BAKUNIN, Mikhail Alexandrovich: "Deus e o Estado". Nu-Sol/Imaginário/Soma, São Paulo, Coleção Escritos Anarquistas, 2000.

Gabriel Passetti
3º Ano - História/USP
passetti@klepsidra.net
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Este trabalho não pretende de maneira alguma esclarecer ao leitor em cinco páginas toda a teoria e a crítica de Bakunin, visto que isto seria impossível dentro de uma resenha de livro até para um especialista no tema. Para um iniciante aluno de graduação em História, então... resta analisar e pontuar alguns assuntos de interesse ao leitor de Klepsidra.

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Vivemos atualmente em tempos de questionamento do papel dos Estados com a criação dos blocos econômicos, com o neo-liberalismo e com o crescimento das ONGs; em tempos de crescimento dos conflitos religiosos no mundo - vide Oriente Médio, Afeganistão, Irlanda, etc - e de mudanças na religiosidade brasileira - expansão das igrejas evangélicas e fortalecimento dos Carismáticos na Igreja Católica; em tempos de rápidas e assombrosas mudanças na ciência, com as técnicas de clonagem e a engenharia genética. Nestes tempos, a leitura do clássico Deus e o Estado de Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) se faz cada vez mais interessante, atual e reveladora.

Escrevendo na Europa da segunda metade do século XIX, Bakunin apresenta-nos uma crítica que é um retrato do momento em que passava aquela sociedade, na qual vivia e contra a qual lutava.


O padre carismático Marcelo Rossi

Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876)
Nesta sociedade, as implicações da Revolução Francesa já faziam-se muito presentes, com idas e vindas do poder nas mãos de burgueses e monarquistas na França, além de debates no campo ideológico e dentro do movimento operário internacional, que faziam-se cada vez mais intensos - principalmente entre as correntes vinculadas ao pensamento do próprio Bakunin e aquela vinculada a Karl Marx e Friedrich Engels. A Revolução Industrial já mostrava a sua faceta mais forte e cruel em países como a Inglaterra, a Alemanha e a França.

A crítica de Bakunin fundamenta-se na relação intensa entre o poder do Estado e de sua oligarquia dirigente com o poder da Igreja (e/ou da religião) e o do clero, ambos grupos defendendo seus próprios interesses contra aqueles da maioria da população.

Igreja e Estado estão desta forma intimamente ligados desde suas origens, dependendo e justificando-se mutuamente. O autor trabalha fundamentalmente com a Igreja Católica e com algo das Igrejas Protestantes, entretanto, como veremos, tal relação Estado-Religião pode ser feita em todas as religiões com relação aos seus Estados.

Deus e o Estado apresenta para seu leitor alguns pontos principais de discussão. Além da óbvia relação entre religião e Estado que está delimitada no título do trabalho, questões envolvendo a teoria anarquista de Bakunin, o papel da ciência como substituidora da religião e a legitimidade das autoridades são discutidas na obra.
 
 


Bakunin, "Deus e o Estado"
Materialismo e Idealismo

A fundamentação teórica para a discussão entre a ligação entre Estado e Religião passa inicialmente pela questão da origem das religiões. Estas, se dizem idealistas e se contrapõem àquilo que seria o materialismo. Seu ideal seria o passado, e a sociedade viveria em uma queda contínua a partir do ponto inicial - a Criação.

Entretanto, as sociedades humanas ao desenvolverem-se, passam a negar as suas origens primatas, selvagens e ignorantes para desejarem o futuro idealizado. Assim, as origens passam a ser vistas como um ponto negativo para a sociedade, e o inverso deste momento, ou seja, o ponto final da ascensão se torna o ápice. Está assim invertida a questão teológica envolvendo o materialismo e o idealismo.

Os idealistas (religiosos e defensores da "cidadania burguesa"), que teriam como origem e explicação para tudo um ideal, Deus, no seu desenvolvimento passam a negar esta origem idealista para se aproximarem cada vez mais do seu oposto, o materialismo - fixação às coisas mundanas, ao despotismo e à brutalização da sociedade - enquanto que os materialistas (anarquistas), fariam o caminho inverso. Partindo do físico, da vida e do homem, buscam a idealização, a humanização e a emancipação social.

Assim, a ordem vigente foi invertida, mostrando-se que na realidade são os que se dizem idealistas aqueles que ligam-se mais ao material, e os materialistas são aqueles que na realidade buscam o ideal - a liberdade.
 

Ciência como solução e contraposição à religião?

Apesar de Bakunin viver em uma época de grande exaltação e deslumbramento com os descobrimentos da ciência, ele apresenta uma crítica ferrenha aos cientistas e à sua pretensa autoridade, anunciando o que viria a ser a ditadura da ciência tempos depois.

Ele usa a ciência como parâmetro para criticar a religião, afirmando que as leis naturais - que fazem a ciência - são aceitas por todas e regem a vida individual e da sociedade, sendo portanto o verdadeiro fundamento para o novo modelo de vida proposto. Ciência e religião são opostos, e a ignorância da ciência teria sido o motor gerador das crenças mais remotas em nossos antepassados.

Apesar do elogio à ciência e do reconhecimento de sua importância, Bakunin alerta quanto ao governo a partir desta. Não há autoridade legitimamente imposta, e a autoridade de um cientista seria imposta. Mesmo os maiores gênios, no momento em que passassem a formar uma casta privilegiada e governante, começariam a dedicar-se menos à ciência e mais ao trabalho de manter sua posição social privilegiada.

O governo a partir da ciência faz-se, portanto, ilegítimo e desprezível, visto que este geraria somente uma nova casta privilegiada. A ciência não funcionaria como modelo de governo, visto que seus estudos baseiam-se na abstração e não na realidade, pensando esta realidade e não sendo esta realidade, pensando sobre a vida e não sendo a vida. Assim, deturpada, a imagem da vida e da realidade poderia ser manipulada. A vida social deve reger-se, então, a partir destes dois princípios e não da ciência.
 

Ela em si é uma autoridade por trabalhar com as leis da natureza, as leis da vida, mas quem trabalha com ela, o cientista, não pode ser tratado como autoridade.

A função da ciência deve ser unicamente a de iluminar a vida, e não de governa-la. Se a iluminação da ciência se faz de maneira desigual e cambaleante, então é preferível que não exista esta iluminação, portanto, se a ciência trabalha e existe somente para alguns, é melhor que ela não exista, para que não haja nem autoridade e nem hierarquia.


Celera, empresa norte-americana que seqüenciou o
genoma humano e agora vende as informações colhidas

Bakunin não contesta a autoridade da Natureza, de suas leis e da vida, que são reconhecidas por todos - não impostas por Estados ou Igrejas - e assim são legítimas. A força natural, por ser a base da existência humana, não permite a desobediência. Por outro lado, as outras autoridades são contestáveis. Todas, desde o cientista até o senhor, não são autoridades inerentes ao homem ou à Natureza, não fazem parte da base da sua existência e portanto não tem porque existir.
 
 

Deus(es) e o Estado

A origem da religião está no desconhecimento de nossos antepassados do mundo que os cercava, das Leis Naturais. Assim, inteligência, vida, relações e movimentos saem da matéria, passam de serem meras manifestações naturais e tornam-se abstração: Deus.

Criado o plantel de deuses, o Homem não tinha conhecimento que ele próprio o havia criado, e passa assim a temê-lo e a ser seu escravo. Rapidamente, surge uma casta de intermediadores, que aproveitando-se da ignorância e da pobreza reinantes passa a utilizar-se da religiosidade para seu próprio proveito. Tendo os deuses se estabelecido no imaginário coletivo, surge o clero, os inspirados intermediadores da sabedoria dos deuses, ou seja, a autoridade e a hierarquia do conhecimento e da inspiração.


D. Pedro I é coroado Imperador do Brasil pela Igreja Católica

Com o passar do tempo, apenas a fundamentação moral não funciona mais para legitimar tal poder, devendo assim ser acompanhada da fundamentação da espada, do Estado, que é legitimado e legitima a religião, acompanhando seu modelo de hierarquização e autoridade. Ambos andam desta forma lado-a-lado. Na teologia nada é contestável, tudo é auto-explicativo. No Estado, nada deve ser contestado.

Todas as religiões têm um calcanhar de Aquiles: quando, como e porque o Ser divino eterno, infinito e absoluto, entediado de si mesmo resolveu criar o Homem? Nenhuma religião nem ninguém tem a resposta à esta questão, não há discussão, afinal os deuses seriam tão superiores que nos restaria apenas louva-los e não entendê-los. Mas, reconhecer que tudo o que é grande e belo é divino é desacreditar na potencialidade da humanidade, transforma-la na escória, no lixo, na oposição do poder total de Deus. E é exatamente contra isto que Bakunin lutava.

Os padres conduzem seu rebanho - nome um tanto pejorativo e demonstrador da visão dos fiéis como ignorantes e manipuláveis - e não sacrifica-se por ele, ao contrário, o sacrifica em nome de Deus e da Santa Madre Igreja.

A manipulação dos fiéis permite então a rápida acumulação de poder e propriedades nas mãos da casta dirigente, que passa a utilizar-se desta grandiosidade para buscar por novas formas de conquistar mais poder e fontes de riqueza, e encontra assim a formação do Estado como uma excelente base para administrar e justificar seu poder, fazendo com que em uma via de dupla mão, ambos - Igreja e Estado - beneficiem-se mutuamente do poder para conquistar ainda mais poder e mais recursos para seus dirigentes.

Passa-se então ao momento histórico dos Estados Religiosos, onde as Cruzadas, as Navegações, a Escravidão Moderna e a Exploração do Desconhecido são justificadas pela religião e aplicadas pelo Estado. O vínculo torna-se claro e inegável: a dominação é legitimada e estimulada pelas duas instituições.
 
 

Maximilien Robespierre
Voltaire disse uma célebre frase: "se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo". Bakunin, rebate-a: "se Deus existisse, seria preciso aboli-lo", afinal, "se Deus existe, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe" (p. 29). Voltaire, entretanto, não compreendeu que o Deus que ele buscava não era o dos idealistas, e sim o dos materialistas, ou seja, o Estado. Este novo deus foi criado, assim com o Outro, e sua forma mais moderna foi a sugerida por Russeau e aplicado fielmente por Robespierre.

A Revolução Francesa em seu princípio, derrubou Monarquia e Igreja. Mas, estabelecida no poder, a burguesia percebe que para preservar seus recém-conquistados privilégios contra a massa proletária ainda insatisfeita, não bastaria somente o Terror, a guilhotina e o rifle, mas sim também a moral. Abrem-se então as portas da França para o retorno da Igreja, que legitimará então mais uma vez o Estado e seu poder despótico.

A educação passa a ter com a passagem do tempo cada vez mais importância, visto que a qualificação dos trabalhadores se faz necessária ao mesmo tempo e que o controle destes torna-se cada vez mais complicado. 

A Escola passa, então, a funcionar como órgão legitimador da ideologia estatal, ensinando que Deus, para consolar-nos dos problemas da vida terrena enviou-nos os Santos Governantes, que devem ser louvados e reverenciados, Santos Homens como os Reis Ibéricos, os Czares e Napoleão!

O poder, a onipotência, a onipresença e a onisciência fazem com que Deus seja obviamente infinitamente maiores e melhores do que todos os homens juntos jamais serão.
 

Este poder total e avassalador entra na mentalidade das pessoas, que passam a compreender que o controle e o poder total do Estado também são fenômenos normais assim como Deus. 

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Nos nossos dias, a discussão em torno dos pontos levantados por Bakunin faz-se cada vez mais intensa e mais importante. Conflitos religiosos proliferam-se pelo mundo ao mesmo tempo em que conflitos anti-globalização tornam-se cada vez mais fortes e violentos. Ciência, Estado e Religião estão cada vez mais com uma ligação umbilical. A leitura de Deus e o Estado é cada vez mais atual, sendo uma boa base para a compreensão da força do Estado, das igrejas e seus discursos legimitizadores a partir do ponto de vista anarquista.

Carlo Giuliani, manifestante anti-globalização é assassinado
pela polícia italiana durante confrontamentos ocorridos por
causa de reunião do G-8 em Gênova. O Estado mostra sua faceta
mais violenta e cruel na defesa dos seus próprios interesses.

 

Bibliografia

AVRICH, Paul: Anarchist portraits. Princeton University Press, Princeton, s/ data.

GUÉRIN, Daniel: El Anarquismo. Nodan, Buenos Aires, 1975.

HARRISON, Frank: The Modern State. Black Rose, Québec, 1983.

NETTLAU, Max: La Anarquia a traves de los tiempos. Júcar, Madri, 1977.

TOMASSI, Tina: Breviario del pensamiento educativo libertario. Associación Artística La Cuchilla, Cali, 1988.

WOODCOCK, George (seleção): Os grandes escritos Anarquistas. L&PM, Porto Alegre, 1981.

WOODCOCK, George: Anarchism: A History of libertarian ideas and movements. Penguin, Londres, 1962.