Introdução
Preâmbulo da Península Arábica
Caaba, uma união sincrética
Maomé, um profeta revolucionário
O período dos quatro Califas (Rashidun)
O Califado Omíada
A Revolução Abássida
O Islamismo
As Sombras do Império
Bibliografia

8 – O Islamismo:

Como já fiz menção no início do trabalho, antes de Maomé iniciar sua pregação, os povos Árabes (e nisto estão englobados não só os povos da península Arábica, mas também os Sírios e os Mesopotâmicos) estavam entregues a diversas religiões. Algumas nos são até hoje conhecidas, tais como o Zoroastrismo (ou Mazdaíso, do Império Persa), o Judaísmo e o próprio Cristianismo. Porém, além dessas religiões grandes; dentre as quais figurava também o Maniqueísmo; e bem difundidas, havia também os adeptos de diversas seitas, religiões e cultos de menor expressão, por toda a Arábia.

Uma característica comum a boa parte, senão a todos, desses cultos era o politeísmo. Acompanhava essa tendência politeísta, um fenômeno (provavelmente influência dos Judeus radicados na região) de intenso "profetismo", ou seja, a cada dia surgiam mais e mais profetas que pregavam alguma nova doutrina, ou mesmo a vinda de um messias.

Como já fiz menção, os Coraixitas de Meca fizeram sua fortuna exatamente centralizando na Caaba as principais divindades de todas essas religiões. Divindades essas que tiveram suas imagens destruídas, em 630, por Maomé.

Convém, no entanto, que apresentemos algumas das principais divindades Árabes pré-Islâmicas para que, além de conhece-las, possamos perceber sua influência sobre Maomé, na criação da nova fé.

Os Beduínos cultuavam, principalmente, divindades animistas, ou seja, criam em elementos da natureza (tais como árvores, lagos...) como sendo divindades. Sua crença é perfeitamente explicável pela própria forma de vida dos Beduínos, uma vez que, como eram nômades, um oásis podia representar para eles a diferença entre a vida e a morte, sendo assim, seus elementos eram sagrados. Porém, além das divindades animistas (que fique claro que o termo animista é nitidamente pejorativo, no entanto, fiz uso dele devido à falta de um termo melhor), eram também cultuadas as deusas Al-lat, Al-Uzza e Manat, filhas de um deus mais importante, cujo nome referirei mais adiante.

Em Palmyra e Petra, podia-se observar o culto de antigas divindades Fenícias, os Baal. A rigor, essa palavra quer dizer senhor, e na Fenícia, também designava aqueles que portavam altos cargos. Porém, existiam diversos Baal, dos quais, o mais célebre se tornou Baal-Zebbul, cuja corruptela do nome hoje nos dá o famoso Belzebu, ou seja, o Diabo. A associação da figura do Diabo Judaico-Cristão, com essa antiga divindade, dá-se pelo costume que seus adoradores tinham em montar os chamados poços de sacrifícios, onde eram sangrados e depois arremessados toda a sorte de animais e, vez por outra, uma criança pequena.

Nas outras regiões Árabes, eram adorados diversos deuses astrais, principalmente o Sol e a lua que, de forma antagônica ao culto que era feito na antiga Mesopotâmia (se bem que os nomes dessas divindades fossem praticamente os mesmos, o que caracteriza, necessariamente, uma influência daquele culto nos cultos Árabes), os sexos das divindades era oposto, ou seja, na Babilônia, o Sol era masculino e a Lua feminina, enquanto que na Arábia, ocorria o inverso. Para os Babilônios, o planeta Vênus era feminino, enquanto para os Árabes, era masculino.

É curioso notar que, em boa parte desses cultos (mesmo, talvez no culto aos Baal, visto que este já não era mais o culto Fenício original, mas sim, havia se transformado ao longo do tempo) havia uma divindade comum que, em boa parte das vezes, se sobrepunha às demais. Essa divindade era Allah (o pai das três deusas Beduínas). Sendo assim, é perfeitamente explicável que Maomé, por influências Judaico-Cristãs, tenha aceitado o monoteísmo e, assim sendo, associou como figura divina, o nome do principal deus que conhecia, ou seja, Allah. Dessa forma, Allah não era para Maomé apenas mais um deus, mas sim, o Deus.

Dado este primeiro passo, o profeta passou a assimilar a sua crença, diversos elementos Judaico-Cristãos, como a noção de inferno (a Gehenna dos Árabes), de paraíso e até mesmo a santidade de alguns homens, como Moisés, Abraão e o próprio Jesus.

É interessante que os Muçulmanos aceitaram facilmente a santidade de Jesus, aceitaram até mesmo o fato deste ter (supostamente) nascido de uma mulher virgem. Porém, em nenhum momento consideraram-no como sendo o Cristo, ou seja, o ungido de Deus, o escolhido. Da mesma forma que não criam que Jesus fosse o escolhido, pois para os Muçulmanos, Maomé é o profeta definitivo, abominavam ainda mais a idéia da Santíssima Trindade, na qual Pai (Deus, que para os Judeus e Cristãos tem o nome de Jeová, ou mesmo Javeh), Filho (Jesus) e Espírito Santo estariam unidos numa única figura, ou seja, Jesus Cristo.

Para eles, a idéia da Santíssima Trindade constitui uma enorme heresia, pois gera a crença em outro ser supremo que não seja Allah e, sendo assim, o politeísmo.

Por todas as semelhanças entre o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, muitos Historiadores (especialistas em religiões) não consideram as três como religiões diferentes, mas sim, como ramos distintos da mesma fé. Se nos aprofundarmos um pouco no estudo das religiões, veremos que o Cristianismo surgiu do Judaísmo e este, por sua vez, teria tido, em suas raízes, profundas influências do Zoroastrismo (influências prováveis devido às semelhanças entre e ambas e devido ao fato da religião Persa ser mais antiga que a Judaica), datadas da época do Êxodo. Devido a todas essas semelhanças, podemos dizer duas coisas:

1ª) De um ponto de vista racional, as três religiões; Judaísmo, Cristianismo e Islamismo; seriam braços dissidentes de uma mesma religião inicial: a religião Persa (que não era o Zoroastrismo, mas que foi reformada por Zoroastro, por volta de 700 a.C.). Levando-se em conta o fato de que o surgimento das religiões, segundo estudos antropológicos comprovam, foi devido à observação dos fenômenos da natureza e, conseqüente tentativa de explicá-los. Pode-se concluir que, na verdade, nenhuma dessas religiões está correta, visto que todas as religiões que pressupõe uma divindade estão, necessariamente equivocadas, pois, à medida que a ciência caminha e que mais mistérios são desvendados, torna-se cada vez mais provável que um dia tudo poderá ser explicado cientificamente e, dessa maneira, não serão mais necessários deuses, pois todos eles estarão mortos. Assassinados pela ciência. Aliás, só para completar, talvez a própria cúpula das religiões já esteja convencida disso (e há muito tempo), pois isso explicaria claramente todos os entraves colocados, por exemplo, pela Igreja Católica, aos avanços da ciência (na Idade Média era pecado dizer que a Terra era redondo, hoje é pecado fazer clonagem humana). Será que tudo isso não é apenas uma tentativa desesperada e inútil, por parte do clero, de manter as migalhas de poder que o mundo ainda lhe reserva? Será que a clonagem humana não seria a prova do homem para ele mesmo de que não foi realmente Deus quem o criou, como dizem as religiões? Reflita!

2ª) De um ponto de vista crédulo, podemos dizer que Maomé estava realmente certo, pois, se acreditarmos nas palavras de todos os profetas das grandes religiões ocidentais (excluindo assim as religiões do Extremo Oriente), o Judaísmo teria sido criado a partir de novos ensinamentos divinos, ensinamentos que, através dos Dez Mandamentos, reformulariam as crenças Persas (os Semitas, como queiram) pré-existentes. Posteriormente, a vinda de Jesus Cristo e as conseqüentes lições de Amor que este deixou teriam reformado as crenças Judaicas e, por fim, as revelações de Deus a Maomé, teriam completado (pelo menos por enquanto) a linha de revelações divinas. Sendo assim, o profeta fundador do Islamismo estaria certo em todas as suas afirmações e o Islamismo seria, necessariamente, a mais perfeita manifestação da vontade de Deus.

Para tornar minha análise mais sucinta e específica, terminarei aqui as digressões pessoais e me aterei apenas a enumerar os principais dogmas do Islamismo, além fazer algumas referências sobre passagens do Alcorão que retratam uma clara preocupação do profeta Maomé em unir o povo.

Primeiramente, devo me remeter a explicar por o livro Alcorão tem este nome e também porque a religião se chama Islã, ou Islamismo.

Responderei, em primeiro lugar, a segunda questão. Islã é uma palavra Árabe que significa rendição, sendo assim, é Islâmico todo aquele que se rende à palavra e à vontade de Allah. Islamismo é o emprego da palavra Islã, com a terminação ocidental "ismo", que se remete a designar algo semelhante à designação nipônica "do", ou seja, caminho, via; dessa forma, Islamismo é o caminho da rendição, caminho que todo o Muçulmano tem que percorrer corretamente para ser salvo por Allah e escapar da Gehenna (inferno), no final de sua vida.

Quanto à segunda questão, Alcorão vem do Árabe al Qur’ân, que quer dizer "A Leitura". Esse nome remete-se ao sonho que Maomé teve com Allah, no qual o Deus lhe apresentou um pergaminho e ordenou: "Leia!", e o profeta leu mesmo sem saber ler.

Muitos lingüistas defendem que o livro deveria se chamar, em português, Corão, visto que a designação "al" quer dizer "o". Porém, outros refutam essa palavra com a seguinte afirmação. Existe uma tendência na língua portuguesa em "importar" as palavras Árabes segundo o seu som e não segundo o seu significado, sendo assim, palavras como Alfândega, Algodão, Alquimia, Almíscar, Álgebra, Alferes, Alambique, Alcaide e até mesmo Arroz e Açúcar; não foram traduzidas segundo seu significado, caso contrário, seriam algo como a Fândega, o Godão, a Quimia, o Míscar, a Gebra, o Feres, o Lambique, o Caide, o Roz e o Sucar. Como a tendência que defende a forma Alcorão tem mais respaldo teórico (como os exemplos mostraram), é mais comumente encontrada a forma Alcorão, sendo que a forma Corão, apesar de não usual, não está errada.
 

A Grande Mesquita de Meca, com a Caaba ao centro
A vida e os costumes Árabes passaram, desde Maomé, a serem ditados pelo Alcorão. Porém, o próprio Maomé dizia que: "É uma blasfêmia atribuir este Alcorão a outro, que não Deus. Ele é a confirmação do que o procedeu e a elucidação do Livro incontestável do Senhor dos mundos". Segundo o Alcorão, todos os Muçulmanos têm cinco obrigações básicas: 1 – orar diariamente com a cabeça voltada para Meca; 2 – doar esmolas aos pobres; 3 – jejuar no mês do Ramadã (mês lunar, do calendário Árabe, sagrado); 4 – peregrinar a Meca pelo menos uma vez na vida (dessa obrigação estão livres aqueles que dispuserem de recursos; 5 – difundir a fé (essa obrigação deu origem à Jihad, ou Guerra Santa, pois se tratava da guerra, com a bênção divina, contra aquele que não aceitassem a fé Islâmica).

Dentro dessas cinco obrigações, pode-se constatar pelo menos duas que foram incluídas pelo profeta: jejuar no Ramadã e difundir a fé.

Peregrinos dão sete voltas ao redor
da Caaba, que já foi reconstruída
inúmeras vezes
A primeira é explicada devido ao fato deste mês ser o mês das secas e, conseqüentemente, da fome, dessa forma, se o Muçulmano estiver jejuando, ele não acreditará que está passando fome por condições que lhe são inatingíveis, mas sim por vontade própria. Já a difusão da fé é uma preocupação do profeta para que, com sua morte, a religião não se estagnasse.

As outras três podem ser divididas da seguinte maneira: duas de caráter religioso real e uma de caráter altruístico. O caráter religioso é demonstrado na peregrinação à Meca e na oração diária. Já o caráter altruístico (de ajuda ao próximo, também pode ser dito, caráter humanitário) pode ser visto na obrigação de doar esmolas aos pobres.

Além dessas obrigações, as principais, diversas outras obrigações menores compõem a complexa e rígida moral Islâmica. 

São obrigações nitidamente colocadas no livro por alguém (talvez Maomé, talvez Uthman, quando publicou o texto único do livro, exterminando as diversas versões concorrentes) que intentava regular a vida da população de uma forma indiscutível, ou seja, legitimando suas ordens como sendo vontade de Deus. Dessas obrigações constam coisas como não comer carne de porco (algo que faz muito mal à saúde de quem vive em regiões áridas), ser asseado (para evitar doenças), além de punições divinas (respaldadas pelo Alcorão) a crimes humanos, como o roubo, o adultério, o assassinato... Todas essas punições, sempre podem ser evitadas, bastando que o criminoso se arrependa diante de Allah. O Muçulmano deve ser piedoso.

A compilação das Sunnas (tradições) Árabes, no Alcorão, por Maomé, serviu para dar aos povos Árabes um caráter unitário e, dessa forma, por fim às dissensões internas. Depois da morte de Maomé, as Sunnas do Alcorão (referidas nele próprio como Sunnas de Allah), passaram cada vez mais a ser conhecidas como Sunnas de Maomé, ou Sunna de Maomé. No entanto, esse conjunto de tradições se mostrou incompleto com o passar do tempo e, sobretudo, à medida que os Árabes se expandiam e assim, entravam em contato com povos não Árabes. Justamente devido a essas lacunas do Alcorão, criou-se no mundo Islâmico a tradição dos Hadith, ou seja, homens que ditavam a maneira mais adequada de se agir frente às situações sobre as quais o Alcorão nada mencionava. Esses Hadith eram verdadeiros Oralistas e, sendo assim, estudavam o Alcorão a fundo e, baseados nesses estudos e nas tradições orais passadas ao longo do tempo, davam seu parecer sobre como agir.

8.1 – Um Império de Fé:

Talvez este seja o item mais importante do trabalho, isto porque é nele que pretendo expor meu pensamento sobre o Islamismo. É simples, o Império Islâmico se iniciou com um objetivo missionário pregado por Maomé. Em suas raízes (ainda na época de Maomé e depois, sob Abu Bakr), ele uniu povos cujos interesses e cultura eram semelhantes, sendo assim, cuja união seria facilmente conquistada apesar do histórico de independência dos povos Árabes.

No entanto, a medida em que a expansão do Império foi caminhando, especialmente sob Uthman, os povos abraçados por ele já não tinham mais os mesmos interesses dos Árabes do Hedjaz, de Hadramaut, do Iêmen, da Síria e do Iraque (regiões que primeiro foram conquistadas e, sobre as quais me referi no início do trabalho como sendo habitadas por povos Árabes), eram povos que já haviam estado sob a égide de outros Impérios e Reinos e que, por isso, se habituaram com certa facilidade a integrar o Império que surgia. É notório que os Omíadas desempenharam um papel fundamental no Império,aliás, não só para o Império, mas para o Islamismo em si.

Hoje, as regiões onde o Islamismo é professado como religião oficial correspondem exatamente às regiões ocupadas pelos Omíadas e, em alguns casos, ao seu prolongamento natural, como é o caso de regiões distantes da Ásia. É claro que não podemos deixar de levar em consideração a importante presença do Império Otomano (também chamdo de Império Turco) que, durante séculos, dominou vastas regiões a leste da Europa. Porém, exceto na Espanha, onde os Reinos Cristãos foram vitoriosos e impuseram pela força das armas a eliminação do Islamismo, nas outras regiões Omíadas, esta ainda é a religião dominante. Não é a toa que o Islamismo conta hoje com mais de um bilhão de fiéis sendo, individualmente, a maior religião do planeta (o Cristianismo tem mais adeptos do que o Islamismo, porém, estes estão divididos entre o Catolicismo, a Igreja Cristã Ortodoxa, o Espiritismo e as seitas ditas Evangélicas ou Protestantes).

O forte trabalho missionário dos conquistadores Islâmicos se fez possível porque juntamente com a religião (que juntamente com o Cristianismo é a maior religião missionária do mundo), os conquistadores levavam sua língua, que se tornou a oficial e obrigatória em todo o Império, e sua tolerância aos cultos locais. A mesma coisa não acontecia com os povos Cristãos que se expandiam, pois estes impunham sua fé de maneira compulsória aos povos dominados (quem nunca ouviu falar no massacre da Saxônia, operado por Carlos Magno, onde o Rei matou todos os Saxões que se recusaram a se converter ao Cristianismo? E olhem que Carlos Magno, juntamente com Luís IX, o São Luís, são considerados os dois maiores Reis Cristãos da Idade Média).

Diga-se de passagem, a tolerância foi um dos principais trunfos dos Muçulmanos e, talvez, o que tenha tornado possível sua conquista, pois estes obrigavam os não Muçulmanos a pagar pesados impostos, mas não os matavam, como faziam os Cristãos. É curioso notar que os Islâmicos demonstravam maior intolerância contra os Muçulmanos não Sunitas (Kharidjitas, Xiitas e seguidores de outras seitas) do que contra os não Islâmicos, estes, só estavam obrigados à tributação, não eram considerados traidores, uma vez que nunca haviam jurado fidelidade aos dogmas de Maomé. A tolerância proporcionava uma fácil aceitação do domínio Islâmico por parte das populações que possuíam recursos para pagar os tributos que lhes seriam cobrados (foi o caso dos Judeus das cidades Espanholas que, por serem perseguidos pelos Visigodos Cristãos, demonstraram grande receptividade aos Muçulmanos, vistos como salvadores).

Fundamentalmente, o Império Islâmico não foi o Império de um povo, mas sim de uma religião e é apenas por isso que, até hoje, os povos Islâmicos possuem uma certa noção de interesses comuns, uma vez que, são ligados por uma mesma religião, religião esta que os incumbe de propagar sua fé a todo custo, sendo assim, em algumas ocasiões podemos ver povos de países diferentes se unirem em torno de um objetivo comum, ligado à religião, como nas vezes em que, no século XX, uma Liga dos Povos Árabes foi reunida para combater Israel (um país Judeu incrustado no meio do Oriente Médio).
 

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