Introdução
Preâmbulo da Península Arábica
Caaba, uma união sincrética
Maomé, um profeta revolucionário
O período dos quatro Califas (Rashidun)
O Califado Omíada
A Revolução Abássida
O Islamismo
As Sombras do Império
Bibliografia

9 – As Sombras do Império:

As Sombras do Império foram, as diversas tentativas (não necessariamente conscientes) de se reunificar o Império Islâmico, além disso, também podem ser consideradas como a irradiação do Islã por diversas outras regiões (até os Mongóis chegaram a se converter ao Islamismo, e este finalmente invadiu a Europa através do Império Bizantino), o que caracterizou, mais ainda, o final do caráter Árabe da religião de Maomé. De Árabe só restaria o idioma oficial.

Dentro do que mais merece ser mencionado pode-se, com certeza, incluir os povos Turcos, ou seja, com origem no Turquestão. Os Turcos eram tão heterogêneos quanto os Árabes pré-Islâmicos, mas assim como esses, também detinham muitas características comuns que foram as responsáveis por sua consciência os considerar a todos Turcos.

Como vimos, eles se tornaram mercenários dos Califas Abássidas e, dentro de pouco tempo, seu único sustentáculo. Sendo assim, os Turcos começaram a ocupar o cargo de Vizires e a mandar, de fato, muito mais do que o próprio Califa. Em 932, os Buwayhidas, uma família Xiita do Irã, invadiu Bagdad e dominou-a, expulsando os Turcos, sendo assim, o Califa Abássida passou a ser controlado pelos chefes dessa família, inclusive, o líder dos Buwayhidas foi designado pelo Califa como sendo "O Chefe dos Emires" (Há que se compreender que, apesar da fragmentação, o Império Árabe ainda continuava inteiro, pelo menos em teoria, visto que o Califa era seu líder máximo, o que acontecia era que os Emires, chefes regionais, desempenhavam políticas totalmente autônomas e só concediam ao Califa (no caso do Emir ser Sunita) as honras de Sumo Pontífice do Islã), sendo assim, esse título implicava em que os Buwayhidas fossem os verdadeiros comandantes (pelo menos em teoria) político-militares do Império (é sempre bom lembrar que, a presença dos Califados da Espanha e do Egito significava que, nessas regiões o Califa Abássida não era sequer considerado chefe religioso pois, elas próprias constituíam-se em Teocracias. Na prática, a diferença entre um Emir e um Califa é que o primeiro é apenas um governante temporal (político) e o segundo, além de também poder ser um governante temporal, é, sobretudo, um governante espiritual). Quando foram expulsos de Bagdad, os Vizires Turcos conquistaram a Síria e organizaram, em 935, a dinastia dos Ikchiditas que, no entanto, só resistiu até 969.

Essa situação perdurou até 1055, quando um grupo de Turcos nômades, os Seldjúcidas, atacou Bagdad e derrotou os Buwayhidas. O líder dos Seldjúcidas, Toghrul-Beg, então, foi nomeado pelo Califa como Sultão, o que correspondia a uma separação definitiva entre os poderes temporal e religioso, ficando o primeiro a cargo do Sultão e o segundo nas mãos do Califa.

Por serem Sunitas, os Seldjúcidas combateram o Xiismo, que havia se tornado dominante no período de governo dos Buwayhidas, mas, no entanto, seu feito mais importante foi, sem dúvida a vitória na Batalha de Manzikert.

Esta batalha, travada na Ásia Menor, contra o Império Bizantino, constituiu no início do fim deste. Aparentemente, foi apenas uma vitória heróica conquistada por um grupo, os Seldjúcidas, que apesar de estar em franca minoria, lutava de forma coesa e apaixonada, sobre um grupo enorme, o exército Bizantino, e heterogêneo, formado por mercenários de diversas partes do Império que, na hora do combate, foram incapazes de obedecer corretamente um comando central e, por isso, acabaram fragorosamente derrotados. Porém, foi muito mais do que isso, pois permitiu aos Turcos conquistarem as planícies da Anatólia (ou Ásia Menor), ou seja, a Armênia e a Capadócia, região vital para a sobrevivência do Império Bizantino, uma vez que era de lá que ele retirava a maior parte de seus gêneros agrícolas e também, os cavalos para seus cavaleiros. Sendo assim, sem a Anatólia, o Império Bizantino viu-se obrigado a importar cavalos para poder manter uma cavalaria, o que encarecia este tipo de tropa, essencial nas guerras Medievais, e limitava o exército Bizantino, à partir de 1071, quando ocorreu a batalha, mais e mais a apenas infantarias e tropas de arqueiros, impotentes contra as cavalarias Muçulmanas.

É importante notar a atuação dos Sultões Seldjúcidas, em especial Alp Arslan, filho do primeiro Sultão. Eles, com efeito, sediados na cidade de Isaphan (próxima a Bagdad), recriaram o Império Islâmico, porém, agora em três frentes diferentes e com um caráter primordialmente Turco. As três frentes de expansão Seldjúcida eram respectivamente: a Anatólia; a Síria e o Irã.

A Síria foi reconquistada aos Emires independentes que lá haviam se instalado, no Irã, ocorreu o mesmo e a Anatólia, por sua vez, depois da Batalha de Manzikert, foi pouco a pouco sendo ocupada pelos Seldjúcidas até se tornar realmente o novo Turqustão (há que se notar que a Turquia de hoje nada mais é do que a própria Anatólia, ou Ásia Menor).

A derrota do Basileu Romano IV na Batalha de Manzikert provocou profundo abalo no Império Bizantino. Inicialmente, foi a dinastia dos Ducas (a qual o Basileu pertencia) que caiu, em seu lugar entrou Nicéforo III, que percebendo a situação delicada em que se encontrava, começou a pensar em uma reaproximação com o ocidente (digo reaproximação porque desde 1053, com o Cisma do Oriente (separação entre a Igreja Católica, com sede em Roma, e a Igreja Cristã Ortodoxa, com sede em Constantinopla), que as relações entre Constantinopla e o resto da Europa estavam estremecidas). Esta reaproximação foi executada, no entanto, quando Aleixo I, o Basileu que assumiu, em 1081, requisitou ao Papa Urbano II o envio de uma força militar de apoio na guerra contra os Muçulmanos. O Papa aceitou o pedido (principalmente porque sua condição, a reunificação das duas Igrejas, foi aceita pelo Basileu) e, em 1095, no Concílio de Clermont, pregou a Cruzada com a desculpa de reconquistar Jerusalém, que se via nas mãos dos Muçulmanos.

A Primeira Cruzada, realizada entre 1096 e 1099, foi realizada, portanto, com o intuito de auxiliar o Império Bizantino na medida em que abria uma nova frente de combate contra os Turcos. Porém, ela só obteve sucesso (reconquistou Jerusalém, Belém, Nazaré e outras cidades, além de estabelecer Reinos Cristãos na Palestina) devido a fragmentação política dos Seldjúcidas decorrente da morte do Sultão Malik-Chah, em 1095. Este dividiu seu Império em três partes: a Síria, a Anatólia e a Pérsia, ficando todas independentes umas das outras, constituindo as duas últimas, Sultanatos próprios e a primeira estando dividida em dois Reinos.

Os Seldjúcidas entraram em decadência à medida que mergulharam na descentralização e sua queda foi precipitada quando, em 1258, os Mongóis, liderados por Hulagu, tomaram Bagdad e depuseram o último Califa Abássida, al-Mustasim. Os reides Mongóis, que se haviam iniciado no final do século XII, destruíram o Sultanato da Pérsia (o Irã) e depois o centro do antigo Império. Somente a Anatólia permaneceu sobre a autoridade Turca, porém não apenas Seldjúcida. O domínio Mongol, estabelecido ao longo de toda a Ásia através dos diversos Canados (forma de administração cujo líder máximo é um Khan, tal como Gengis Khan, uma espécie de Rei, mas que vive de forma militar), facilitou, no final do século XIII e início do XIV, a ascensão, na Anatólia, de uma tribo Turca que tomaria o nome de seu fundador, Otaman (que governou seu povo entre 1299 e 1326). Este povo dito Otomano, iniciou a construção de um Sultanato que, à partir de meados do século XIV já impressionava pela força e que, em 1453, depois de já estar irremediavelmente incrustado na península Balcânica, foi capaz de tomar Constantinopla pondo um ponto final ao Império Bizantino (que a esta época se resumia única e exclusivamente à sua capital), renomeando-a como Istambul e, colocando assim um ponto final naquilo que é conhecido como História Medieval.

Os Otomanos continuariam sua expansão até o século XVI, e nela conquistariam todas as regiões costeiras entre a Grécia e o Marrocos, ou seja, a Anatólia, a Palestina, o Egito e todo o norte da África. À partir de meados do século XVI, as regiões mais distantes do Império Otomano (que era governado por um Sultão) começam a agir de forma independente e, no início do século XIX, quando Napoleão toma o Egito, a soberania dos Otomanos passa a ficar muito restrita. Essa situação só se agravaria, com a perda, em meados do século XIX, da Hungria. O Império resistiria ainda à Primeira Guerra Mundial, mas depois dela, se tornaria tão fragilizado que, em 1922, abdicaria de sua condição Imperial para formar a atual Turquia, uma República (a República foi proclamada em 1923), cuja capital é Ankara.

9.1 – Legados Culturais:

São incontáveis os legados dos povos Árabes Medievais para a humanidade, dessa forma, não seria possível para mim, que sou apenas um leigo, enumera-los ou tão pouco estuda-los todos. Cabe, no entanto, à responsabilidade a qual me incumbi, enumerar alguns dos legados culturais mais importantes dessa "Civilização" (coloco o termo entre aspas pois não creio ser o mais adequado para definir povos tão distintos que têm em comum apenas a religião, a língua e a arquitetura, mesmo essa última, com muitas variantes) magnífica.
 

A religião é incontestavelmente, o legado mais importante dos Muçulmanos, pois, no mundo, hoje, como me referi, mais de um bilhão de pessoas é adepta do Islamismo, religião que não só rege seus espíritos, mas que também, por seu forte código de moral e ética, rega suas vidas.

Podemos citar a Matemática como ciência revolucionária do Islã, mas aliada a ela vêm também a Física, a Química (e por que não a Alquimia) e a Astronomia.

No campo da Literatura, muitos poetas Árabes adquiriram renome no mundo, mas nenhuma obra supera em grandiosidade "As mil e um noites".


Conjunto da Mesquita de Sherazade, construída
entre 1544 e 1548, em Istambul. Exemplo de
Mesquita Otomana.

Uma aliança entre a literatura, a Alquimia e cultos antigos fez com que florescessem no mundo Islâmico Medieval homens como o Persa Omar Khayyam (não confundir com o falso guru brasileiro que, em 2000, enganou muitas pessoas sendo, inclusive, convidado a ministrar palestras na conceituada Unicamp), astrônomo, matemático, poeta e, segundo consta, uma espécie de Mago, ou seja, um homem aprofundado nas ditas Ciências Ocultas.

As artes Islâmicas tinham, em sua maioria, temas religiosos, mas havia também um pequeno número de obras profanas (não religiosas), de grande qualidade.
 

A arquitetura Islâmica é impressionante e, ao longo do tempo, foi se aprimorando. Hoje, da época Omíada nos restam muito poucas coisas, mas as mais impressionantes são a Caaba (cuja última reconstrução data de 696), a Mesquita dos Omíadas, em Damasco e o Domo da Rocha, em Jerusalém. Já do período Abássida, a mais imponente obra é, sem sombra de dúvidas, a própria cidade de Bagdad, cidade que, terminada em 762, marca o apogeu cultural do mundo Islâmico Medieval.

Outro exemplo de Mesquita Otomana. Vista geral da Mesquita
Sumaimaniye, em Istambul, contruída entre 1550 e 1557

Não se pode esquecer da importância da compilação dos textos gregos de autores há muito perdidos na Europa. Essas compilações foram possibilitadas devido ao contato com regiões que fizeram parte dos antigos reinos helenísticos (estabelecidos após a morte de Alexandre, o Grande). Elas tiveram participação direta e fundamental (inclusive, arrisco dizer que este não teria ocorrido sem a influência dessas obras resgatadas pelos Muçulmanos) no Renascimento, iniciado no século XIV, especialmente na Itália, e continuado nos séculos XV e XVI.

Além desses grandes legados culturais, outros legados também devem ser levados em conta. A expansão Árabe, além de restaurar o comércio oriental com o ocidente, relembrou aos Europeus que este existia. Com efeito, os Muçulmanos foram responsáveis pelo resgate do ideal grego de que o mundo era redondo; esse ideal, por si, foi o inspirador de muitos pensadores Europeus e, inclusive, do navegador Italiano Cristóvão Colombo que, em 1492, acreditando que o mundo era realmente redondo e que iria, saindo da Espanha, chegar à Índia, descobriu a América.

9.2 – Legados Tecnológicos:

É claro que quando se lembra que os Árabes re-introduziram na Europa os textos Gregos há muito esquecidos, pode-se pensar que isso seja um legado tecnológico Árabe, porém, não se pode conceber dessa maneira, pois os textos Gregos constituem muito mais legados culturais do que tecnológicos.

Como legados tecnológicos (se é que tecnologia é a melhor palavra para o que irei descrever) do mundo Islâmico Medieval, podemos enumerar principalmente duas coisas: os algarismos arábicos e a pólvora.

Os primeiros, revolucionaram a matemática e são, seguramente a forma mais perfeita de representação numérica já inventada. Além de contarem com a noção do zero, noção inexistente nos algarismos romanos utilizados até então, contavam com dez símbolos (0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9), proporcionando uma escrita muito mais simples dos números do que os sete símbolos romanos (I, V, X, L, C, D e M). É claro que a Matemática, por si só, é uma Filosofia e, como tal, deve ser incluída na seção de Legados Culturais, mas os algarismos são uma nova tecnologia.

A pólvora, talvez tenha sido a mais impressionante e importante contribuição tecnológica do mundo Islâmico para o mundo. Aliás, se pensarmos sobre a importância da pólvora na História da Humanidade, veremos que, talvez, ao lado do fogo e da roda, ela seja a invenção mais revolucionária de todos os tempos. A pólvora foi o veículo que possibilitou a queda do Feudalismo, uma vez que tornou os Castelos, símbolo de poder da nobreza feudal, obsoletos.

A pólvora não foi inventada, em si, pelos Árabes, mas sim pelos Chineses. Estes a utilizavam desde tempos muito remotos como fogos de artifício, mas os Árabes, ao compreenderem suas propriedades foram os primeiros a pensar numa utilização bélica para ela. Isso deve ter ocorrido no final do século XIII, tanto que, em meados do século XIV, o Império Otomano formava o primeiro corpo de Janízaros (soldados armados com arcabuzes, armas de fogo rudimentares que, segundo consta disparavam de tudo, desde pedras até flechas. Ao que parece, o chumbo só passou a ser utilizado como munição por volta do século XV) da História.

Os arcabuzes dos Janízaros Turcos, no entanto, não constituíam a mais importante utilização da pólvora na Idade Média, isso porque, esse arcabuzes eram lentos e muito perigosos para os soldados que os empunhavam (na realidade, as armas manuais de fogo só passaram a ter uma utilidade grande em campos de batalha quando, por volta do século XVII, os Ingleses descobriram as linhas de tiro, ou seja, quando eles faziam três ou mais fileiras de soldados e, depois que a primeira fileira disparava, começava a recarregar as armas enquanto a segunda e a terceira faziam seus disparos. Só então, a primeira fileira voltava a atirar, sendo assim, o fogo ficava praticamente contínuo), sendo assim, a grande utilização da pólvora na Idade Média foi, sem sombra de dúvidas, nos canhões que, graças ao poderio das grandes pedras lançadas por eles, destruíram vários Castelos, tornando assim, sua existência quase inútil.

Por fim, pode-se considerar a Bússola e o Astrolábio que, assim como a pólvora, não foram invenções dos Árabes, mas dos Chineses. Estes foram transmitidos aos Europeus pelos Árabes e revolucionaram a navegação. É verdade que o Astrolábio já havia sido inventado pelos Gregos na Antiguidade, porém, foi, como outras coisas, esquecido e os Chineses, apesar de posteriormente, tiveram a mesma idéia que os Gregos antigos haviam tido e inventaram um aparelho semelhante, que foi passado aos Árabes. Estes, por sua vez, o aprimoraram e tornaram-no indispensável à sua navegação.
 

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