nova dinastia, ocorrem diversas transformações em diversos campos do Império. Primeiramente, deve-se notar que, enquanto os Omíadas laicizaram o Estado, os Abássidas retornaram à Teocracia orginal, aliás, a Teocracia Abássida era muito mais real do que a dos Califas Ortodoxos. Os Califas dessa dinastia realmente se consideravam homens acima da média, que haviam sido escolhidos por Allah para governar não só o Império, mas também a vida de todos os Muçulmanos. Sendo assim, Esta dinastia retomou para o Califa o título de Sumo Pontífice Islâmico.

Justamente pelo fato de os Abássidas se considerarem os donos da verdade Islâmica é que as perseguições contra todos aqueles que não seguissem exatamente a Sunna do Profeta, ou seja, todos os não Sunitas, seriam perseguidos implacavelmente, tanto por meio de armas, quanto através da propaganda do Estado.

Porém, os Abássidas não foram de todo ruim, eles tinham uma grande preocupação com a humanidade, por isso, tentavam de todas as maneiras tornar todos os Muçulmanos iguais, ao contrário dos Omíadas, que não se preocupavam com o bem estar do povo. Foi sob esta dinastia que foram produzidos os principais legados do mundo Árabe: obras literárias, como "As mil e uma noites"; Mesquitas gigantescas, túmulos igualmente majestosos; a tradução das antigas obras Gregas (Platão, Aristóteles, Sófocles, Aristófanes, Tales, Arquimedes, Pitágoras, Homero...) que estavam perdidas na memória Européia, mas que foram resgatadas pelos Árabes através da memória Persa, mantida devido à helenização da Ásia proporcionada por Alexandre, o Grande; dentre outras grandes façanhas.

No campo da política, os Califas Abássidas criam um novo cargo: o Vizir. Este é, a exemplo do Prefeito do Palácio, do Reino Franco, uma espécie de Primeiro Ministro Islâmico que, à medida que os Califas vão se ocupando mais e mais da cultura e da religião, tornam-se os responsáveis pela administração política e militar do Império.

A dinastia também é marcada pelo início da fragmentação do Império, com a criação de um governo (mais tarde Califado) Omíada na Espanha e, com a independência das tribos Berberes do norte da África. Além disso, a capital do Império é mais uma vez alterada, inicialmente se centra em Kufa e depois, passa para Bagdad, uma cidade construída justamente com o intuito de ser a nova capital do mundo Islâmico, sendo a herdeira de Ctesifonte (antiga capital do Império Persa (se bem que o Império Persa tinha quatro capitais: Ctesifonte, Pasárgada, Persépolis e Susa)) e da gloriosa, porém esquecida, Babilônia.

7.1 – O refúgio Omíada na Espanha:

Quando iniciou-se a dinastia Abássida, com o governo de Abu al-Abbas, os Omíadas, como já foi dito, foram perseguidos. Boa parte deles foi exterminada de uma só vez no fatídico jantar em Damasco. Porém, alguns membros da família resistiram ao massacre, mas perceberam que sua permanência dentro dos domínios do novo Califa (que se denominara o caçador do sangue Omíada) seria impossível.

Observando que, devido às conjunturas presentes no conturbado início da nova dinastia, os Abássidas não desfrutavam de um controle pleno sobre as províncias do ocidente; Abd el-Rahman, o último sobrevivente do clã Omíada, fugiu para al-Andalus (a Espanha), em 756.

Lá, ele obteve boa receptividade das populações e, sendo assim, pode se instalar em Córdoba, onde se proclamou Emir (espécie de governador soberano, ou seja, muito superior aos meros governadores de província do Império, pois tinha total autoridade sobre a região na qual governava). Estava fundado o Emirado de Córdoba, uma região que, justamente por pertencer aos Omíadas, não aceitava o domínio Abássida e que constituiu o primeiro grande racha dentro do Império Islâmico.

Abd el-Rahman fundou, assim, a dinastia Omíada da Espanha, um prolongamento da dinastia que havia governado o Império Islâmico entre 661 e 750. O Emir contava não só com o apoio das populações Espanholas convertidas ao Islamismo, mas também com o apoio dos Bascos que, apesar de Cristãos, preferiam manter boas relações com os Árabes do que se submeterem aos ataques dos demais Reinos Cristãos.

Em 778, a Espanha foi atacada por Carlos Magno que, como parte de seu acordo com Harun al-Rachid (Califa Abássida que, como veremos, mantinha um pacto com o Rei Franco) pretendia exterminar os Omíadas da Espanha. Carlos Magno foi ajudado por Ibn el-Arabi, antigo governador de al-Andalus, que, quando os Omíadas chegaram, se refugiou em Saragoça, de onde pretendia reconquistar seus domínios, ajudado pelo soberano Franco.

Com a ajuda dos Bascos, o Emir Omíada trucidou as tropas de Carlos Magno e, destruindo Ibn el-Arabi, obteve a hegemonia de toda a antiga Espanha Visigótica (exceto do Reino de Astúrias (onde haviam se refugiado os Visigodos) e da região dos Bascos (que por meio de um tratado no qual se comprometia a ajudar os Omíadas a defender suas fronteiras contra invasões Francas, permaneceu livre)).

No entanto, para Carlos Magno, a expedição não foi um completo fracasso pois, apesar da morte de Rolando, o Marquês da Bretanha (região da França, não confundir com a Britânia, ou Inglaterra), o Rei Franco conseguiu estabelecer uma Marca (região fronteiriça muito fortificada e sob a autoridade de um Marquês) na fronteira entre a França e a Espanha. Dessa forma, Carlos Magno não só preparara uma região militarizada pronta para desfechar um novo ataque contra a Espanha Muçulmana, como também estabelecia uma zona tampão entre os Mouros e seu Reino.

Tudo corria muito bem para os Omíadas durante o governo de Abd el-Rahman, porém, depois de sua morte, em 788, quando seu filho Hisham assumiu o poder, iniciou-se um conturbado período de guerras civis na Espanha, período esse que perduraria por quase um século e que permitiria o fortalecimento dos Reinos Cristãos (Bascos e Reino de Astúrias) do norte, foi, de fato, o início da Guerra de Reconquista.

No conturbado período que se seguiu à morte de Abd el-Rahman, o Reino de Astúrias se expandiu e, em 840, quando conquistou a cidade de Leão (León, em Espanhol), transformou-se no Reino de Leão. Em 860, ao redor da cidade de Pamplona, os Bascos estabeleceram um Reino, o Reino de Navarra. Estes dois Reinos persistiriam durante muitos tempo até se fundirem (juntamente com outros que passariam a existir), no século XVI (mais precisamente em 1516), para formar a monarquia Espanhola.

Com o tempo, foram surgindo outras regiões soberanas Cristãs, no norte, como por exemplo, o Condado de Castela, que se estabeleceu em 960, na cidade de Burgos (talvez a mais fortificada de toda a Espanha, por isso o nome do Condado). Barcelona, que outrora integrara a Marca de Carlos Magno, também se tornou um Condado independente e, apesar de estar quase sozinha no alto da costa leste (quase na divisa com a França), se manteve independente dos Islâmicos.

No final do século IX, os Omíadas conseguiram pacificar e reunificar seus domínios, porém estes eram agora bem menores do que os originais (o norte estava quase todo nas mãos dos Cristãos). Como nessa época, como veremos, o Império Islâmico já se encontrava em franca desintegração, os Omíadas, em 929, resolveram desfechar um duro golpe contra o Califa Abássida. Abd el-Rahman III, proclamou-se Califa de al-Andalus, sendo assim, Nem mesmo o título de Califa era mais um privilégio da dinastia Abássida que, como veremos, não possuía mais muitos poderes políticos.

O Califado Omíada da Espanha persiste até 1031, quando entra em colapso ao ser derrotado pelas tropas de Al-Mansur (um conquistador vindo do norte da África). À partir dessa data, com a quebra de uma autoridade Islâmica central na Espanha, surgem diversos Emirados Muçulmanos (chamados Reinados de Taifas), que se afundam em guerras fratricidas por uma maior obtenção de territórios. Essas guerras entre os Mouros da Espanha faz com que os Reinos Cristãos do norte se fortaleçam e, sendo assim, a Guerra de Reconquista ganha força. Muitos autores chegam a considerar que ela se inicia, de fato, em 1031. Porém, a esses autores jogo a seguinte pergunta: Reconquista não quer dizer reconquistar? Então, se os Reinos Cristãos estabelecidos no extremo norte da península Ibérica iniciaram a reconquista de territórios ocupados pelos Muçulmanos por volta de 790, por quê dizer que a Guerra de Reconquista só se inicia em 1031? Só porque os combates passam a ser mais favoráveis aos Reinos Cristãos após essa data? Ou será que talvez seja para que a velha teoria sobre as Cruzadas (de que seriam necessariamente, em todos os casos, uma forma de eliminar o excedente populacional Cristão da Europa, excedente esse que começou a ser registrado com a crise feudal do século XI) não caia por terra?

7.2 – Os Califas Abássidas e as transformações culturais:

A dinastia Abássida foi, em termos de duração, muito maior do que a Omíada. Esta última durou de 661 a 750, enquanto a nova dinastia iria durar de 749 (pois foi estabelecida antes mesmo da derrocada final dos Omíadas) até 1258. Porém, apesar de terem se perpetuado por 509 anos, contra apenas 89 dos Omíadas, os Abássidas só exerceram poder sobre o Império efetivamente falando, até 809, porque depois, como veremos, o Império entra num ritmo tal de esfacelamento que se torna impossível dizer que ainda constitui um Império, sendo muito mais apenas mais um dos Reinos Islâmicos, Reino este cuja única importância residia no fato de que seu soberano se considerava e era considerado por muitos, como o Sumo Pontífice do Islamismo.

Justamente por causa da fragmentação acelerada ocorrida à partir de 809 é que estudaremos apenas os cinco primeiros Califas da dinastia, pois como avisei na Introdução de meu trabalho, ele não se remete a estudar a colcha de retalhos que se tornou o mundo Islâmico depois do colapso da autoridade centralizada no Califa de Bagdad.

7.2.1 – Abu al-Abbas al Saffah (749 – 754):

Abu al-Abbas, como vimos, foi o líder da revolução após a prisão de Ibrahim. Ele se declarou o caçador do sangue dos Omíadas e seu ódio a essa dinastia foi tão grande que ele dedicou boa parte de seu governo a destruir os Omíadas sobreviventes. Justamente por causa disso, o Califa não se deu conta de que perdera as regiões do norte da África, nem de que o governador de al-Andalus (Espanha) permanecera leal aos Omíadas e que, dessa forma, alguns sobreviventes do massacre operado pelo Califa se dirigiram para a Espanha, onde, inacessíveis, puderam continuar sua dinastia.

Apesar de odiar os Omíadas, al-Abbas retomou algumas práticas de Uthman, o primeiro Omíada, ou seja, retornou ao nepotismo. Na realidade, o novo Califa distribuiu cargos público, em especial governos de províncias, entre seus parentes, para poder enraizar definitivamente a dinastia que estava nascendo.

Talvez a mais vil e desprezível atitude do Califa, no entanto, tenha sido caçar muitos daqueles que o haviam apoiado em sua ascensão ao poder. Por exemplo, os Xiitas, que foram de fundamental importância na jornada militar contra as tropas Sírias de Mawan II, passaram a ser perseguidos, visto que o próprio Califa era Sunita e, como tal, não permitia outra interpretação do Alcorão que não fosse a oficial.

7.2.2 – Abu Dja’far al-Mansur (754 – 775):

Apesar de ter sido o segundo Califa da dinastia, al-Mansur é considerado por muitos como o verdadeiro fundador dela, isto porque foi ele quem lançou as bases daquilo que a caracterizaria durante sua existência.

O Califa, que iniciou seu governo na cidade de Hasimiyya, para onde al-Abbas havia transferido a capital (que inicialmente era Kufa), logo percebeu que não estava seguro o suficiente e que precisaria construir, de fato, uma nova capital. Dessa maneira, ordenou a construção, nas margens do Tigre, de uma cidade que, quando ficou pronta, em 762, foi chamada de Bagdad (em Iraniano, Doada por Deus).

Além da construção de Bagdad, o governo de al-Mansur foi marcado por uma duríssima repressão a seus opositores, pela instituição do cargo de Vizir e pela adoção de muitas medidas tanto Bizantinas, quanto Persas no sentido de modernizar o governo.

No tocante à repressão às revoltas e aos que lhe podiam ameaçar a autoridade, o Califa foi cruel. Ordenou a prisão e morte de Abu Muslim, o homem que possibilitou a vitória Abássida, além disso, assassinou seus dois tios que almejaram o Califado quando da morte de al-Abbas. A repressão aos cultos religiosos também impiedosa neste governo. Além dos Kharidjitas, que já eram perseguidos naturalmente (e sob cujas atuações falarei ainda neste item), o Califa exterminou os Rawandiyya, uma seita que acreditava que ele próprio (o Califa al-Mansur) fosse o messias, sendo assim, queriam venera-lo.

Os Kharidjitas incitaram uma revolta que tomou praticamente toda a África do norte (sobre a qual os Abássidas ainda não tinha voltado a atenção e que se mantinha levemente independente, com os Berberes agindo por conta própria). Estes religiosos criaram na região um Estado que foi destruído pela ação rápida do Califa, entre 770 e 771. Porém, a região além do Egito nunca mais esteve sob a autoridade inconteste dos Abássidas.

Quanto às modernizações introduzidas pelo Califa, consistiam na adoção de algumas instituições Bizantinas (modificadas ao bel prazer dos Muçulmanos) e na ressurreição do sistema de correios do Império Persa, através do qual, o Califa esperava se manter informado rapidamente de tudo o que acontecia e, assim, evitar o que aconteceu a Marwan II.

Finalmente, a criação do cargo de Vizir servir para retirar do Califa algumas obrigações que ele não estava interessado em ter. Para tal cargo, al-Mansur escolheu Barmak. Este cargo, que era para ser apenas um apoio ao Califa e, dessa maneira, escolhido por cada novo Califa na hora em que desejasse, passou a constituir uma dinastia própria, pois todos os Vizires passaram a ser escolhidos dentre os membros do clã Barmékida, o clã de Barmak.

7.2.3 – Al-Mahdi (775 – 785):

Depois da morte de al-Mansur, que morreu em peregrinação a Meca, seu filho Al-Mahdi assumiu o título de Califa. Na verdade, seu governo foi muito bom e também facilitado pelo fato de seu pai o ter deixado a situação política estável e os cofres cheios.

No tocante às revoltas, o novo Califa só precisa reprimir uma grande revolta de seguidores de Abu Muslim (depois da morte deste, surgiu um culto que cria em sua volta, pois ele era considerado santo, uma vez que empunhou o estandarte de Maomé contra os Omíadas) que, em 778, tomaram a Transoxiana (região além do rio Oxo, que foi, durante muito tempo uma barreira natural à expansão Árabe, barreira esta só vencida em 705). No entanto, apesar dos reveses iniciais sofridos pelas tropas Imperiais, em 780, os revoltosos foram derrotados e seu líder, al-Muqanna (o profeta velado, pois nunca havia mostrado o rosto) se suicida.

Foi no governo de al-Mahdi que Bagdad se consolidou como o verdadeiro "umbigo da Ásia", visto que não só era o centro do Império que governava a maior parte do continente, como também havia se tornado a mais importante cidade comercial do mundo, sendo o centro onde se encontravam as mercadorias vindas do ocidente e do oriente. Porém, a orientalização da capital fez com que os assuntos do ocidentes fossem deixados cada vez mais em segundo plano.

O Califa teve dois filhos, Musa e Harun, ambos com uma mesma escrava. O segundo era o preferido da mãe e, por isso, esta fez com que o Califa o nomeasse seu sucessor. Musa, o filho mais velho, não aceitou a decisão do pai e decidiu desafia-lo para um duelo. O Califa, que era um exímio guerreiro, aceitou, mas acabou tombando diante de seu primogênito.

7.2.4 – Musa al-Hadi (785 – 786):

Depois de matar o pai, Musa assume o poder, porém, seu governo é tão efêmero quanto o dos últimos Califas Omíadas. Passa-se menos de um ano até a morte do novo Califa, possivelmente por envenenamento e, também possivelmente, a mando do irmão.

7.2.5 – Harun al-Rachid (786 – 809):
 

A expansão Abássida do século VIII ao fim do IX

Este é, com certeza, o mais famoso dentre todos os Califas do Império Árabe. Sua fama se deve a sua exaltação na obra "As mil e uma noites". Nela, o Califa é retratado como um homem bom e virtuoso, que passeia pelas ruas de Bagdad, disfarçado e em companhia de Jaffar, seu Vizir. Ambos têm em mente observar as necessidades da população e assim, serem melhores governantes.

Na realidade, isto tudo não passa de estória, pois Harun al-Rachid foi, talvez, o mais tirânico dentre todos os Califas que já governaram o Império Islâmico. Seu Vizir (que não se chamava Jaffar, mas sim Yahya), era quem governava o Império realmente e o Califa só intervinha quando estava tomado por ódio e, sendo assim, causava alguma destruição muito grande.

Rachid passava a maior parte de seu tempo entre as mulheres de seu numeroso harém e as bebidas (nas quais era viciado). Quando se preocupava com assuntos políticos, geralmente se tratava de reprimir alguma revolta, ou culto.

No entanto, é no governo de Rachid que se pode encontrar indícios de maior contato Islâmico com o mundo Europeu ocidental. Isso porque, segundo diversas fontes Européias, o Califa teria enviado e recebido embaixadas (repletas de presentes) a Carlos Magno, Rei da França e, para alguns, o fundador do Sacro Império Romano-Germânico. Essas embaixadas tinham razões políticas claras e úteis para ambos os monarcas, pois se por um lado Carlos Magno (que não se considerava Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (o qual estudarei futuramente em um outro trabalho)), mas sim Imperador Romano (no que há uma grande diferença) e que, portanto, queria anexar aos seus domínios a parte oriental do Império Romano, ou seja, o Império Bizantino. Em contrapartida, Harun al-Rachid que a ajuda do soberano Franco para exterminar os Omíadas da Espanha, sendo assim, as relações diplomáticas entre ambos eram boas, inclusive, talvez o início da Reconquista, que foi patrocinado por Carlos Magno, tenha sido realizado devido a algum pacto deste, com Harun al-Rachid.

Por sua parte, o Califa também procurou manter o acordo, atacou constantemente o império Bizantino, durante o governo da Imperatriz Irene. Neste período, conseguiu fundar uma colônia militar em plena Ásia Menor. Graças a essa colônia, Irene se sentia compelida a pagar volumosos tributos ao Califa para que este não atacasse seus domínios.

Consta que, quando Irene morreu, em 802, e foi substituída pelo Basileu Nicéforo I, este se recusou a continuar com os pagamentos, além de exigir a restituição do que havia sido pago por Irene. A isso, Harun al-Rachid respondeu com a seguinte carta: "Bismillah, em nome de Allah, da parte de Harun, príncipe dos crentes, a Nicéforo, cão Romano. Li tua carta, ó filho de mãe infiel. A resposta, teus ouvidos não ouvirão; teus olhos vê-la-ão". Deste dia em diante, Harun ordenou ataque constantes às possessões Bizantinas e, em pouco tempo, os Árabes haviam conquistados Tiana, importante cidade da Ásia Menor e, estavam a caminho de Cesaréia. Assim sendo, Nicéforo foi obrigado a pagar tributo a Harun por duas vezes, em 803 e em 806.

No tocante à cultura, realmente o governo de Harun al-Rachid foi magnânimo, ao que parece, durante os anos em que governou, Bagdad foi repleta de poetas, pintores, escultores e outros artistas. É muito possível que a figura de Rachid em "As mil e uma noites" tenha sido construída propositalmente para homenagear o soberano que tanto fez pela arte. Pode-se, inclusive, considerar o governo de Rachid como sendo o apogeu cultural do Império Islâmico.

Por fim, é interessante que se note que Yahya, o Vizir (que era pai de Jaffar, amigo pessoal de Harun, mas não o Vizir), não dispunha de poderes ilimitados, mas foi o grande responsável pela manutenção dos domínios Islâmicos e pelas campanhas contra o Império Bizantino. Porém, talvez um dia Harun tenha se irritado com Jaffar, o fato é que este foi executado e retalhado em pedaços que foram expostas nas pontes de Bagdad, enquanto seu pai foi preso nos calabouços do palácio do Califa. Isso demonstra muito bem o temperamento do Califa, que se exaltava facilmente e que era muito cruel quando o fazia.

Porém, nem só de crueldades, cultura e glória viveu o governo deste Califa. Foi nele que o Império Islâmico perdeu definitivamente o norte da África. O Califa, como forma de agradecimento pela reconquista da região, entregou, em 799, ao seu governador, Ibrahim bem al-Aghlab, o título de chefe hereditário da província de Ifríqiya, residência dos Berberes (os melhores guerreiros do Império). A única coisa a qual estava obrigado o novo governante, era a pagar tributo ao Califa.

Com esse desmembramento, a África do norte saíra das mãos do Império, pois a Ifríqiya tornara-se independente (estabelecendo a dinastia dos Aglábidas) com esta doação e, no Maghreb (região banhada pelo oceano Atlântico), os Kharidjitas, após tantos anos de revoluções, haviam finalmente desenvolvido um Estado independente e, no Marrocos, os Álidas (uma dissensão dos Xiitas) haviam fundado seu Estado autônomo. Só restara ao Império, na África, o Egito.

Apesar de toda a desintegração que estava ocorrendo, as coisas ainda ficaram piores quando o Califa morreu e dividiu o Império entre três de seus filhos: al-Amin, al-Mamun e al-Qasim. Os três lutaram incessantemente até só restasse Al-Mamun, que governou o Império à partir não de Bagdad, mas de Marw. Este tentou uma aproximação com os Xiitas, inclusive nomeando seu Imam como seu sucessor no Califado. Porém, a morte do Imam fez com que desistisse da aproximação. Data de seu governo a construções, em Bagdad (quando de seu retorno para lá) daquela que foi talvez a primeira Universidade Medieval (entenda-se que não se tratava de uma Universidade segundo os conceitos Europeus, ou seja, não era semelhante às que iriam surgir na Europa do século XII), construída em 827.

Se por um lado o governo de Al-Mamun representou o prolongamento do apogeu cultural, com a construção da Universidade de Bagdad, por outro caracterizou mais um desmembramento do Império, pois no Khorassan, província de onde os Abássidas tiraram sua força inicial, surgiu uma dinastia, os Tahíridas, muito semelhante, na formação, aos Aglábidas da Ifríqiya.

Depois de sua morte, em 833, Al-Mamun foi sucedido por seu irmão, Al-Mutassim. Este governou com a ajuda de mercenários Turcos (Berberes e Eslavos também serviram como mercenários, mas os Turcos formavam o corpo da milícia) que, pelo menos inicialmente, demonstraram ser totalmente fiéis ao Califa. Porém, este optou, por segurança, em abandonar Bagdad (para onde seu irmão havia retornado depois de tê-la abandonado) e, sendo assim, transferiu a capital para Samarra. A transferência da capital fez com que o povo retirasse dos Abássidas qualquer apoio que ainda lhes desse.

Al-Mutassim foi sucedido, em 842, por seu filho al-Watiq e este, foi sucedido, em 861, por seu irmão al-Matawakkil. Este último além de não readquirir o apoio do povo, ainda fez pior, julgou o Mutazilismo (doutrina Islâmica à qual al-Mamun havia se convertido e tornado oficial do Estado) como herético, em 849, sendo assim, perdeu o apoio dos Mutazilistas, que compunham àquela época a elite do Império. Ainda por cima, este Califa acentuou as perseguições a Judeus e Cristãos obrigando-os a utilizar roupas com identificações, para que assim, pudessem ser humilhados por todos.

Se por um lado a dinastia Abássida havia dado um golpe totalmente Maquiavélico (como já expliquei, Maquiavel ainda não havia existido, mas os preceitos que ele prega em "o Príncipe" podem ser notados em diferentes épocas da História anterior a sua existência, tanto que o próprio Maquiavel utiliza-se de fatos históricos ao longo de sua obra para justificar o que esta dizendo, sendo assim, "o Príncipe" nada mais é do que uma análise crítica da História Geopolítica anterior a Maquiavel), por outro, havia se perdido e se afundado nos principais problemas que Maquiavel vê num governo; ou seja, havia não só perdido o apoio tanto do povo, quanto dos poderosos (o que Maquiavel diz é que, se possível, deve-se governar com o apoio de ambos, o que a dinastia tinha no princípio, mas caso contrário, deve-se fortalecer o lado que o apóia, ou seja, se os poderosos o apóiam, governe oprimindo o povo, e se o povo o apóia, demonstre isso aos poderosos a todo momento para que, temendo uma revolução, eles o respeitem), com também havia passado a recorrer a tropas mercenárias que, segundo Maquiavel, por não terem nenhum vínculo exceto o monetário, com o governante, não hesitariam por um só momento em abandona-lo num momento crucial.

E foi quase isso que aconteceu, os Turcos, passaram a ser as principais figuras do governo Imperial, pois este dependia deles para se manter (uma vez que, era mantido agora, sem apoio, única e exclusivamente através da força). Sendo assim, os Turcos começaram a se achar os donos do poder e, em 861, ajudados por um dos filhos do Califa, mataram-no. À morte do Califa Al-Mutawakkil, segue-se um período de grande instabilidade que leva à desintegração total do Império e ao surgimento de um número cada vez maior de regiões independentes. Aliás, em teoria, o Império continua existindo e o Califa a exercer certo poder, porém, à medida que o tempo passa, os Turcos, sob o título de Vizires, se tornam os verdadeiros mandatários do Império que está esfacelado.

7.3 – A Fragmentação do Império:

A fragmentação do Império, ou seja, da autoridade central no mundo Islâmico, se iniciou com o começo da dinastia Abássida. Essa dinastia parecia, no entanto, que reergueria as glórias militares Islâmicas, alcançadas durante o ápice da dinastia Omíada. Porém, com vimos, não foi bem isso o que aconteceu, após a morte de Harun al-Rachid, o maior dentre todos os Califas, o Império entrou num período de esfacelamento muito rápido. Esse período foi marcado pelo surgimento de diversos Emirados, cada um dos quais com sua própria dinastia Reinante.

Talvez a mais famosa dentre essas dinastias tenha sido a Fatímida, que seguiam uma tendência extremista do Xiismo, o Ismailismo. Estes fanáticos, depois de iniciarem sua expansão, em 893, estabeleceram um Califado (depois de aberta a porta pelos Omíadas da Espanha, os Fatímidas também se atribuíram o título de Califa) no Egito, em 969, e este perdurou até 1171.

Além dos Fatímidas, outras diversas dinastias estalaram em diversas partes do antigo Império, como os Qarmatas, na Arábia; os Rhaznévidas, no Irã; os Hamdânidas, na Armênia; os Sulaihidas, no Iêmen; os Safáridas, no Irã; os Samânidas, próximos ao Turquestão; os Tulúnidas, no Egito, antes dos Fatímidas. Além de muitas outras dinastias, como eu disse, o mundo Islâmico se tornou, após o colapso do Califado Abássida, uma verdadeira colcha de retalhos e, o que é pior, em constantes alterações, tanto que se torna quase impossível dizer exatamente quando e onde se estabeleceu cada um dos Estados.

Há, pois, uma crescente preponderância dos Turcos dentro do contexto do antigo Império. Eles emergem inicialmente como mercenários, mas em pouco tempo começam a mandar de fato no Império chegando mesmo a nomear Califa Abássidas (os quais faziam de fantoches) para legitimar seu poder político. Como veremos no item "As Sombras do Império", os Turcos foram os que mais se aproximaram de ser os herdeiros do Império Islâmico e foram os responsáveis diretos pela decisão do Papa Urbano II, em 1096, de pregar a Primeira Cruzada.
 

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